Comportamentalismo

Este texto tem como a ideia principal o fichamento do capítulo homônimo do livro Psicologia da Educação de Iris Barbosa Goulart (citado nas referências), assim como a contribuição de outros autores integrados ao texto.

1- O cenário do surgimento da Psicologia científica à estrutura do sistema behaviorista
O percurso histórico: da refutação do cartesianismo à psicologia fisiológica

Segundo Goulart (2013), a psicologia Científica do século XIX derivou-se de dois grandes movimentos: a crítica ao racionalismo cartesiano e o surgimento da teoria positivista da ciência. Descartes tentou sem muito sucesso, tratar empiricamente o dualismo corpo/alma, perdendo-se, de um lado, na descrição mecanicista do corpo (numa época em que a anatomia e fisiologia eram praticamente nascentes); e de outro lado, no subjetivismo de uma análise imprecisa dos dados sobre a consciência, fornecidos pela introspecção do próprio filósofo.

Fundador da corrente “Inatista ou racionalista” na filosofia que, de acordo com Aranha (2006), é a concepção segundo a qual as ideias ou os princípios já existem na mente dos indivíduos, pertencendo à natureza humana (pg 310).Verifica-se que a epistemologia cartesiana se torna progressivamente materialista, sensorialista e reducionista.

A primeira oposição ao cartesianismo partiu de Pierre Gassendi, um dos filósofos mais influentes do século XVII. No século seguinte, Tomas Hobbes, John Locke, David Hume e George Berkeley contestaram Descartes e admitiram que o conhecimento procede principalmente da experiência e, consequentemente, negaram a possibilidade do inatismo. Estes filósofos acabaram assim dando início ao movimento denominado empirismo inglês, sendo plenamente acatados pelos filósofos franceses (ver em epistemologia).

Na França do século XIX, o materialismo e o empirismo se tornaram bastante unidos. Talvez a explicação mais sensata, para este fato, seja a oposição generalizada ao cartesianismo. Concomitantemente, a anatomia e a fisiologia atingiram seu momento áureo, “descarnando” o autômato de Descartes e trazendo certo grau de credibilidade às filosofias mecanicistas da mente.

O século XIX inventou a psicologia fisiológica como é conhecida atualmente: reunindo dados da clínica, do laboratório e da mesa de dissecação.

A partir do empirismo inglês e integrado à doutrina positivista de Comte, , os alemães pretenderam fazer algo novo no domínio da Psicologia. Herbart procurou aplicar a matemática à psicologia, porém, não conseguiu realizar experiências psicológicas sistemáticas em laboratório.

(…) verifica-se que a psicologia, em seu processo de constituição como ciência do homem, em sua busca de autenticidade , sofreu dois grandes cortes epistemológicos: o primeiro ocorreu quando, não pretendendo dedicar-se à tarefa do conhecimento abstrato e reflexivo, procurou romper o cordão umbilical que ligava à Filosofia. O segundo corte decorre do primeiro- quando a psicologia, no século XIX, aliou-se a uma perspectiva chamada científica, constituída pelo âmbito das ciências físicas, biológicas ou psicoquímicas , cujo estatuto de cientificidade era reconhecido por todos.

(GOULART 2013, pg 38-39)

O clima positivista e outras contribuições

Augusto Comte (1798-1857), filósofo francês a que se costuma atribuir o título de fundador da sociologia é o criador do termo positivismo. Incomodado com a desordem política pós revolução francesa, Comte pretendeu organizar a sociedade de uma maneira mais racional e viu na ciência o recurso mais adequado para atingir este objetivo.

Segundo Aranha (2006), positivo trata do que é real, palpável; dado da experiência; baseado nos fatos (pg 312). Goulart (2013) nos mostra que o positivismo representa um movimento bem definido, que se caracteriza pela “tentativa de aplicar aos problemas humanos os métodos e princípios das ciências naturais” (pg 39).

Foi justamente no século XIX que a influência do positivismo sobre a construção da ciência humana ganhou, realmente, aceitação. Um marco para esta influência está na publicação da obra de Darwin: A origem das espécies, que reduziu a distância entre o homem e o animal.

