As teorias crítico-reprodutivistas e a escola dualista (FICHAMENTO)

Este post trata de um fichamento que compreende parte do capítulo 15 do livro Filosofia da Educação (ARANHA, 2006). Nesta parte da obra, a autora disserta sobre as críticas pertinentes à escola formal, instituição essa estabelecida na década de 70 do século passado.

1 Teorias crítico-reprodutivistas

Desde muito cedo, escutamos que estudando poderíamos crescer na vida e ganhar muito dinheiro. A crença otimista da escola como “instrumento de equalização”, ou seja, como meio de tornar iguais as chances para indivíduos que pertencem a classes diferentes, também atraiu muitos teóricos da educação.

Durante as décadas de 60 e 70 do século passado, diversos intelectuais franceses (oriundos principalmente das ciências sociais) chegaram praticamente na mesma conclusão: a ideia da função equalizadora da escola era ingênua, porque, em vez de democratizar, a escola reproduz as diferenças sociais, perpetua o status quo e, por isso, é um instituição altamente discriminatória e repressiva (pg 252).

BOURDIEU E PASSERON: A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA

Estes autores franceses escreveram duas obras: Os Herdeiros (1964) e A Reprodução (1970). Nestes escritos, encontramos severas críticas à instituição escolar ao analisar esta cultura a partir dos condicionantes sociais, concluindo pela total dependência da escola em relação à sociedade.

O mérito destes autores está em desfazer a ilusão de autonomia absoluta do sistema escolar. Neste caso, a escola está diretamente unida ao contexto social, marcando os indivíduos submetidos à educação de maneira inevitável e irreversível. Encontramos nestas características o que os autores chamam de: violência simbólica, escondida através de uma neutralidade pedagógica.

Denominamos violência simbólica o exercício do poder de imposição das ideias transmitidas por meio da comunicação cultural, da doutrinação política e religiosa, das práticas esportivas da educação escolar. A violência simbólica leva as pessoas a agir e a pensar por imposição, sem se darem conta dessa coação. Nesse sentido, a cultura e os sistemas simbólicos em geral podem se tornar instrumentos de poder quando legitimam a ordem vigente e tornam homogêneo o comportamento social (pg 252).

Desta maneira, a escola acaba se transformando em mais um instrumento de violência simbólica, já que, reproduz os privilégios existentes na sociedade e beneficia os socialmente favorecidos. O sucesso nos estudos está reservado àqueles cujas famílias pertencem à classe dominante, ou seja, os “herdeiros” do sistema vigente.

Os habitus são inculcados desde a infância por um trabalho pedagógico realizado primeiro pela família e, posteriormente, pela escola, de modo que as normas de conduta que a sociedade espera de cada indivíduo sejam interiorizadas por ele. Ora a educação familiar das crianças vindas das classes privilegiadas é muito próxima daquela que receberão na escola, isto é, seus hábitos familiares são semelhantes aos hábitos e ritos escolares. São crianças acostumadas a viagens, visitas a museus, contato com livros, discussões, além de ter o domínio da linguagem que é adotada na escola.

(ARANHA, Maria Lúcia Arruda 2006 pg 253)

Outras características são facilmente notadas: o “falar vulgar” é recriminado em relação ao “falar burguês”.

Torna-se bastante frequente a explicação de que as desigualdades com relação ao sucesso escolar resultam de “desigualdades naturais”. Logo, o sucesso dos educandos decorre de dotes naturais, qualidades inerentes, mérito pessoal, etc. Para os reprodutivistas, este tipo de justificativa representa uma forma de mistificação e de mascaramento das verdadeiras causas do insucesso escolar. O que essa “ideologia do dote” dissimula é a imposição da cultura de classe dominante sobre a classe dominada, levando a efeito pela ação pedagógica (pg 253).

Para os autores, as autoridades educacionais impõem sanções, determinando o reconhecimento da cultura dominante. Além disso, o sistema se baseia em formas aparentemente “neutras” de avaliação, tais como provas e exames, nos quais os excluídos (os menos dotados) acabam se reconhecendo como incompetentes.

