Antropologia e Educação

etnocenstrismo

Mesmo no século XXI a sociedade parece que aprendeu pouco (ou nada aprendeu) sobre a espécie a que pertence. Ainda hoje, existe uma concepção de desenvolvimento humano travestida de superioridade classista. A ideia deste post é mostrar que nem todo ser pensa e age de maneira “certa” e que não há uma receita de história ou sociedade. Abordaremos alguns autores que foram pesquisar o desconhecido e saíram de uma visão “científica e neutra da sociedade”. Tentaram entender o ser humano fora de um padrão universal, que na verdade nada mais era que uma visão de uma classe dominante para impôr sua visão de mundo sobre a maioridade das pessoas.

Assim como na sociedade, estes pesquisadores acabaram se espelhando na antropologia para desmascar alguns mitos sobre aprendizado e, principalmente, sobre o taxamento daqueles que não conseguem o sucesso escolar.

A visão Positivista da Sociedade

Segundo Sarup (1980), ainda pensamos nas relações sociais com uma abordagem recorrente da SOCIOLOGIA POSITIVISTA (corrente esta criada por Auguste Comte, na qual acreditava-se em um método neutro de pesquisa e na racionalidade técnica). Segundo o autor, esta visão de mundo quando aplicada à educação, não pode ir além de uma engenharia social estreita, reformista e fragmentada (pg 14). Caso o leitor se interesse, poderá consultar o post Comportamentalismo e ver a união desta corrente psicológica com o Behaviorismo.

Os sociólogos pós-darwinianos, entre eles aparece em destaque a figura de Comte, acreditavam na teoria da evolução com um enfoque social: a sociedade evoluía num movimento ascendente, da comunidade primitiva para à megalópole civilizada. Argumentava-se que o adulto primitivo equivaleria a uma criança civilizada. A cultura primitiva, logo era mística e pré-lógica. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento técnico da sociedade em que o indivíduo se situava.

Em certos casos, as suposições de muitos educadores sobre a criança marginalizada eram semelhantes ao aspecto sociológico citado anteriormente. Por que o educando dos grupos mais pobres de nossa sociedade não tem na escola o desempenho que deveriam ter?

Do Positivismo ao Etnocentrismo

Supunha-se que as crianças, como os “primitivos”, não dispunham de instrumentos conceituais para compreender as formas de conhecimento que resultaram historicamente no conhecimento escolar. Sarup (1980) argumenta que esta visão da educação é etnocentrista. Segundo Rocha (2006), o Etnocentrismo é uma visão do mundo com a qual tomamos nosso próprio grupo como centro de tudo, e os demais grupos são pensados e sentidos pelos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência (pg 7).

Dito de outra forma: ser etnocêntrico é acreditar que só existe uma verdade (a nossa) e uma beleza (a nossa), assim como também só existem a nossa justiça e a nossa racionalidade. Em O que é etnocentrismo, o antropólogo Everardo Rocha escreve: “Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência”.

(URIARTE 2012)

Na sociedade multicultural da atualidade, a visão etnocêntrica (tendo a cultura européia como centro) acaba monopolizando a lógica formal da classe média , segundo a qual: através das “formas de conhecimento” pode haver o desenvolvimento da racionalidade e da mente. Entretanto, a definição de conhecimento varia nas diferentes culturas. Logo, as divisões que fizemos entre conteúdo escolar e não escolar podem e devem ser modificadas.

Assim como levavam os antigos nativos a ter vergonha de seu mundo, sendo prescrito um novo modo de ver o mundo pelo antropólogo ocidental; as crianças são submetidas a formas reificadas de conhecimento, que produzem uma visão mecanicista e determinista de realidade social.

A reificação foi descrita como “aquele processo histórico e politico pelo qual os produto da prática humana, as expressões objetificadas da interação do homem com outros homens e com a natureza, se tornam alienados dos produtos reais e com isso parecem à consciência como coisas autônomas e independentes”. Discutindo esses aspectos da reificação, John Holton observa que em termos políticos “reificar” significa legitimar uma prática exploradora sob a alegação de que é um padrão fatual e invariável do ajustamento humano. O pensamento reificado não apreende nunca o caráter prático, administrado, da realidade. A reificação está, é claro, implícita no conceito de alienação e é parte integrante de qualquer crítica do capitalismo.

(SARUP 1980, pg 89. Grifos meus)

Do Etnocentrismo à Relativização

Ao longo dos anos, algumas ideias travaram embates com o etnocentrismo. Uma das mais importantes foi o relativismo. Quando percebemos que “as verdades da vida” são na verdade leis impostas, e não uma “ordem natural”, estamos relativizando.

(…) Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. Relativizar é não transformar a diferença em hierarquia, em superiores e inferiores ou em bem e mal, mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença.

(ROCHA 2006, pg 20)

Relativizar é sempre mais complicado, pois saímos de nossa zona de conforto e abrir mão de nossas certezas etnocêntricas.

A nova sociologia da educação e a incorporação dos estudos antropológicos

Uma das características da “nova sociologia da educação” (NSE- corrente defendida por Sarup) é uso que faz dos estudos antropológicos. Este ramo da sociologia apresenta maneiras diferentes de ordenar não só a educação, como a própria vida. Argumenta-se que embora existam diferenças culturais, as outras culturas não são necessariamente deficientes. De fato, a existência de outras lógicas e racionalidades adequadas desafia o caráter absoluto de nossa própria cultura.