O duplo objetivo a que se propôs Augusto Comte foi, de uma lado, delimitar as fronteiras da ciência contra toda e qualquer incursão possível da metafísica e, de outro, fixar os princípios e métodos das ciências, tomando base os métodos da física ou da química.

(GOULART 2013, pg 40)

Comte pretendia reduzir a psicologia empírica a simples fisiologia animal, e por isso considerava a introspecção ou observação interna como uma contemplação ilusória do espírito e excluí-la do campo psicológico. Para ele, o espírito humano, considerado em si mesmo, não pode ser sujeito de observação.

A psicometria, outra tendência que aparece em cena, cujo principal representante foi Binet, vai situar-se no período intermediário entre o programa positivista e o manifesto behaviorista de Watson.

O rompimento entre o mundo da ciência e o mundo dos valores e a transferência destes últimos para o domínio do absurdo (neopositivismo), teve um efeito desastroso sobre a nossa cultura intelectual- o cientista passou a desconsiderar os aspectos morais de sua pesquisa.

Outra tendência, o fisicalismo, concluía que todas as proposições válidas devam ser traduzidas para a linguagem física. Trata-se de um reducionismo, de acordo como o qual a psicologia, quando alcançar a maturidade, será absorvida pela ciência universal da física; em outras palavras, todo o comportamento humano deverá ser explicado, em última análise pelo funcionamento do sistema nervoso.

 

O ambientalismo estadunidense

Além das pesquisas psicológicas desenvolvidas em solo estadunidense até as ultimas décadas do século XIX (não descritas aqui por questões de espaço), o sistema de valores do povo norte-americano deve ser realçado. Nesta sociedade se combinam as mentalidades de fronteira e o puritanismo. Atribuía-se grande importância ao trabalho e à orientação divina como necessidades básicas para o sucesso na vida. Rejeitando a aristocracia e o valor do status que se baseasse nas condições da família, a sociedade estadunidense não fixava limites à possibilidade de realização de qualquer ser humano, se ele fosse trabalhador e “temente a Deus” (influência significativa do protestantismo). Logo, a ciência estadunidense confirmava o que era ditado pelos valores culturais: o meio ambiente era o grande responsável pela “natureza humana” (pg 42).

Na psicologia, o ambientalismo (como ficou conhecido o conjunto de valores naturais estadunidenses) teve seu primeiro grande representante em Watson, sendo o behaviorismo lançado por ele, transformando o estudo da aprendizagem em tópicos dominantes que iriam monopolizar a pedagogia norte americana por décadas, durante o século XX.

O sistema behaviorista

Segundo Aranha (2006), Behaviorismo ou comportamentalismo é o ramo da psicologia objetiva iniciada por Watson e desenvolvida por Skinner, que se baseia exclusivamente nos aspectos observáveis do comportamento exterior (uma mistura de empirismo e positivismo), com exclusão dos dados da consciência (pg 307).

De uma forma geral, o que os behavioristas de qualquer época compartilham é o desejo de parcimônia explicativa e uma inclinação decididamente pragmática, aliados a uma grande fé na análise reducionista da conduta animal e humana (sem ou com pouco diferença entre eles). Sejam quais forem as doutrinas behavioristas, mesmo as mais modernas (que têm como seu principal expoente Skinner e seus seguidores), todos têm em comum a adesão à uma psicologia associacionista e hedonista, que aspira encontrar explicações para toda a amplitude da conduta animal e humana se recorrer a qualquer consideração que exceda “o reforço”, nem mesmo a pequenas variações genéticas mais ou menos fixas que possam explicar as exceções.

É nesta ótica que surge o psicólogo Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), com sua visão de homem e sociedade, na qual nos é exigido a compreensão de conceitos de “associação”, “reforço” e “conduta”. Provavelmente, uma breve análise da proposta teórica de alguns behavioristas clarificará a compreensão destes conceitos.

Três pontos fundamentais destacam-se no pensamento de Watson: a rejeição à introspecção; a crença de que o ambiente, mais do que a hereditariedade, determina o comportamento humano e; a afirmativa de que o efeito deste ambiente se dá principalmente através de um processo de condicionamento de reflexos. Watson propôs que a medida corporal poderia substituir os “sentimento” dos introspeccionistas.

