O Darcisismo, por Zuenir Ventura

Educador, Darcy tentou ensinar o Brasil, tão rejeitado e carente de amor-próprio e auto-estima, a abandonar a humil­dade e a assumir o darcisismo: a ser autoconfiante, orgulhoso, egocêntrico, a ser como ele mesmo, Darcy, que gostava de se confundir com o Brasil e ser sua encarnação e metáfora.

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“Somei mais fracassos que vitórias, em minhas lutas”, ele mesmo dizia. Mas achava preferível assim. Como suas causas seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas”. Por isso, quando recebeu o título de doutor honoris causa, da Sorbonne, avisou que só aceitava por suas “derrotas”.

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Todo o esforço teórico de Darcy foi no sentido de respon­der a uma pergunta: por que o Brasil não deu certo? Sempre achou que as explicações eurocêntricas nunca deram conta da complexidade de nossa formação, daí porque não aderiu ao marxismo, ainda que tivesse recorrido a Marx e Engels.

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Autor de uns quarenta livros, criador da Universidade de Brasília, inventor dos Cieps [Centros Integrados de Educação Pública] e do sambódromo, ele não gostava de nossas classes dirigentes. Se em Rousseau quem corrompe o homem natural c a sociedade, em Darcy os corruptores têm um nome: a elite, que não é poupada. Ontem, ele acusava, ela olhava o pobre “como o carvão que se queima”. Hoje, manda o policial subir as favelas com a mesma atitude brutal do caçador de escravos. O ultimo país do Novo Mundo a acabar com a escravidão é hoje o pior em educação. Com um sopro poderoso de indignação e revolta, ele vergastava nossas classes dirigentes sem discutir mesmo se seria assim tão inocente um povo que engendra tal elite.

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O enterro de Darcy Ribeiro no cemitério São João Batista, no Rio, no dia 18 de fevereiro de 1997, foi como ele quis, glauberiano, formidável, miscigenado e sincrético, mistu­rando brancos e negros, credos e crenças, várias bandeiras, Bach e hinos patrióticos. Nunca se viu um funeral tão festivo e divertido. Uma de suas “viúvas” confessou: “Destampei o cai­xão, acariciei o seu rosto e lhe disse uma série de obscenidades, como ele gostava”.

VENTURA, Zuenir. Minhas Histórias dos Outros; Ed Planeta 2005; pg 220/223

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BANDIDO BOM NÃO LÊ, por Zuenir Ventura

João nunca deu dinheiro a Márcio VP na cadeia. Levava livros, mas não movido por “idéias civilizatórias”. Ele pedia e comentava o que lia. “Era alimento, e ele reagia ao que comia”. De sua biblioteca no presídio constavam Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil, de Sérgio Buar-que, O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, contos de Machado de Assis, A ditadura envergonhada, de Elio Gaspari. Tinha predileção por três autores: ítalo Calvino (leu primeiro Barão nas árvores e pediu os outros dois: Cavaleiro inexistente e Cava­leiro partido ao meio), Augusto dos Anjos, que adorava, e Albert Camus (principalmente O Homem revoltado), que gos­tava de citar.

Alguns desses volumes cobriam o corpo de Marcinho VP, quando foi encontrado dentro de uma lata de lixo. Em cima, um cartaz de cartolina dava a medida do ressentimento dos que o mataram: “Bandido não lê, seu babaca”.

 

VENTURA, Zuenir. Minhas Histórias dos Outros; Ed Planeta 2005.

 

De Ventura a Fidel , por Mateus Nikel

Curiosamente, só na metade é que a década de 8o resolveu mostrar que tinha algo de novo a oferecer: estávamos caindo na democracia. E nada dava mais trabalho do que ser plural e acei­tar o outro – não o igual ou semelhante, mas o oposto. A pri­meira lição do ano era, portanto, a de que democracia não é consenso, mas dissenso. Em termos de opinião, todos só são iguais perante a ditadura. Na democracia, tudo é diferença.
(…)
Em todo os campos, os novos ares se fizeram sentir. No telejornalismo, por exemplo, houve alguns momentos marcantes, em especial dois.O primeiro foi o debate na estatal TVE entre ninguém menos que o veteraníssimo dirigente comunista Luís Carlos Prestes e o economista ultra-liberal Roberto Campos, o comunismo e o capitalismo cara a cara. Outro marco foi a entrevista de Roberto D’Ávila com Fidel Castro. Pela primeira vez em vinte anos, o público brasileiro pôde ver e ouvir o que pensava um dos líderes políticos mais polêmicos do século.

