Nem tão suíça, por RUY CASTRO

Blog A Varanda

RIO DE JANEIRO – Pouco antes de Brasil x Espanha, a TV deu em close um torcedor que já nos habituáramos a ver nos jogos do Flamengo: um negro plástico e desdentado, famoso na antiga geral do Maracanã pela alegria com que contagiava o pessoal à sua volta. Seu próprio deficit dentário era uma marca –simbolizava o Brasil profundo. Só que, neste domingo, ele não estava no Maracanã. Estava a alguns quilômetros, no Terreirão do Samba, assistindo ao jogo pelo telão.
Torcedores como ele não tiveram vez na Copa das Confederações. Foi assim em todas as sedes, e houve jogos em que os únicos negros na “arena” eram os que estavam em campo. Ao cobrar ingressos de ópera para o futebol, a Fifa tentou transformar em suíça –nacionalidade de seu presidente Joseph Blatter– a torcida brasileira. Era como se todo mundo ali fosse leitor de Hermann Hesse e Friedrich Dürrenmatt, conterrâneos de Blatter.

Por sorte, a realidade se encarregou de corrigir a azeda ordem unida da Fifa. Ficou provado, por exemplo, que não haverá necessidade de demolir os ginásios no entorno do Maracanã para construir estacionamentos, já que os torcedores foram desestimulados a ir de carro ao estádio e o transporte público funcionou bem.

O povo, por sua vez, não se conformou com o Hino Nacional em compota, reduzido a 90 segundos, e cantou a primeira parte completa, a capela –inclusive os jogadores. Os torcedores não puderam levar seus tambores e trompetes para o estádio (com o que não tivemos a Charanga do Flamengo para puxar o “Touradas em Madri”, como em 1950), mas os próprios jogadores se encarregaram de produzir a batucada, dentro do campo, ao fim do jogo.

E, obrigado pela Fifa a atravessar um corredor polonês para pegar sua medalha, Felipão recebeu o carinho da torcida –nada suíça– na forma de beijos e tapas na careca.