Pouco antes do início do século XX, um psicólogo estadunidense: Edward L. Thorndike, notou que a repetição de um ato que causava um resultado desejável aumentava a probabilidade de ocorrência desse ato, era a chamada Lei do Efeito. Seus experimentos eram feitos somente em animais. Porém, influenciado pelo evolucionismo (que aproximou o comportamento humano ao dos animais), a Lei do Efeito se tornou a base para o Behaviorismo associada agora a Clark Hull que em 1930 desenvolveu uma teoria detalhada e específica tratando da motivação.

Segundo Hull, o animal privado (motivado) estava sobre a influência de um impulso e a redução do impulso era a recompensa ou “reforço” que tornaria as ações imediatamente anteriores mais prováveis de aparecer no futuro.

Entretanto esta teoria não foi consensual por muito tempo. No final da década de 30, descobriu-se que além das recompensas, há punições (situações em que o homem ou animal procura evitar). Tolman admitiu a construção de uma espécie de modelo do mundo real dentro do sistema nervoso, que quando se é gratificado, quer quando se tenta o comportamento de esquiva. Esta é a única teoria do campo behaviorista que explica a aprendizagem segundo um modelo hipotético-dedutivo.

Skinner, aperfeiçoou os estudos do condicionamento clássico ou pavloviano e, a partir de experiências com pombos e ratos, estabeleceu as leis do condicionamento instrumental.Divergindo de seus contemporâneos behavioristas, Skinner rejeitou totalmente e estudo de quaisquer tendências inobserváveis, supervalorizou também o valor da recompensa (reforço positivo), com o intuito de se realizar a aprendizagem permanente; atentou para a regularidade da recompensa (reforço contínuo e intermitente) e propôs que se estendesse aos seres humanos o conjunto de regras obtidos na pesquisa com animais.

2- O sentido da natureza humana e o controle do comportamento

Durante muitos anos, o individualismo dominou o pensamento filosófico. No entanto, Skinner muda radicalmente este modo de pensar. Para o psicólogo, não existe nenhum grau de autodeterminação, autossuficiência ou autoconfiança capazes de nos tornar indivíduos, a não ser como simples membros da espécie humana.

Para Skinner a ênfase deve ser dada à cultura ou ao grupo, em detrimento ao indivíduo. Segundo sua ótica:

O indivíduo é afinal, um dos “outros” que exercem o controle e que, assim, agem em seu próprio benefício. Mesmo os que se sobressaem como revolucionários são produtos convencionais dos sistemas que derrubam. (…) Apenas uma pequena proporção de seu comportamento é excepcional e nãos e pode atribuir suas contribuições originais a se caráter milagroso de homem autônomo.

(GOULART 2013, pg 53)

A análise experimental do comportamento proposta por Skinner transfere a determinação do comportamento do homem autônomo para o ambiente: o homem não é uma vítima ou um observador passivo do que lhe acontece, pois é controlado por um ambiente que é, em parte, construído por ele mesmo.

Skinner escolheu 3 amplas áreas do comportamento humano para fornecer exemplos sobre o controle: controle pessoal, área de educação e área do governo.

O controle pessoal

O cidadão que vive num ambiente grupal é admirado quando pratica atos que correspondem às expectativas de seus pares e deixa de sê-lo quando o comportamento foge do aos padrões do meio em que vive. Esta prática é tão entranhada nas diferentes culturas que não se chega a perceber que se trata de um tipo de controle.

Skinner tem mostrado que o uso de conceitos como liberdade, iniciativa, responsabilidade social tem sido socialmente. Quando estes conceitos são qualificados como bons, aprendemos a fazer um julgamento de valor em termos seus efeitos reforçadores. Tem-se considerado a luta pela liberade e dignidade como defesa do homem autônomo. O behaviorismo prefere explicar a preferência por estes valores como uma revisão das contigências de reforço sob as quais as pessoas vivem.

