Boffinianas

(…) Assim a instituição da Igreja é de tal maneira absolutizada que tende a substituir Jesus Cristo ou a entender-se igual a ele. Em vez de ser função sacramentai da redenção, se independentiza, bastando-se a si mesma e se impondo opressivamente sobre todos. O catolicismo privilegia a palavra (dogma) e a lei (cânon). A palavra e a lei exigem o especialista (o teólogo e o canonista). Assim surgiram as elites dos doutos e dos hierarcas que possuem a gestão exclusiva do sagrado. Como são os únicos versados, presumem que somente mediante suas doutrinas, dogmas, ritos e normas se obtém a salvação e se pertence à Igreja68. Uma coisa é o dogma e outra o dogmatismo, a lei e o legalismo, a Tradição e o tradicionalismo, a autoridade e o autoritarismo. O cristianismo foi na compreensão patológica católica reduzido a uma simples doutrina de salvação: importa mais saber as verdades “sicut oportet ad salutem consequendam”, do que fazê-las numa práxis de seguimento de Jesus Cristo. Adora-se Jesus, sua terra, suas palavras, sua história, veneram-se os santos, decantam-se os mártires, celebram-se os heróicos testemunhos da fé, mas não se insiste no principal, que é pôr-se no seguimento deles e fazer o que eles fizeram; a celebração cúltica nem sempre leva à conversão e não raro a uma alienação da verdadeira práxis cristã.

A absolutização de uma doutrina, de uma forma cultuai, de um modo de distribuir o poder na comunidade centralizando todas as decisões numa pequena elite hierárquica, de uma maneira de presença da Igreja na sociedade levou a formas inegáveis de opressão dos fiéis. O endurecimento institucional conduziu à ausência de fantasia, de espírito crítico, de criatividade. O novo é logo colocado sob suspeição enquanto predominam as tendências de apologia do status quo eclesiástico, apelos de lealdade à instituição mais do que à mensagem e às exigências evangélicas. A idéia da segurança é muito mais forte do que a da verdade e da veracidade. As tensões são sufocadas freqüentemente por repressão em que não raro se violam direitos fundamentais da pessoa humana, respeitados até por sociedades aconfessionais ou oficialmente atéias.

(…) Ao lado destas manifestações deturpadas se elaborou a justificativa teológico-ideológica; com facilidade se atribuiu ao direito divino o que é de direito histórico, se chamou de lei natural ao que é uma construção cultural. Assim se resguardavam a instituição, as leis e as doutrinas de qualquer crítica ou tentativa de mudança social. Destarte surgiram as várias mitologias opressoras sustentadas ideologicamente pelo catolicismo, como o mito do poder absoluto dos reis, da sacralidade do Império e outros.

A absolutização de um tipo de Igreja e de uma forma de apresentar a mensagem evangélica origina uma espécie curiosa de patologia: uma mentalidade apocalíptica. Quando o status absolutizado entra em crise, as pessoas empenhadas nele têm a nítida sensação do fim do mundo e da iminência da escatologia final. Parece que tudo se acaba.

(…) Foi um erro histórico a exclusão do protestantismo porque não se excluiu apenas Lutero, mas se excluiu também a possibilidade da crítica verdadeira, da contestação do sistema em nome do Evangelho.

BOFF, Leonardo; Igreja: Carisma e Poder; Ed. Record 2005 pg 178/179