VENTURA, Zuenir. Minhas Histórias dos Outros; Ed Planeta 2005 pg 140/141

A partir desta passagem resolvi mais uma vez tentar achar a bendita entrevista do Fidel ao Roberto D’ávila.

Desta vez tudo certo, a bendita da entrevista já estava no Youtube a mais de um ano !!!

Como já li muitas vezes, o fascínio de Fidel é totalmente parcial: ou o ama ou o odeia. É de fato que a Revolução Cubana foi um dos movimentos históricos mais inacreditáveis da história.

Neste exato momento me vem a memória os versos de Gullar.

“Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana …”

Mais uma vez saio convicto que Castro é um dos estadistas mais inteligentes da História.

Nesta entrevista, Roberto D’avilla visita serra maestra e sai com o general pelas ruas de Havana. Só não sei que as criancinhas e passantes que perguntavam tudo à Fidel estavam ali montados. Apesar de se safar de algumas perguntas como: o problema do partido único e as eleições não diretas, Fidel dá um passeio nas respostas (parcialidade minha).

A dívida externa mais uma vez é citada. Mostra-se o absurdo que “países desenvolvidos”  nos obrigam a pagar !!!

É interessante como apenas sete fuzis e meia dúzia de homens conseguiram expulsar um ditador mais que apoiado pelos EUA em apenas 2 anos e meio. Como o próprio Castro relatou:

Se as ideias não são corretas fracassam. Nós só tinhamos ideias.

O que mais me chamou a atenção foi a defesa dos paredões de fuzilamentos, paredões estes que são alvos de ataque direto à revolução Cubana.

De acordo com Fidel Castro cerca de 20 mil camponeses cubanos foram assassinados por vingança pelas tropas de Batista. Se recentemente Sadam pagou por seus crimes sendo enforcado e em Nuremberg vários Nazistas tiveram os mesmo fim, porque tantas críticas aos paredones?

Peço que meus amigos me ajudem !!!

Lembrando 68, por ZUENIR VENTURA

Uma das perguntas que mais ouvi nestes últimos dias foi sobre as semelhanças e diferenças entre as manifestações de agora e as de 1968. Seria a reedição 45 anos depois de um modelo-matriz ou um fenômeno de massa inteiramente novo? Ou seria um pouco de cada coisa? Talvez isso. Começando pelas mudanças: o país não vive mais numa ditadura (embora a polícia às vezes tenha agido como se vivesse); os jovens não pertencem mais a uma só geração, mas a diferentes tribos. E, sobretudo, existe hoje a onipresente internet, capaz da mobilização instantânea, viral e sem limites. Distantes os tempos em que a organização de uma passeata exigia longa preparação e intermináveis discussões em assembleias.

 

De semelhante entre os dois momentos, permanece a disposição estudantil que parecia anestesiada, como também naquela época (na França, um sociólogo perguntava: “Por que não acontece nada por aqui?” No dia seguinte, Paris pegou fogo). De igual ainda, o sentimento difuso de insatisfação, que é cumulativo e não depende apenas de uma única motivação ou pretexto.

 

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Vem vindo, vem vindo até que uma gota (ou alguns centavos) no pote até aqui de mágoa provoca o transbordamento. Os sinais emitidos nem sempre são captados, porque parecem desconectados, quando na verdade estão formando uma rede com poder de contágio. Só o governo talvez não tenha percebido que o fantasma da inflação, a corrupção desenfreada, a incerteza econômica, a alta no custo de vida, a queda de oito pontos na popularidade de Dilma, a vaia no estádio Mané Garrincha, tudo isso fazia parte do mesmo e crescente caldo de rejeição.Pelo menos uma lição de 68 não foi aprendida e assim não se evitou o incidente mais lamentável das manifestações do Rio: coquetéis molotov atirados contra a Alerj e carros incendiados na marcha dos 100 mil anteontem. Em julho de 68, na lendária Passeata dos 100 Mil, Vladimir Palmeira, o líder do movimento no Rio, convidou os participantes a se sentarem no chão, o que proporcionou a Nelson Rodrigues uma fina gozação. Segundo ele, médicos, poetas, atrizes, sacerdotes, todos obedeceram.

 

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“A única que permaneceu de pé e assim ficou foi uma grã-fina, justamente a que lera as orelhas de Marcuse”.

Muito tempo depois, Vladimir explicou o que pretendeu com o gesto: demonstrar as “intenções pacíficas da manifestação para a polícia e para alguns companheiros”. Assim, os “porraloucas” desistiram de invadir rádios, como queriam, e os policiais não ousaram bater em pessoas sentadas no chão, inclusive freirinhas.

 

O GLOBO – 19/06

 

LINK: http://avaranda.blogspot.com.br/2013/06/lembrando-68-zuenir-ventura.html