Não há dinheiro para os pobres, mas sim para os bancos. Precisamos de outra economia, não a serviço do capital, mas do bem viver da humanidade. Por Manfred Max-Neef

No mesmo momento em que a FAO, a organização da ONU para a agricultura e a alimentação, informava, em outubro do ano passado [2012], que a fome está afetando um bilhão de pessoas, e estimava em 30 bilhões de dólares anuais a ajuda necessária para salvar todas estas vidas, a ação decidida por 6 Bancos Centrais (EUA, EU, Japão, Canadá, Inglaterra e Suíça) injetava 180 bilhões nos mercados financeiros para salvar os bancos privados. Se isto for insuficiente, o Senado dos EUA aprova que se acrescentem 700 bilhões. Duas semanas mais tarde são aprovados 850 bilhões a mais, e assim continua e continua até chegar a setembro daquele ano, em que a estimativa conservadora do pacote de resgate alcança 17 trilhões (milhões de milhões) de dólares.

Diante de uma situação como esta, há duas alternativas: ser demagógico ou realista. Se sustentarmos, por exemplo, invocando a lei da oferta e da demanda, que no mundo há muito mais demanda de pão do que de operações de cirurgia estética, e muito mais demanda que se alivie a malária do que procura de vestidos de alta costura, ou se sugerirmos, por exemplo, um referendum que pergunte aos cidadãos se preferem destinar as reservas monetárias para salvar vidas ou para salvar bancos, se desejamos tudo isto, seremos sem dúvida acusados de ser demagógicos.

Se, pelo contrário, aceitamos ser mais urgente, mais necessário, mais conveniente e mais proveitoso para todos impedir a quebra de uma seguradora ou de uma instituição bancária, do que dar de comer a milhões de crianças, socorrer as vítimas de um furacão ou curar a dengue, neste caso nos dirão que somos realistas.

Este é o mundo no qual estamos; um mundo acostumado a que nunca haja o suficiente para os que nada têm, e sempre tem o suficiente para os que têm tudo.

Não há recursos suficientes para superar a pobreza, mas sobram recursos para satisfazer necessidades superficiais.

O que acontece se vocês dividirem estes 17 trilhões de dólares com os trinta trilhões anuais que a FAO julga necessários para superar a fome no mundo?

Se for feita esta simples divisão, o resultado que obterão será 600 anos de um mundo sem fome.

Onde estava o dinheiro? Quem o tinha? Sempre nos haviam dito que não havia o suficiente para resolver a pobreza do mundo. E, de repente, quase da noite para a manhã, há dinheiro disponível: mais de meio milênio de um mundo sem fome nem pobreza.

Creio que dificilmente se pode conceber uma realidade mais obscena do que esta, mais repugnante.

Inclusive eu, que fui revolucionário, rebelde… nunca imaginei que se podia chegar a estas magnitudes tão incomuns.

Isto evidentemente é a decepção mais profunda que alguém pode ter com os que dirigem o mundo em que vivemos. Me repugna.

 

Retirado de :http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=75952