(GOULART 2013, pg 55)

Educação

Durante grande parte da história pedagógica, as técnicas da didática se resumiam na utilização de atividades aversivas. Tendemos a valorizar o educando que “aprende sozinho” e frequentemente atribuímos o processo de aprendizagem a algo que existe dento do indivíduo.

Segundo Skinner, pela da ciência, poderíamos organizar um mundo em que as pessoas aprenderiam, seriam sábias e boas, sem “ter de ser” ou sem “escolher ser”.

Governo

O governo tem sido fonte de controle aversivo; o Estado é geralmente definido em termos de poder para punir e a jurisprudência se apoia sobre a noção de responsabilidade pessoal.

O romance Walden II, de Skinner, consiste na proposta de se aplicar um tecnologia comportamentalista à construção de um governo praticável, efetivo e produtivo. A grande crítica apresentada à obra skinneriana é que “alguém planejou”, não importando se os governantes de Walden II são éticos e honestos.

4- Visão crítica
Das raízes da teoria

Críticas duais devem ser traçadas à teoria skinneriana. De um lado, temos um questionamento ao pensamento positivista que é a base da segunda crítica: o pensamento behaviorista.

Devido à fundamentação, a teoria manteve a descrição mecanicista de homempassivo e cujo comportamento é totalmente explicado segundo um modelo simplista de causa e efeito, que faz lembrar o modelo científico da Física do século XIX – abandonado até mesmo por esta ciência (GOULART 2013, pg 57).

Goulart (2013), ao criticar os pressupostos positivas de Skinner, parte da concepção de homem teleológico: um ser cujo comportamento está voltado para o atingimento de certas finalidades.

Fica, pois, invertida a tradicional relação sujeito-objeto e, em lugar de privilegiar a operação finalista do primeiro sobre o segundo, transfere-se para o meio ambiente a função de determinar e moldar o comportamento. Trata-se de um reducionismo, uma posição epistemológica que pretende reconstruir todas as ciências do homem na base de uma teoria psicológica que tem no “comportamento” sua categoria mais elementar. Tomando o modelo da física, o behaviorismo pretende abolir a oposição entre interioridade mental e exterioridade objetiva, descrevendo todo o tipo de ação, pensando real numa só dimensão, ou seja, considerando o real como aquilo que é manipulável.

(GOULART 2013, pg 58)

A negação dirigida aos estados interiores, não consiste em negar que eles existam, mas considerar que eles não são relevantes para uma análise funcional. Skinner utiliza o processo pragmático: desde que uma determinada resposta possa ser controlada e prevista pela consideração e manipulação de variáveis de caráter físico, não há motivos para se pressupor a intervenção de outros fatores. Sob a influência do positivismo, os psicólogos tentavam reduzir o estudo de vida humana a uma simples situação de laboratório, onde ela aparece totalmente diferente do ambiente natural (método experimental). Acreditava-se que um evento tinha efeito uniforme sobre todos do indivíduos a ele submetidos. Porém, se o homem “interpreta” o que lhe acontece, nunca se pode estar certo de que o que é estímulo para uma pessoa o seja também para outra.

A ideia ma qual vivemos em mundos fechados e inacessíveis aos outros fez com que Sartre, em 1957, afirmasse que “o behaviorismo é o solipsismo arvorado em hipótese operacional”.

Da influência dos valores e da ideologia

Atualmente, é inegável que nossas ideias preconcebidas e juízos de valor básico sobre a vida distorcem nossa compreensão do mundo. Não podemos negar que esta máxima também é válida para compreender a ciência, principalmente a do homem. Um bom exemplo é a linguagem normal/anormal, na qual se subentende o pressuposto de que a adaptabilidade aos padrões de nossa sociedade é considerada uma coisa boa e necessária.

Os skinnerianos costumam admitir que sua definição de comportamento desejável é inspirada nas normas da sociedade atual, o que significa normal, convencional, respeitável. Convém lembrar que tudo isto está de acordo com os padrões da classe média, à qual pertencem a maioria dos psicólogos da corrente behaviorista.

A fronteira entre o comportamento delinquente e o protesto político é, em certos casos, definida apenas pelo julgamento dos que detêm o poder. O mesmo se pode dizer de outras classificações como loucura ou comportamento divergente. O perigo da abordagem científica destes problemas atuais está no seu conteúdo político e moral que permanecem escondidos por trás de uma metodologia técnica e supostamente livre de valores.

