Zieglianas

(…) a OMC atacou a gratuidade da ajuda alimentar. Ela declarou ser inaceitável que o PAM (Programa Alimentar Mundial/ONU) e outras organizações distribuíssem gratuitamente – nos campos de refugiados, nas aldeias devastadas pelos gafanhotos, nos hospitais onde agonizam crianças subalimentadas – arroz, farinha, bolachas, leite… graças aos excedentes agrícolas fornecidos ao PAM pelos Estados doadores.

De acordo com a OMC, esta prática perverte o mercado. Qualquer transferência comercial de um bem deve ter um preço. Assim, a OMC solicitou que a ajuda em espécie que os doadores forneciam ao PAM fosse taxada em seu justo valor. Logo, o PAM não deveria mais aceitar ofertas em espécie provindas da superprodução agrícola dos países doadores e só deveria, a partir de então, distribuir alimentos comprados no mercado.

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Uma viúva da Aids na Zâmbia, com seus filhos pequenos, não se preocupa em saber se a ajuda alimentar que recebe provém de uma oferta em espécie de uma do PAM ou de uma contribuição monetária desse mesmo doador. (…) A cada ano, a fome mata mais seres humanos que a Aids, a tuberculose, a malária e todas as outas epidemias em conjunto (…) A OMC é um clube de ricos (…). O debate que ela conduz não é um debate sobre a fome, mas um debate sobre vantagens comerciais. (…). Pode-se tolerar a redução da ajuda alimentar a mães e crianças esfaimadas, que não tem nenhum papel no mercado mundial, em nome do liberalismo econômico?

 

(ZIEGLER 2013, pg 181-182)

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

 

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camaroesNo mercado mundial, os oligopólios jogam todo o seu peso para impor os preços dos alimentos – em seu próprio benefício, claro: o preço mais elevado possível! Mas quando se trata de conquistar um mercado local, eliminar concorrentes, os senhores dos cereais praticam sem problemas o dumping¹. Exemplo: a liquidação da avicultura autóctones em Camarões – ali, as maciças importações de frangos baratos jogaram na miséria dezenas de milhares de famílias que criavam frangos e abasteciam o mercado interno com sua carne e ovos. Uma vez destruída a produção local, os senhores dos alimentos aumentam seus preços.

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Atualmente, a OMC, o FMI e o Banco Mundial determinam as relações econômicas entre o mundo dos dominantes e os povos do Sul. Mas, em matéria de política agrícola, esses organismos se submetem, de fato, aos interesses das sociedades transcontinentais privadas. É assim que, originalmente encarregados da luta contra a extrema pobreza e a fome, a FAO e o PAM não desempenham, em relação àqueles organismos, mais que um papel residual.

¹Dumping: termo empregado para designar a prática mediante a qual, com o objetivo de eliminar concorrentes, as empresas reduzem, temporária e excessivamente, o preço de bens ou serviços destinados à exportação.(N.T.)

(ZIEGLER 2013, pg 157/159)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.