A Realidade do Educador Musical no Município do Rio de Janeiro e o ensino de Flauta Doce apresentado na Revista Música na Educação Básica

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Sem Título (Ivan Cabral)

 

Flauta doce como instrumento artístico: uma experiência em sala de aula.

Os autores iniciam o estudo demonstrando que a flauta tem sido um dos instrumentos escolhidos para a prática de instrumentos musicais nas escolas. Estas práticas vem ocorrendo nas escolas por meio de projetos e aulas curriculares ou mesmo como parte das aulas de artes (pg 34). Os exemplos de trabalhos com flauta doce nas escolas apresentados são: Lenga la Lenga; Flauta, flautinha e flautão; e Projeto Guri. Todas as atividades descritas no artigo são baseadas no método SUZUKI de musicalização. Propõe-se que as atividades sejam aplicadas em escolas de ensino regular, em turmas desde os últimos níveis da educação infantil até o quinto ano do ensino fundamental (pg 34).

Seguindo a filosofia Suzuki, os pesquisadores defendem a interação com os pais. Contudo, advertem que a mesma é difícil quando tratamos do ensino regular. Para manter esta relação “tríadica” entre os responsáveis, professores e alunos; outras formas de aproximação precisam existir. Entre as sugestões levantadas, destacarei aquelas que me chamaram a atenção:

– Tarefas que envolvam pesquisa e auxílio dos pais

– Cartazes que envolvam pesquisas e auxilio dos pais

– Emails

– Disponibilização de CDs e DVDs para apreciação em casa

– Trabalhos sociais

Perdoe-me pela repetição do termo “escola”no início desta análise. Quando escuto esta palavra, o que me vem à cabeça é a escola pública. Escola essa que absorve a maioria da população brasileira e, consequentemente, o exército de pobres que não podem pagar por outra forma de ensino. Neste artigo, não consigo focalizar que “tipo específico ou não” de escola é descrita. Será a escola pública que os pesquisadores estão se referindo?

Tendo esta dúvida inicial, outra pergunta me vem à cabeça: será que o ensino deste instrumento sofre alguma dificuldade nas instituições públicas? Será que o artigo contextualiza a realidade em que o educador musical encontra no meio estatal? E os projetos relatados? São aplicáveis em todas as escolas?

Devo confessar que sou fã dos projetos citados acima pelos autores. Todos eles contribuem para a musicalização de milhares de brasileiros e todos os anos aparecem novos talentos musicais descobertos por estas iniciativas. Entretanto, nenhum é totalmente gerado, desenvolvido e mantido pelo ensino fundamental público. São ótimos exemplos de projetos, entretanto não podem servir de referência quando comparados à realidade da escola pública.

Fica muito difícil uma escola pública doar ou emprestar uma flauta doce para cada aluno. Uma alternativa é pedir para que os alunos comprem este instrumento. Entretanto, muitos se mantém com ajuda de programas sociais, assim, até 10 reais acaba se tornando uma “fortuna” para certas famílias. O docente não pode “obrigar” o educando a comprar esta flauta. Outra alternativa é o próprio professor comprar os instrumentos. Então, vamos aos cálculos:

Numa pesquisa rápida no site bondfaro.com.br (acesso no dia 13/3/2015), uma flauta doce custava 29 reais. Suponhamos que um professor consiga as flautas por 15 reais a unidade no atacado (baita promoção!).

Agora, vamos ao número de alunos: um professor com uma matrícula de 40 horas, no município do Rio de Janeiro tem a obrigação dar 28 aulas semanais. As turmas de 1º ao 5º anos (como recomendam os autores) tem uma aula de educação musical por semana. Resumindo, o docente que trabalha nesta faixa etária terá 28 turmas. Oficialmente, as turmas podem comportar até 40 educandos (as primeiras séries contêm menos de 40, no entanto os últimos anos as turmas podem passar do limite em casos excepcionais). Tudo bem! Fixaremos uma média de 30 alunos por turma, o que dá: 840 alunos.

Logo, 840 alunos x 15 reais = 12.600 reais.

Xá pra lá!

Vamos comprar as flautinhas de brinquedo, assim o educador musical só gasta 840 reais. Isso se comprar no atacado, na mais positiva da hipóteses, a flauta por 1 real.