É óbvio que a previsão e o controle do comportamento de algumas pessoas por outras não pode ser livre de valores. É por isso que os críticos admitem que a psicologia skinneriana é a essência da psicologia alienada na prática (GOULART 2013, pg 62).

Constituindo-se de um sistema de reforços generalizados, a cultura apresenta-se para Skinner como um repositório das experiências passadas, imprimindo ao mundo uma história determinada. A liberdade e a dignidade humanas não teriam lugar nesta perspectiva; elas devem ser substituídas pela tecnologia mais avançada.

O pensamento positivista requer que as pessoas sejam tratadas como máquinas ou meros organismos e sobretudo que se pensem como tais. A máquina tecnológica aspira a uma atenuação das possibilidades humanas, a uma visão dos homens como objetos, organismos emissores de comportamento. Não foi acidentalmente que o behaviorismo nasceu contemporâneo do sistema capitalista mais avançado do mundo e no mesmo solo em que ele.

Este sistema supõe que os homens são agora, o que sempre foram no passado e serão no futuro. Esta crença desencoraja a pensar o que o homem poderia ser, explorar seu potencial de homem e sua capacidade para viver de modo diferente. No caso ser humano, nãos se pode dizer que o ajustamento a seu meio é algo que se deva desejar sempre, pois ele pode querer alterar radicalmente o seu ambiente.

O processo de mudança social, a hipótese de que os homens podem fazer a sua própria história, criar seus próprios meios ambientes sós e tornará realidade quando os seres humanos compreenderem que a sociedade não é uma coisa que existe independentemente deles, mas é uma criação dos homens, pela qual eles são ou poderão ser responsáveis.

Quando a psicologia positivista mostra sua preferência por considerar os seres humanos como indivíduos isolados, estranhos ao mundo das forças sociais e econômicas que exercem influência sobre suas vidas, ela é, a um só tempo, alienadora e alienante e, por isso, é ideológica.

(GOULART 2013, pg 65)

5- Aplicabilidade à educação

Dentre as teoria da aprendizagem, foi o comportamentalismo a que mais ofereceu subsídios modelo tecnológico da educação (caso o leitor queira se inteirar um pouco mais sobre o tecnicismo, indicamos: GHIRALDELLI 2008 e SAVIANI 2010, que tratam da concepção educacional no golpe de 64 entre outros temas; assim como as tendências pedagógicas na prática escolar de LIBÂNEO 1990). Para esta tendência a aprendizagem deve ser diretamente observável, a partir das repostas do educando. O papel docente reside na competência para manipular as condições do ambiente e do aluno, a fim de assegurar a aprendizagem. O papel do aluno passa a ser o de receptor do conhecimento e dele se espera a aceitação de metas preestabelecidas. A avaliação dessas metas se faz pela medida das repostas (ou mudança de comportamento do estudante) que são diretamente observáveis e passíveis de serem medidas.

A ênfase no início do processo (formação de objetivos) e em seu resultado (avaliação) mostra uma analogia entre o modelo comportamentalista e o sistêmico, já que este último também se preocupa em entrada e saída. Lembramos que enquanto a teoria comportamentalista é psicológica, a teoria de sistemas é derivada da engenharia.

Após este pequeno resumo, fica evidente que a abordagem behaviorista aplicada a situações para as quais ela é apropriada, tem uma importante contribuição a oferecer, entretanto, se aplicada a aspectos mais complexos da educação ou mesmo se utlilizada sem uma compreensão mais clara de suas limitações, seus efeitos sobre nosso sistema educacional poderão ser desperdiçados, ineficazes ou mesmo gerar um efeito destrutivo sobre o trabalho docente.