ALTHUSSER: A ESCOLA COMO APARELHO IDEOLÓGICO DO ESTADO

O filosofo francês, considera a função da escola não de forma isolada, mas inserida no contexto da sociedade capitalista. Assim, desenvolveu a noção de aparelho ideológico do Estado. A instituição escolar reproduz a ideologia dominante, ao mesmo tempo, que ensina um saber prático. A noção de IDEOLOGIA representa: o conjunto de ideias da classe dominante estendido à classe dominada e que visa a manutenção da dominação. Por meio da ideologia, a exploração é mascarada e os valores da burguesia passam a ser considerados universais, não mais valores de determinada classe, impedindo o pensar do trabalhador (pg 254).

Louis Althusser (1918-1990). Frase retirada de: Ideologia e Aparelhos ideológicos do Estado (Bibliografia, pg 118)

Louis Althusser (1918-1990). Frase retirada de: Ideologia e Aparelhos ideológicos do Estado (Bibliografia, pg 118)

Althusser segue Marx desfazendo a crença na qual o Estado trabalha para o bem comum. Um exemplo bem claro disso é a justiça em nossa sociedade. Nem todos são punidos da mesma forma, já que, quem legisla e aplica a lei é a classe dominante, assim, conclui-se que ela tende a favorecer seus interesses.

Para o autor, a classe trabalhadora é marginalizada quando a escola não oferece chances iguais para todos, mas, ao contrário, determina de antemão a reprodução da divisão das classes sociais. Além disso, pela abrangência de sua ação, inculca a ideologia dominante e impede a expressão dos anseios da classe dominada.

(ARANHA, Maria Lúcia Arruda 2006 pg 255)

2 BAUDELOT E ESTABLET: A ESCOLA DUALISTA

Os franceses Roger Establet e Christian Baudelot escreveram em 1971 “A escola capitalista na França”. Um dos pontos bastante interessantes trata da crítica que os autores fizeram aos seus compatriotas Bourdieu e Passeron. O livro observa a contradição real entre classe dominante e classe dominada e leva em conta a força latente da ideologia do proletariado.

Para Establet e Baudelot, se vivemos em uma sociedade dividida em classes, não é possível haver uma escola única. Existem na verdade duas escolas totalmente diferentes, antagônicas em todos os sentidos. As duas grandes redes de escolaridade são a secundária superior (SS) e a primária profissional (PP), que corresponde a divisão da sociedade proletária e burguesa.

Desde o começo, os filhos dos proletariados são destinados a não atingir níveis de ensino superiores, sendo encaminhados para atividades manuais. A escola, neste caso, tem a função de reproduzir as divisões sociais já existentes.

Desse modo, observa-se que a escola reafirma a divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual, já que nessa dicotomia repousa a possibilidade material da manutenção da estrutura capitalista.

Diferente de Bourdieu e Passeron, para Establet e Baudelot o proletariado possui ideologia própria, que se origina fora da escola, nas diversas organizações de operários. Por isso, cabe à escola não só inculcar a ideologia burguesa, mas também recalcar e disfarçar a nascente ideologia do proletariado.

BIBLIOGRAFIA

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação, 3ª edição, editora Moderna 2006

ALTHUSSER, Louis. Idelologia e Aparelhos Ideológicos do Estado; Tradução Joaquim José de Moura Ramos. Editora Presença Ltda, Lisboa/Portugal (sem data)

 

EPISTEMOLOGIA segundo Maria Lúcia de Arruda Aranha

quadro epistemologia

A tradução mais simples é “essência”, porém, o contexto no qual este termo é utilizado é bem mais amplo. Logo, transpassa um simples substantivo. Daí começam os tropeços de quem não saber exatamente o que significa este termo.

