Zona de Desenvolvimento Proximal, de Lev Semyonovich VYGOTSKY

A ideia norteadora deste post trata do fichamento do processo denominado Zona de Desenvolviemnto Proximal, presente na segunda parte da obra A FORMAÇÃO SOCIAL DA MENTE, de Vygotsky (referências).

Foto de Lev Vygotsky para a edição soviética (1934) de Pensamento e Linguagem. Fonte: http://www.marxists.org/archive/vygotsky/images/

Interações entre aprendizado e desenvolvimento

Vigotsky (s/d) argumenta que os problemas encontrados na análise psicológica do ensino não podem ser corretamente resolvidos ou mesmo formulados sem nos referirmos à relação entre o aprendizado e o desenvolvimento de crianças em idade escolar. Segundo o autor, todas as concepção até então presentes (início do século XX) podem ser reduzidas a três grandes posições teóricas.

A primeira supõe que os processos de desenvolvimento da criança são independentes do aprendizado. O conhecimento é considerado um processo exterior ao educando e que não está diretamente envolvido na expansão cognitiva. Neste caso, o estudo utiliza os avanços da maturação ao invés de desenvolver um impulso para modificar esta evolução. Segundo o pesquisador soviético, Piaget e Binet compartilham desta concepção teórica.

Assim, o desenvolvimento é sempre um pré-requisito para o aprendizado tendo a criança impossibilidade de aprender certo assunto que fuja de seu estágio cognitivo. Esta linha de pensamento exclui a possibilidade do estudo como fator de desenvolvimento ou maturação daquelas funções ativadas durante o processo de ensino. Em outras palavras: a criança está condicionada a aprender apenas o que sua idade permite, o assunto a ser ensinado em nada auxiliar para o desenvolvimento do próprio estágio.

A segunda posição postula que aprendizado é desenvolvimento. Essa teoria é a essência de um grupo imenso de teorias. A maturação é vista como domínio dos reflexos condicionados, ambos estão completamente misturados e coincidem em todos os pontos. Entre os autores que defendem esta corrente estão Woodworth e Thorndike, os pais do Behaviorismo.

A terceira linha epistemológica tenta superar os extremos, combinando-os. O psicólogo alemão Koffka é o exemplo desta abordagem, para ele o desenvolvimento se baseia em dois processos inerentemente diferentes, embora relacionados e totalmente influenciados. De um lado a maturação, que depende do desenvolvimento do sistema nervoso; de outro o aprendizado, que é em si mesmo, um processo de aprendizagem. Agora, há a combinação de dois termos anteriormente tidos como antagônicos, assim como, os processos que constituem o desenvolvimento são interagentes e mutuamente independentes.

Os teóricos do desenvolvimento como Koffka e os gestaltistas que defendem a terceira posição teórica delineada anteriormente opõe-se ao ponto de vista de Thorndike. Afirmam que a influencia do aprendizado nunca é específica. A partir de seus estudos dos princípios estruturais, afirmam que o processo de aprendizado nunca é específica. A partir de seus estudos dos princípios estruturais, afirmam que o processo de aprendizado não pode, nunca, ser reduzido simplesmente à formação de habilidades à formação de habilidades, mas incorpora uma ordem intelectual que torna possível a transferência de princípios gerais descobertos durante a solução de uma tarefa para várias outras tarefas. Desse ponto de vista, a criança, durante o aprendizado de uma determinada operação, adquire a capacidade de criar estruturas de um certo tipo, independente dos materiais com os quais ela está trabalhando e dos elementos particulares envolvidos. Assim, Koffka não imaginava o aprendizado como limitado à um processo de aquisição de hábitos e habilidades. A relação entre o aprendizado eu desenvolvimento por ele postulada não é de identidade, mas uma relação muito mais complexa. De acordo com Thorndike, aprendizado e desenvolvimento coincidem em todos os pontos, mas, para Koffka, o desenvolvimento é sempre um conjunto maior que o aprendizado.

(…) Consequentemente, ao dar um passo no aprendizado, a criança dá dois no desenvolvimento, ou seja, o aprendizado e o desenvolvimento não coincidem. Esse conceito é o aspecto essencial do terceiro grupo de teorias que dicutimos.

(VYGOTSKY s/d, pg 56)

As três grandes posições teóricas do desenvolvimento segundo Vigotsky As três grandes posições teóricas do desenvolvimento segundo Vigotsky

Lev Vygotsky (1896-1933)
Produção TV Cultura (Univesp TV)

Zona de desenvolvimento proximal: uma nova abordagem

Todas as teorias anteriores são rejeitas por Vygotsky (s/d), para o autor o ponto de partida da relação aprendizado/desenvolvimento das crianças começa muito antes delas frequentarem a escola. Qualquer situação de aprendizado com o qual a criança se defronta na escola tem sempre uma história prévia (pg 56) . Segundo esta premissa, o conhecimento e a maturação estão inter-relacionados desde o primeiro dia de vida de um educando.

A diferença entre o ensino informal e o escolar está no fato na sistematização encontrado no segundo. Outro fator importante na escola é a produção de algo fundamentalmente novo no desenvolvimento da criança. Para elaborar as dimensões do aprendizado formal, Vygotsky descreve um conceito novo: a zona de desenvolvimento proximal.