Referências

GOULART, Íris Barbosa. Psicologia de Educação: fundamentos teóricos e aplicações à prática pedagógica / 19ª ed. Petrópolis, Rj: Vozes 2013

ARANHA, Maria de Lúcia. Filosofia da Educação / 3ª ed. revisada e ampliada. São paulos, SP: Moderna 2006  

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A AVALIAÇÃO MEDIADORA DE JUSSAMARA HOFFMAN

Olá amigos

O intuito deste post é a exposição de ideias, assim como a menção de críticas construtivas aos três primeiros capítulos iniciais do livro AVALIAÇÃO MEDIADORA de Jussamara Hoffman (referências). Trataremos dos temas de forma linear como apresentado na obra original.

Capítulo 1 – Por uma escola de qualidade

Hoffman (1993) demonstra como a forma classificatória da Avaliação tem papel de destaque em todos os níveis do ensino (do fundamental ao superior). Esta ideologia tem ligação direta com antigas metodologias e técnicas pedagógicas. A crença popular é que, na atualidade, os professores tendem a ser menos exigentes do que tradicionalmente e que as escolas não oferecem o ensino competente à semelhança das antigas gerações (pg 13).

A grande problemática está no fator excludente da avaliação tradicional e seu papel de reprodutora da sociedade capitalista e, portanto, celetista; tendo como vencedores os mais condicionados. Resumindo, não se pode considerar como competente uma escola que não dá conta sequer do alunado que recebe, promovendo muitos alunos à categoria de repetentes e evadidos (pg 13).

A pesquisadora cria certa polêmica quando aponta que alguns profissionais da educação estariam (indiretamente) reproduzindo uma política de elitização do ensino público. Tal fato é constatado quando se mantém “exigências necessárias à manutenção de um ensino de qualidade” (caráter segregacionista da avaliação e educação).

Se nos reportarmos a um princípio saudosista da avaliação, correremos o grave perigo de negarmos a existência de uma escola elitista, alicerce do capitalismo, e que reforça a privatização da escola para a manutenção da pirâmide escolar.

Essa escola seguiu sempre parâmetros de uma classe social privilegiada, onde a concepção de criança origina-se desse ambiente: uma criança atendida pelos pais, com recursos suficientes para bem vestir-se, alimentar-se, manter-se limpa, usar uma linguagem culta, um vocabulário variado, manusear materiais gráficos com desenvoltura.

(HOFFMAN. 1993, pg 16)

Desconsiderar estas características significa negar a pluralidade do “jeito de viver” dos nossos educandos, assim como, limitar nossa ação pedagógica no sentido de compreensão dessas realidades (pg 17). E não somente isso, se esta criança for “diagnosticada” com um futuro impossível, não terá nem um tempo justo de provar o quanto poderemos contar com ela( Para uma melhor aprofundamento sobre o assunto, recomendamos a leituras de Barriga (2001) e Luckesi (2011).

Provas e notas: Redes de segurança dos professores?

Os educadores, em geral, discutem muito como fazer a avaliação. Entretanto, não compreendem o sentido da avaliação na escola. A prática avaliativa, tradicionalmente, se resume à realização de provas obrigatórias e atribuição de notas para fins burocráticos. Muitos defendem este tipo de procedimento como desculpa para a “modernização do país” (tendo como justificativa o desenvolvimento do espírito competitivo nos estudantes). Hoffman (1993), alerta-nos que países como Itália e França vêm perseguindo princípios mediadores há anos, contudo, a qualidade do ensino não se deteriorou.

Notas e provas acabam servindo com uma “rede de segurança”, nos quais professores prendem seus alunos, escolas prendem professores e o sistema prende as escolas.

Sucesso na escola e desenvolvimento do educando

Este subcapítulo se inicia com a quebra do senso comum voltado para a relação escola/trabalho. Durante muito tempo, pregou-se que o bom desempenho na escola renderia uma boa colocação no mercado de trabalho. Observamos com frequência que maus alunos acabam se tornando ótimos profissionais. Isto se deve em parte aos conteúdos positivista e totalmente abstratos encontrados nas escolas atualmente, assim como, as condicionantes sociais relacionados aos estudantes.

A Criança, o jovem, frequentam as escola, mas não “vivem” a escola. As perguntas da escola não estão para serem respondidas ou descobertas no seu dia a dia, ou para auxiliar à enfrentá-lo . “Escola é escola” para eles a vida é diferente.