A teoria do conhecimento

Conhecimento pode ser entendido como uma relação que se estabelece entre a consciência que conhece e o objeto conhecido. A sociedade atribui à escola a tarefa da transmissão de saber aos indivíduos. Este saber é considerado “acabado”, contudo, desligado de muitas questões relativas à construção e imposição deste conhecimento.

A teoria do conhecimento é também chamada gnosiologia (do grego gnose, “conhecimento”) e epistemologia (do grego episteme, “ciência”). No entanto, o termo epistemologia adquiriu um termo mais específico, do estudo do conhecimento científico do ponto de vista crítico, isto é, do valor de suas hipóteses, do seu método, das conclusões alcançadas, da natureza do conhecimento científico, por isso a epistemologia é também chamada filosofia das ciências ou teoria do conhecimento científico.

(ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. 2006 pg 160. Grifos meus)

Questões relativas à problematização do conhecimento foram comuns desde os filósofos clássicos, porém, somente na idade média a teoria do conhecimento constitui uma disciplina independente. Foram os modernos, começando por Descartes, que começaram a investigar o que seria a origem do “conhecimento”, assim como a origem da “verdade”. Desta tendência, derivam duas correntes que veremos a seguir: o racionalismo e o empirismo.

Inatismo ou Empirismo

Rene Descartes (1596-1650). Pintura  feita pelo artista barroco Frans Hals – Museu do Louvre, Paris.

Rene Descartes (1596-1650). Pintura feita pelo artista barroco Frans Hals – Museu do Louvre, Paris.

O pensador francês Descartes (1596-1650) inovou filosoficamente ao iniciar a filosofia pela teoria do conhecimento. Começa a converter a dúvida em um método, portanto, começa a duvidar de tudo. Chega então á uma verdade suprema: penso, logo existo.

Seguindo sua linha de raciocínio, Descartes começa a descobrir uma série de ideias claras e distintas. Estas ideias não derivam das experiências, mas sim, encontram-se no espírito humano de forma “inata”.

Suas ideias não são sujeitas a erros, pois, vem da “razão”. Assim sua filosofia é classificada como “racionalista”. Descartes acredita que o conhecimento está dentro de cada um, cabendo apenas o exercício da reflexão para atingirmos a “verdade”.

Apesar de John Locke (1632-1704) ter tido grande influência de Descartes, suas proposições filosóficas seguiram em outra direção, uma outra epistemologia. Para Locke, o estudante é como uma tábua rasa, na qual nada está escrito. De acordo com esta linha de pensamento, o conhecimento só começa após a experiência sensível. Assim a teoria de Locke ficou conhecida como empirismo, do grego empería, que significa “experiência”.

John Locke (1632-1704)

Para Locke, há duas fontes possíveis para as nossas ideias: a sensação e a reflexão. A sensação é o resultado da modificação feita na mente por meios dos sentidos, enquanto a reflexão é a percepção que a alma tem daquilo que nela ocorre. Logo, a reflexão é uma atividade interna e resulta da experiência externa produzida pela sensação.

Comparando as duas escolas filosóficas, notamos que os racionalistas tendem a enfatizar os processos internos, o sujeito, em detrimento do objeto. Deixemos claro que Descartes não menospreza a importância do objeto, porém, o coloca em um papel secundário. Do modo contrário agem os empiristas: dão importância às relações sensíveis, contudo, relegam o educando a um papel de “peça de moldagem”, um ser sem cultura ou conhecimentos comunitários.

No século XIX, o Positivismo de Augusto Conte (1789-1857) segue e amplia tendência empirista. Para a ciência positivista, os verdadeiros conhecimentos são aqueles que podem ser observados e “testados” de maneira “científica”. Todas as ciências e maneiras de compreender a vida que não podem “amostradas cientificamente”, são rebaixadas à ciências inferiores.

Ciências Humanas e Positivismo

O naturalismo é a corrente científica que empresta o rigor metódico das ciências exatas e biológicas para as ciências sociais. Durkheim é um exemplo de pesquisador que usa este método em suas pesquisas. Para o sociólogo, os eventos sociais deveriam ser observados como se fossem coisas.