As divisões feitas entre conhecimento escolar e conhecimento não-escolar, entre trabalho teórico e prático, mental e manual, não são naturais; mas sim convencionais. Estas segregações não são imutáveis, mas sim produzidas pelos homens em certos períodos sócio-históricos. Em suma, a antropologia leva a um questionamento daquilo que normalmente aceitamos sem análise e nos dar consciência de outras maneira de fazer as coisas, e outras formas de vida (pg 15).

Uma característica importante na “nova sociologia da educação” é o uso e o interesse crescente por alguns trabalhos antropológicos, principalmente os etnógrafos (os etnógrafos recolhem dados pela observação e trabalho de campo e não são necessariamente antropólogos). As contribuições educacionais destes profissionais surgem na semelhança entre as suposições antropológicas do século XIX e os pressupostos de alguns educadores do século XX.

Em nossa sociedade, predomina a concepção que alguns indivíduos ou grupos desenvolvem capacidades intelectuais superiores, comparados com a maioria da população (uma prova disso é a massificação dos testes de QI). O desenvolvimento é visto como a aquisição de estruturas de uma ordem maior e mais elevada. Uma aplicação popular desta regra é a criança marginalizada, que acaba sendo vista como “culturalmente carente” ou um “nativo primitivo”, sem instrumentos conceituais.

Poucos trabalhos até então abordavam as diferentes culturas representadas numa sala de aula, pouco se fazia sobre os processos lógicos ou as estratégias cognitivas. Porque os pobres tendem a se dar mal nos exames escolares? Segundo Sarup (1980), estes testes ressaltam os contrastes da classe média e quantifica divergências a partir da cultura desta mesma classe média. Há ainda, o absolutismo da questão psicológico relativa aos processos de ensino/aprendizagem. A cognição não é apenas um fator psicológico, é também um processo que sofre influência cultural.

Quando tratamos de conteúdos educacionais, ocorre a “imposição” dos valores da classe média (considerados a corrente principal) e imposto a todos pela seleção, “ritmo” e avaliação do conhecimento escolar. Tendo em vista esta manobra e seu insucesso pré-determinado, argumenta-se então que o desenvolvimento cognitivo dos grupos mais pobres é embotado, ou melhor, deficientes.

Na verdade, existem lógicas diferentes, socialmente construídas e socialmente situadas entre o grupo para o qual são os modos lógicos de pensar e agir. Em nossa cultura, há a predominância da visão etnocêntrica.

Segundo os etnólogos: a cognição está relacionada com o contexto cultural, logo o conhecimento não pode ser estudado como atividade isolada de seu meio influente. Assim como a cognição, a ação sempre é dependente de um contexto situacional. Além destes dois itens, outros como: as palavras, a linguagem e os significados, deveriam ser sempre estudados em relação com o contexto local.

Além disso, as pessoas sabem fazer bem o que é importante para elas. Sarup (1980) exemplifica o caso dos ilhéus de Puluwat: estes indivíduos aprenderam a construir barcos e navegar, sendo para isso ensinados via tradição oral (dispondo, assim, de um corpo especifico de conhecimentos ao mesmo tempo práticos e úteis). Eles se locomovem em canoas sem o auxílio de uma bússola, por milhas e milhas no oceano pacifico. Esta navegação depende de aspectos do mar e do céu, baseando-se num sistema lógico tão complexo, que os ocidentais não podem reproduzi-lo sem o uso de instrumentos avançados. Desta maneira, o que é aprendido como prático em Puluwat, seria altamente teórico e abstrato em qualquer colégio naval do mundo “civilizado”. Ironicamente, quando um navegador de Puluwat é submetido aos nossos testes de QI, obtém um índice baixo.

Os testes de coeficiente de inteligência (QI) são inadequados e intransigentes, pois violam os princípios exemplificados anteriormente: a cognição se relaciona com o contexto cultural e as pessoas fazem bem aquilo que tem algum significado para elas. Da mesma maneira, eles são insuficientes para as classes mais pobres de nossa sociedade. Afinal, em uma sociedade tão complexa, encontramos diferentes modos de pensar e a diferença de raciocínio entre uma criança pobre e uma de classe média pode ser uma dado relevante na carreira escolar.

Encerramos este assunto alertando que: não existe um tipo universalista de pensamento, ou de lógica; eles não são absolutos, mas situacionalmente específicos. Aquilo que é considerado abstrato, está culturalmente situado. Devemos levar em consideração que numa sociedade de classe, algumas culturas são oprimidas e privadas de bens culturais. Sabemos que o entendimento de uma cultura é muito difícil, mas somente com a nova sociologia da educação, começamos a perceber como conhecemos pouco sobre o processo de aprendizagem dos “estrangeiros” na escola. Pouco se sabe como as crianças dão significado à experiência educacional, como elas se adaptam, interpretam e dão sentido.

REFERÊNCIAS

SARUP, Madan. Marxismo e Educação: Zahar Editores, 1980.

ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é Etnocentrismo- São Paulo: Editora Brasiliense, 2006. (Coleção Primeiros Passos)

URIARTE, Urpi Montoya. Euro, Etno e outos centrismos. Revista de História da Biblioteca Nacional, 2012. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/educacao/euro-etno-e-outros-centrismos

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