(HOFFMAN, Jussamara. 1993 pg 31)

 

Esta afirmativa revela a concepção de escola para a memorização de informações que tem pouca importância na vida prática e sofrida que as crianças são obrigadas a levar. Fatos transmitidos, memorizados, esquecidos (pg 31).

O item QUALIDADE apresenta valores epistemológicos diferentes quanto comparamos a avaliação mediadora com a forma padrão de avaliar. Tradicionalmente na concepção de avaliação classificatória, a qualidade se refere a padrões pré-estabelecidos, em bases comparativas: critérios de promoção (elitistas, discriminatórios), gabaritos de respostas às tarefas, padrões de comportamento ideal. Uma qualidade que se confunde com a quantidade, pelo sistema de médias, estatísticas, índices numéricos dessa qualidade (pg 32, grifos meus). Contrariamente, qualidade numa perspectiva mediadora de avaliação, significa o desenvolvimento máximo possível, um permanente “vir a ser”, sem limites prévios, embora com objetivos claramente delineados, desencadeadores da ação educativa. Em outras palavras: não se trata de não delimitarmos pontos de partida, mas sim, de não delimitarmos pontos de chegada.

 

“A concepção de escola para a memorização de informações que tem pouca importância na vida prática e sofrida que as crianças são obrigadas a levar. Fatos transmitidos, memorizados, esquecidos .”

2- As charadas da avaliação

Por que o aluno não aprende?

A sugestão de HOFFMAN (1993) é que os educadores passaram muitos anos buscando a objetividade, a precisão, as respostas certas para problemas de aprendizagem dos alunos.

Ressalta-se que muitos professores ainda mantém uma visão behaviorista da educação. Nesta perspectiva, o educando não aprende porque não faz as matérias previstas, não presta atenção às explicações do professor, então, não corresponde ao ideal do “bom aluno”.

O compromisso do professor diante das diferenças individuais

Seguindo uma concepção construtivista, podemos afirmar que o educando constrói o seu conhecimento na interação com o meio em que vive. Um dos princípios da teoria construtivista é fundamental à avaliação: o desenvolvimento do indivíduo se dá por estágios evolutivos do pensamento a partir de sua maturação e suas vivências (pg 53). Tal desenvolvimento depende, da mesma forma, do meio social que pode acelerar ou retardar esse desenvolvimento (pg 54).

 

Este quadrinho mostra a forma classificatória de Avaliiação

 

3- Uma visão construtivista do erro

A questão da subjetividade nas tarefas avaliativas

A escola não é uma banca de concurso público. O objetivo da instituição escolar não é “eliminar o candidato”, não obstante, a relação professor/aluno acaba tendo características de “exclusão de estudantes”. As tarefas pedagógicas deveriam ter um caráter problematizador e dialógico, momentos de trocas de ideias entre educadores e estudantes na busca de um conhecimento gradativamente aprofundado.

Uma prática em construção

É preocupante certos entendimentos sobre uma prática avaliativa inovadora que abandone a realização de tarefas pelos educandos. Hoffman (1993) sugere a diversidade e aumento das tarefas em todos os momentos da escola e construção destas em conjunto. Tendo em vista que na teoria construtivista é essencial a interação entre iguais para o desenvolvimento do conhecimento (pg 73).

Educandos ao realizarem trabalhos em grupo, costumam delegar as tarefas a apenas alguns estudantes, enquanto outros só observam. Portanto, a avaliação mediadora exige a observação individual de cada aluno, mesmo que as tarefas sejam coletivas (pg 75). Caso contrário, corre-se o risco do educando não internalizar e participar do momento de criação.

A teoria construtivista introduz a perspectiva da imagem positiva do erro, o ato de errar deve ser encarado não como uma falha, mas sim como um estágio do desenvolvimento da aprendizagem. Ressaltamos que nem todos os erros são positivos, há exceções que podem marcar o limite de aprendizagem de uma certa idade ou até mesmos problemas individuais de aprendizagem.