A psicologia também embarca nesta forma de interpretação de fatos. A corrente Behaviorista (do inglês behavior = conduta) ou teoria comportamentalista, teve como base as experiências de reflexo condicionado. O princípio do Behaviorismo se baseia o associacionismo. Segundo esta teoria, o aprendizado se faz quando associamos dois estímulos, em que um deles funciona como reforçador de determinada resposta.

Skinner aperfeiçoa esta técnica, desenvolvendo assim o que chama de Instrução programada, na qual o texto é composto por degraus de dificuldade e espaços em branco, cabendo ao educando preencher estes espaços. Este tipo de aprendizado foi bastante utilizado, principalmente pela corrente tecnicista presente em nosso país.

Proposta de Superação

As tendências descritas acimas são bastante limitadas e esbarram em muitos problemas indissolúveis. Se as ideias são inatas, como Descartes explica a sua mudança no tempo e espaço? Como experiências subjetivas, que são pregadas pelos empiristas, podem revelar a “verdade” objetiva?

Diante dessas brechas, várias outras correntes foram desenvolvidas. Neste momento analisaremos a Fenomenologia, desenvolvida no século XX por Husserl. Esta linha de pensamento se baseia na intencionalidade.

Dizer que a consciência é intencional, significa que, ao contrário do que afirmam os inatistas (racionalistas), não há pura consciência, separada do mundo, mas toda consciência tende para o mundo, no sentido de que toda consciência é consciência de alguma coisa. Ao contrário dos empiristas, os fenomenólogos afirmam que não há objeto em si, já que o objeto só existe para um sujeito que lhe dá significado.

(ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. 2006 pg 163)

A fenomenologia contrapõe-se ao positivismo. A escola de Husserl alega que não nos encontramos diante de fatos, de coisas, nem percebemos o mundo desprovido de significados. O mundo tem uma relação direta com a consciência, daí a importância do sentido, da rede de significações que envolvem o objeto percebido.

A psicologia retoma algumas das ideias renovadoras do pensamento epistemológico, reinventando e analisando padrões de ensino com outros olhos. Piaget dá vida a psicologia genética que traz consigo a conclusão que o desenvolvimento da inteligência ocorre por estágios sucessivos, caracterizados por um processo evolutivo e construtivista.

As teorias modernas que se utilizam da dialética para superar as correntes empiristas humanistas são consideradas como interacionais e construtivistas. Uma gama enorme de educadores participa desta corrente, entre eles podemos citar: Piaget, Paulo Freire, Vygotsky, Gramsci, ente outros, que se fundamentam ora na fenomenologia, ora no marxismo. O termo interacionista se deve à interação entre sujeito e objeto no momento da aprendizagem. O conhecimento não está nos sujeitos, como pregavam os humanistas; nem no objeto, como diziam os empiristas, mas sim na interação sujeito/objeto. Assim, o conhecimento e aprendizagem são conceitos dinâmicos, que não podem cair em verdades absolutas.

Neste quadro, notamos a diferença  na essência do que chamamos  de Epistemologia. O empirista Locke trata o conhecimento como algo a ser passado para as gerações futuras, já Freire acredita na dialogicidade como fonte pedagógica.

Neste quadro, notamos a diferença na essência do que chamamos de Epistemologia. O empirista Locke trata o conhecimento como algo a ser passado para as gerações futuras, já Freire acredita na dialogicidade como fonte pedagógica.

Descrevemos algumas correntes epistemológicas presentes em vários discursos pedagógicos atuais. Tenta-se com isso absorver algumas dúvidas relativas ao termo filosófico e criar uma fonte para pesquisas futuras.

REFERÊNCIAS

ARANHA, Maria Lúcia de A.A.. Filosofia da Educação. 3ª edição revisada e ampliada. São Paulo: Editora Moderna, 2006