Estas flautas de brinquedo, além de durarem pouco não afinam. Esta característica vai de encontro com o que os autores recomendam na página 38, ondem lemos:

É importante que os alunos tenham contato com instrumentos de qualidade, com profissionais que estejam atuando e trabalhando para que a flauta doce continue sendo um instrumento de excelência. Escutar gravações, assistir a vídeos, manipular flautas de diferentes tamanhos e receber visitas valorizando o trabalho e fortalecem o desenvolvimento musical, aguçando o senso crítico dos alunos.

Levando em consideração a realidade encontrada no ensino público, como uma escola poderia receber visitas? Como relatado em análises anteriores, a quem caberia os gastos com transporte e alimentação destes profissionais?

Como os professores, que muitas vezes são obrigados a ter 2 matrículas e até dobras de matrículas para manter a família, podem ser profissionais atuantes?

Os autores também indicam a execução de cartazes e tarefas que envolvam pesquisa e auxílio dos pais. Não é novidade que nós, docentes do ensino básico da rede pública, lidamos com estudantes de baixo background cultural, background este tendo como referência os conhecimentos valorizados pela escola. Afirmo que não concordo com tudo o que envolva a teoria do sociólogo francês Bourdieu, entretanto devo admitir que a falta de instrução pode dificultar a já difícil tarefa de envolver os pais em tarefas que envolvam uma cultura escolar.

Muitos pais nem concluíram o ensino fundamental. Já presenciei, inúmeras vezes, casos em que os responsáveis até tentam ajudar, mas não conseguem entender um exercício do primeiro ano primário. Eu mesmo, filho de uma nordestina do interior de Alagoas, era obrigado a pedir ajuda aos vizinhos, pois minha mãe mal sabia ler. Nestas condições, como desenvolver tarefas que envolvam os pais? Pais que tem vários filhos. Pais que em certos casos mal têm momentos com a prole, devido ao tempo que gastam no trabalho e no transporte público.

Tratando dos problemas listados acima, mandar “emails” chega a ser uma utopia. Disponibilizar CDs e DVDs, talvez seja o mais fácil. Entretanto, as mídias devem ser compradas e gravadas pelo educador musical. Sobre trabalhos sociais, não consegui entender muito bem do que se trata. Trabalho social os professores da rede pública já fazem: além de docentes, nós desempenhamos papéis que extrapolam a relação de professor/aluno pois envolvem problemas que vão além do ensino-aprendizagem. Não somos psicólogos ou assistentes sociais, porém em muitos casos, somos obrigados a desempenhar funções que são exclusivas destes profissionais.

Outra tática abordada pelos pesquisadores trata das práticas de articulação apresentadas às crianças. Recomenda-se o uso de brinquedos como cachimbos com bolinhas e a fabricação de bolinhas de sabão (pg 40). estes brinquedos são até baratos, mas quem irá comprá-los? Talvez o educador possa fabricar estes instrumentos. No meu curso de licenciatura, nunca tive uma aula do tipo. O educador teria, talvez, que pesquisar e utilizar o pouco tempo livre que dispõe para esta atividade. E o sabão? É barato! Mas, para a quantidade de alunos apresentados, o custo pode ser um pouco alto.

No método Suzuki, o repertório é compilado em uma série de livros, cada um dos quais com gravações em CD para o aluno escutar e se familiarizar com a música que estiver estudando (pg 41). Mais uma vez: se a flauta já é uma questão difícil, o que dirá a compra do livro referente ao método? As faculdades de música não poderiam desenvolver algo semelhante e disponibilizar gratuitamente estas partituras e gravações?

Na seção de atividades de interpretação, improvisação e composição; são indicadas atividades que envolvam outros instrumentos como xilofone e pandeiro (pg 45). Gostaria muito de trabalhar numa escola com xilofones… Já o pandeiro, eu tive que comprar. Outra ideia é trabalhar com atividades que envolvam experimentar outros tamanhos de flautas. Se a soprano já é um “problema”, imagine outros tamanhos. Mais uma vez, o custo pode cair no colo dos professores. Caberá a eles comprar as flautas e apresentá-las em turmas com dezenas de educandos. Como é do caso das escolas públicas.