Para entendermos este conceito, temos que nos atentar aos dois níveis de desenvolvimento concebidos pelo pesquisador soviético.

O primeiro, denominado nível de desenvolvimento real, é a fase de desenvolvimento das funções mentais da criança que se estabelecem como resultado de certos ciclos de desenvolvimento já completados. Em outras palavras, é o que as crianças já sabem e podem fazer sozinhas, sem o auxílio de alguém. Um exemplo citado na obra é a aplicação de testes com o intuito de classificar a idade mental mental do estudante – algo que era muito comum no início do século XX- estes testes na verdade revelavam o desenvolvimento real somente, descartando o potencial de cada ser humano.

O segundo conceito é o que Vygotsky chama de zona de desenvolvimento proximal, que nada mais é do que a distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial do estudante. Durante anos os mais renomados especialistas nunca questionaram o fato de que uma criança pode fazer algo que não conseguiria em seu nível de desenvolvimento real com o auxílio de um adulto, ou até mesmo outra criança. Assim temos um maior aprendizado/desenvolvimento do educando, este “bônus” é o chamado nível potencial que também serve como um indicativo do próprio desenvolvimento. 

Quando se demonstrou que a capacidade de crianças com iguais níveis de desenvolvimento mental, para aprender sob a orientação de um professor, variava enormemente, tornou-se evidente que aquelas crianças não tinham a mesma idade mental e que o curso subsequente de seus aprendizado seria, obviamente, diferente. Essa diferença entre doze e oito ou entre nove o oito, é o que nós chamamos a zona de desenvolvimento proximal. Ela é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes.

(VYGOTSKY s/d, pg 58)

A zona de desenvolvimento proximal define as funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que desbrocharão, mas que ainda estão obscuras no desenvolvimento humano. Vygostky classifica essa funções como “brotos” ou “flores” do desenvolvimento. Estamos tratando agora de um poderoso instrumentos para especialistas da educação e da psique, dado que podemos entender o curso interno do desenvolvimento. Com este método, podemos dar conta não somente dos ciclos e processos de maturação que já foram completados, como também daqueles processos que estão em estado de formação (que estão começando a amadurecer e se desenvolver). Aquilo que é zona de desenvolvimento proximal hoje, será o nível de desenvolvimento real amanhã.

Um fator bastante utilizado atualmente, e pouco difundido naquela época era a imitação. Pensava-se e ainda se pensa muito atualmente na imitação como um ato totalmente mecânico, entretanto Vygotsky demonstra que uma criança só consegue imitar aquilo que está no seu nível desenvolvimento (caso o leitor queira outra explicação para tal fato, indico o documentário Piaget explica Piaget).

A fala também é citada pelo autor, é classificada como um paradigma para o problema da relação entre o aprendizado e o desenvolvimento:

A linguagem surge inicialmente como um meio de comunicação entre a criança e as pessoas em seu ambiente. Somente depois, quando da conversão da fala interior, ela vem a organizar o pensamento da criança, ou seja, tornar-se um função mental interna. Piaget e outros demonstraram que, antes que o raciocínio ocorra como uma atividade interna, ele é elaborado, num grupo de crianças, como uma discussão que tem por objetivo provar o ponto de vista de cada uma. Essa discussão em grupo tem como aspecto característico o fato de cada criança começar a perceber e checar as bases de seu pensamentos. Tais observações fizeram com que Piaget concluísse que a comunicação gera a necessidade de checar e confirmar pensamentos, um processo que é característico do pensamento adulto.

(…) Piaget demonstrou que a cooperação fornece a base para o desenvolvimento do julgamento moral pela criança.

(VYGOTSKY s/d, pg 60)

Um fato importante do aprendizado está na criação de zonas de desenvolvimento proximal. O ensino desperta vários processos interiores de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e em ações com seus pares. Uma vez internalizados, esses processos fazem parte do desenvolvimento real das crianças. Deste ponto de vista aprendizado não é desenvolvimento.

Resumindo, o aspecto mais essencial de nossa hipótese é a noção de que os processos de desenvolvimento não coincidem com os processos de aprendizado. Ou melhor, o processo de desenvolvimento progride de uma forma mais lenta e atrás do processo de aprendizado; desta sequencia resulta, então, as zonas de desenvolvimento proximal. Nossa análise modifica a visão tradicional, segundo a qual, no momento em que uma criação assimila o significado de uma palavra, ou domina uma operação como tal como a adição ou a linguagem escrita, seus processos de desenvolvimento estão basicamente completos. Na verdade, naquele momento eles apenas começaram.

(VYGOTSKY s/d, pg 61)

Finalizando, Vygotsky crê que o aprendizado está diretamente relacionado com o desenvolvimento da criança, porém ambos nunca nunca são realizados em igua medida ou paralelo. A maturação infantil nunca acompanha o aprendizado escolar da mesma maneira que uma sombra acompanha o objeto que a projeta. Por trás de tudo isso, existem relações dinâmicas altamente complexas entre estes processos.

Zona de Desenvolvimento Proximal

Estação Biologia IB- USP

Referências

VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente; Livraria Martins Fontes São Paulo 4ª edição. Texto proveniente da Seção Braile da Biblioteca Pública do Paraná.

Disponível em: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/vygotsky-a-formac3a7c3a3o-social-da-mente.pdf

Anúncios