4- Críticas ao Texto

Devemos olhar com respeito o estudo de Jussara Hoffman, no entanto, algumas observações devem ser feitas. Usarei como exemplo a instituição em que trabalho e minha reflexão na ação tanto nas minhas aulas de educação musical, quanto nas aulas de outros professores que presencio durante minha jornada de trabalho.

José Carlos Libâneo nos ensina que cada escola é singular, não quero aqui generalizar minhas críticas, porém, acho que algumas afirmativas de Hoffman (1993) não podem cair na homogeneização das relações docente/discente. Alguns profissionais da educação que utilizam testes “tradicionais” e abrem mão da observação assim o fazem devido a carga horário aos quais são obrigados a trabalhar (eu por exemplo tenho 27 turmas e quase mil alunos). Com um montante deste de educandos sob sua responsabilidade tarefas simples como apenas saber o nome da maioria dos estudantes se transformam em verdadeiras provas de genialidade, afinal de contas quem consegue decorar e lembrar de tantos rostos assim? Como acompanhar individualmente cada criança, aumentar a carga de trabalhos realizados por elas, se um educador mal consegue lembrar o nome de todos e tampouco corrigir as tarefas atuais?

Soma-se a isso a obrigação de relatórios e condicionamento dos educandos para testes de aprendizagem aplicados pelas esferas burocráticas do poder. Durante todo o livro somente se falou do julgamento do desempenho dos estudantes durante a avaliação, e sua relação com os professores. Em momento algum se demonstra a imposição destes testes pelas organizações superiores ou organismos ligados à instituições do mercado econômico mundial (Banco Mundial ou FMI entre outros). Sempre o docente leva a culpa pela sua visão conservadora.

Sempre ressalto que é muito simples apontar erros quando se está numa zona de conforto, não obstante, quais pesquisadores passam pelas insalubridades que alguns docentes são obrigados a enfrentar? Creio que estamos vivendo um momento em que tanto professores quanto alunos são vítimas de uma educação cada vez mais voltada para a domesticação ao neoliberalismo econômico. A educação não dá certo, pois o que existe é um projeto de alienação com o intuito de se manter as relações opressoras que vigoram no mundo.

Mateus Nikel (2014).

Referências:

ARANHA, Maria de Lúcia. Filosofia da Educação. 3ª edição revisada e ampliada. São paulos, SP: Moderna 2006

BARRIGA, Ángel Díaz. Uma polêmica em relação os exame in Avaliação: uma prática em busca de novos sentidos /ESTEBAN, Maria Teresa (org.); 3ª edição, Rio de Janeiro, DP&A editora, 2001

GOULART, Íris Barbosa. Psicologia de Educação: fundamentos teóricos e aplicações à prática pedagógica. 19ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes 2013

—— Piaget Experiências básicas para a utilização pelo professor- Petrópolis. Editora Vozes 1983.

HOFFMAN, Jussara. Avaliação Mediadora. Editora Educação e Liberdade, 1993.

LUCKESI, Carlos Cipriano. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. 22ª edição. São Paulo: Cortez Editora, 2011.

NIKEL, Mateus. AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM ESCOLAR segundo Luckesi. Disponível em: https://blogdonikel.wordpress.com/2014/10/29/avaliacao-da-aprendizagem-escolar-segundo-luckesi/ Último acesso em: 22/04/2015

——- UMA POLÊMICA EM RELAÇÃO AO EXAME – Ángel Díaz Barriga(FICHAMENTO). Disponível em: https://blogdonikel.wordpress.com/2014/04/21/uma-polemica-em-relacao-ao-exame-angel-diaz-barriga-fichamento/ Último acesso em: 22/04/2015

—— Comportamentalismo. Disponível em: https://blogdonikel.wordpress.com/2014/06/09/comportamentalismo/ Último acesso em: 22/04/2015

—— Os quatro grande estágios do desenvolvimento da inteligência de Jean Piaget. Disponível em: https://blogdonikel.wordpress.com/2014/07/03/os-quatro-grande-estagios-do-desenvolvimento-da-inteligencia-de-jean-piaget/ Último acesso em: 22/04/2015

PIAGET, Jean. Epistemologia Genética: tradução Álvaro Cabral. 4ª edição – São Paulo. Editora WMF Martins Fontes, 2012.