O artigo não explicita em qual instituição foi trabalhado o experimento: oficina, laboratório ou numa escola pública de ensino básico. Nas fotos, o número máximo de alunos enquadrados é de vinte e dois estudantes. Entretanto, eles não estão tocando; mas, assistindo à uma apresentação. O número máximo de alunos utilizando a flauta doce é de 7 educandos. Nenhum deles é negro. A instituição parece ser bem conservada e conta com quadro de música e teclado de percussão. Características quase antagônicas à maioria das escolas públicas de educação básica.

Muitos professores, do município do Rio de Janeiro e de outros estados, utilizam flautas doce nas aulas de educação musical. Mas, cabe ressaltar, estas atitudes não abarcam a maioria dos estudantes da rede de ensino. Já presenciei ótimos trabalhos com flautas e copos ou percussão corporal. O problema destas atividades é que, na maioria dos casos, só toca flauta quem pode adquirir uma. Caso o educando não a tenha, ele é “rebaixado” para outro instrumento.

Outros professores compram uma quantidade de flautas compatível com o número de alunos de uma turma. O problema é que estes instrumentos tem que ser higienizados a cada fim de aula. Lembrando, um professor pode ter 28 turmas na rede carioca e dar até mais aulas em outras instituições. Acrescentamos que os educandos não levam estas flautas para casa, os estudantes mantêm contato com o instrumento em apenas um tempo de aula por semana.

Há também uma alternativa menos democrática: escolher uma turma e trabalhar com flautas nela, ou escolher uma série para lecionar o instrumento. Mas, qual turma é a melhor para ser a escolhida? Caso seja a série a solução, as crianças só terão aulas durante um ano?

Existem certas questões que doem no coração ! Principalmente, quando pensamos numa educação libertadora, democrática e acolhedora.

Estamos bem longe de equalizar esta questão !!!

Referências

ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 . Último acesso:22/07/2015

A realidade da Educação Musical no Rio de Janeiro e o Universo de Instrumentos apresentado na Revista Música na Educação Básica

Itens escolares (Ivan Cabral)

Itens escolares (Ivan Cabral)

 

Abrem-se as cortinas: o som da orquestra e seus instrumentos

Este artigo têm a finalidade de ressaltar a importância do ato de ouvir e apresentar o universo dos instrumentos de orquestra como uma possibilidade de ampliar a experiência de escuta das crianças (editorial, pg 6)

Logo no início do artigo, a autora recomenda uma pesquisa com o objetivo de mapear os familiares dos estudantes que tocam algum instrumento. Outra atividade sugerida é a construção das características de cada família dos instrumentos e a descoberta de curiosidades dos mesmos. Para um melhor aprofundamento sobre o tema, é recomendado o TCC da própria pesquisadora.

Outras atividades recomendadas são: a construção de instrumentos musicais, pesquisa histórica sobre a origem dos instrumentos, de timbres e apresentação do repertório característico de cada instrumento. Na atividade de construção, são sugeridas atividades interdisciplinares com o objetivo de auxiliar na utilização de materiais reciclados, apresentação e decoração destes objetos. Para uma maior aprofundamento são indicados dois livros.

Seguem as recomendações de aula: após a construção dos instrumentos, solicita-se a utilização dos mesmos. Elas podem cantar, compor ou ser acompanhadas por estes instrumentos (pg 24).

O professor é aconselhado a procurar uma pessoa que toque um instrumentos de cordas e que este musicista demonstre o arco e explique como os fios do rabo de cavalo são utilizados em sua confecção. Da mesma forma, o educador deverá descobrir se há algum instrumentista de sopro para o mesmo fim.

Uma ótima dica apresentada pela pesquisadora é a divulgação de links onde podemos encontrar filmes e desenhos animados que abordam a temática orquestral. Recomenda-se trabalhar estes materiais tendo como foco a apreciação musical.

Outra atividade interessante é trabalhar com as histórias de PEDRO E O LOBO (Sergei Prokofiev) e O PIRULITO PIROU (Cartier). No artigo, encontramos o link para assistir a versão animada da Disney sobre a primeira narração. Também é indicada a leitura dos livros. Caso a estas obras não sejam encontrada na biblioteca da escola, recomenda-se a compra. Para dinamizar a leitura das obras, aconselha-se a confecção de marionetes dos personagens, flanelógrafo, projeção de slides e outros recursos criados pelo professor, em um segundo momento, pede-se a construção de máscaras e uma interpretação teatral sobre o tema.

