ULTRAMAN

No meu tempo de moleque
Os monstros queriam dominar a terra,
Invadir mentes e corpos,
Mas o Ultraman
Dava cabo de todos eles.
Hoje,
Os monstros,
Dominam o universo.
Matam de fome
De sede
E escravizam os mais fracos.
Os heróis,
São todos bunda-moles.

Sérgio Vaz

*do livro “Colecionador de pedras” Global Editora

aaaaaaaaaa

 

ANTES QUE SEJA TARDE por Sérgio Vaz

Se não fosse tão covarde acho que o mundo seria um lugar melhor. Não que o mundo dependa de uma só pessoa, mas se o medo não fosse constante ajudaria as milhares de pessoas que agem como centelhas tentando criar uma labareda que incendiasse de entusiasmo a humanidade.

Mas o que vejo refletido no espelho é um homem abatido diante das atrocidades que afetam as pessoas menos favorecidas.

Se tivesse coragem, não aceitaria as crianças passarem fome, frio e abandono, que  nos assustam nos semáforos com armas, pedem esmolas, amontoadas em escolas que não ensinam, e por mais que chorem, somos imunes a essas lágrimas.

Você acha que se realmente tivesse coragem aceitaria uma pessoa subjugar a outra apenas pela cor da sua pele? Do seu cabelo? Um poema é quase nada disso tudo.

Sou um covarde diante da violência contra a mulher, da violência do homem contra o homem que só no Brasil são 50000 deles  arrancados à bala. O que dizer da violência contra os homossexuais e mendigos?

E se tivesse mais fé, de maneira alguma aceitaria que um Deus fosse melhor que o outro. Sou tão covarde que nem religião  tenho, e minhas mãos poderiam ajudar a construir um templo onde caberiam todas elas, mas eu sou incapaz de produzir esse milagre. De repartir o pão.

E porque os índios estão tão longe da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem meu coração, não me importo que lhe tirem suas terras, sua alma … E analfabeto de de solidariedade não sei ler sinais de fumaça. Se tivesse um nome indígena seria “cachorro medroso”.

E se fosse o tal ser humano forte que alardeio por aí, não aceitaria famílias sem ter onde morar. Não nasci na favela, mas meu coração é de madeira, fraco.

A lei é cega, mas acho que lhe fizeram transplante de órgão. Assisto à falência da educação e o massacre dos professores e sei que muitas vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de segurança máxima.

Fico em silêncio quando a multidão desinformada pede a redução da maioridade penal, porém, mal sabe ela que se não educarmos nossas crianças vão ter que prendê-las com 16 anos, depois 14, depois 12, até que não tenhamos mais crianças mas ruas.

Estão cortando árvores e aceito a cada de pau dos donos das serras elétricas e sei que o machado está nas minhas mãos. Depois fico abraçando lago poluído.

Pago meus imposto e sei que eles não fazem nada, ainda assim falo propaganda da minha consciência tranquila. Desconfio que é essa tal “consciência tranquila” que está acabando com o mundo.

Calado assisto á falsa democracia deste país e me emociono com o hino cantado antes dos jogos da seleção na copa do mundo.

Perdoe-me por apenas ser poeta, e ter poemas como arma.

O mundo gosta das pessoas neutras, mas só respeita as que têm atitude.

Se não posso mudar o mundo deveria mudar a mim mesmo. Acho que é isso que vou fazer agora.

Ante que seja tarde.

 

 

http://colecionadordepedras1.blogspot.com.br/

COISAS DA VIDA (terra em transe)

Hoje
Eu vi uma criança acordada
comendo pão dormido.
Um homem desempregado
empregando uma arma.
Uma mulher vestida em trapos
lavando roupa cara.
Um policial desalmado
separando um corpo da alma.
Uma menina desnutrida
com a barriga cheia.
Uma bala perdida
procurando uma veia.
Senhoras de joelhos
andando sem destino.
Velhos com olhos vermelhos
chorando como menino.
Poetas loucos
cuspindo razão.
Anjos e demônios
na mesma religião.
A miséria na coleira da fartura
a vida fácil
às custas da vida dura.
Gente sorrindo
com o coração em pranto
surdos ouvindo
a canção dos falsos santos.
Vi mãos calejadas
beijando mãos macias
José nas enxadas
no cabo delas, Maria.
Com mansos olhos de fel
E a boca dura de fera
vi um país no céu
E o inferno na terra.

Sérgio Vaz

*do livro Colecionador de pedras (Global Editora)

 

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