Para um melhor aprofundamento sobre histórias sonorizadas são aconselhados duas obras encontradas em edições anteriores da mesma revista.

Para finalizar, recomenda-se a ida para um concerto didático com os alunos.

Começarei com uma primeira análise: recomenda-se o TCC da autora para uma maior aprofundamento do tema. No site http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/18626?locale=en não foi encontrada nenhuma referência da aplicação deste estudo na sala de aula do ensino público o que poderia antecipar alguns problemas relativos à aplicabilidade destas propostas, principalmente, no ensino público.

Quando tratamos de atividades de construção de instrumentos algumas dúvida surgem: quais problemas foram encontrados pela autora no desenvolvimento destas atividades? Como não são detalhadas, quantas aulas levariam? Em que ano seriam dadas? Num realidade que até um caderno é difícil (eu estou há mais de um mês cobrando por um), recolher materiais recicláveis pode ser um problema.

Onde estes materiais seriam estocados? Quem compraria as tintas? Afinal de contas, um professor com matrícula de 40 horas, no município do Rio de Janeiro, pode ter até 28 turmas. Onde guardar o material de tantos alunos?

Outra indagação: sugere-se que o educador musical conte com o apoio de outros professores para a confecção destes materiais. Creio que a pessoa mais habilitada para isso seja o professor de artes plásticas. Entretanto, as turmas tem apenas um componente artístico por ano na grade curricular carioca: educação musical, arte cênicas ou artes plásticas. Uma escola pode ter até professores destas 3 áreas, porém é impossível que eles trabalhem na mesma turma. Logo, outro professor teria que trabalhar numa atividade extra-oficialmente . E acrescento: como construir, compor e cantar com estes objetos numa turma que pode comportar até 40 educandos?

Agora, vamos tratar do pedido de encontrar musicista entre os familiares dos educandos para a apresentação em sala de aula. Todos nós sabemos da realidade que a maioria das crianças da rede pública se encontram. Muitos dos responsáveis destes estudantes nem terminaram o ensino fundamental. Muitos mal tiveram contato com um instrumento. Um professor sofre muito com a falta de tempo e com um ambiente tão desfavorável. Encontrar esses instrumentistas pode ser uma atividade frustrante. Devido, infelizmente, à elitização do ensino musical, poucas crianças da base do sistema capitalista tocam instrumentos musicais. Entre meus alunos, menos de 10 já tiveram aulas de música (tenho muito mais que 600 educandos). Quando tratamos dos pais, a situação ainda é pior. E se caso o instrumentista fosse achado? Ele se apresentaria na escola de graça? Quem faria o translado desta pessoa? Como ela seria recebida?

Este artigo conta com um grande número de obras a serem utilizadas em aula, porém não se indica se os livros são gratuitos ou não.

O problema de se pedir um livro na rede pública é que nem sempre este está disponível na biblioteca da escola. No município do Rio de Janeiro, o responsável pela sala de leitura solicita que os professores preparem uma lista de obras referentes à matriz curricular do docente para ser adquirida pela instituição. Entretanto, isso não garante que o livro será comprado. No final das contas, é melhor o professor adquirir o livro do que esperar que este seja encomendado pelo poder público. Levando em consideração os baixos salários dos professores do no Brasil, isso pode ser bastante caro. Então, não seria melhor indicar obras gratuitas?

Outro problema é quando propomos, por exemplo, a confecção de marionetes. Como fazê-las? E sobre exibir slides ? As projeções recomendadas não poderiam já estar disponibilizadas? Saliento isso, já que muitos professores chegam a dar mais de 30 aulas por semana. Tendo em vista esta realidade, tempo para confeccionar estes itens é o que mais falta. O mesmo ocorre com apresentações teatrais, como fazê-las? Um professor de educação musical se sentirá seguro ao propor isso à turma?


Concertos didáticos? A cidade do Rio de Janeiro conta com este tipo de concerto, porém ele ainda abarca uma pequena quantidade de escolas. Sendo assim, o professor escolhe apenas uma parcela mínima de estudantes para o passeio. Outro problema é o transporte desses estudantes. Nem sempre ele está garantido.

Referências

ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 . Último acesso:22/07/2015