Conversando com o diabo, de Frei Betto.

— Você existe mesmo?
— Ora, não lembra o que disse o cardeal Ratzinger? “Para os fiéis cristãos, o Diabo é uma presença misteriosa, mas real, pessoal e não-simbólica”.
— Talvez concorde com o último predicado.
— Por quê? – perguntou o Diabo.
— Porque símbolo, reza a etimologia da palavra grega, é o que une, agrega. O antônimo é diabolos, o que desagrega. Desculpe a minha falta de fé.
— Em mim ou no cardeal?
— Nos dois. Na ausência de uma boa dúvida cartesiana, fico com Spinoza: se você, contra a vontade de Deus, induz os seres humanos a praticar o mal, e ainda nos condena à danação eterna, que diabos de deus é esse que o deixa impune e ainda permite que sejamos punidos por você? Afinal, você é inimigo ou cúmplice de Deus?
— Não esqueça, fui criado por Deus.
— Não como demônio, mas como anjo – observei.
— Sim, agora sou um anjo decaído, pois fiz com que a primeira criatura, Adão, se voltasse contra o Criador. Adão tornou-se cativo de meu reino. Jesus teve que morrer na cruz para resgatá-lo.
— Não me venha com esse papo de Mel Gibson – reagi. — Você bem sabe que Deus tinha o poder de arrancar Adão do reino do mal sem precisar mandar o seu Filho e deixar que sofresse tanto. Qual pai se compraz com o sofrimento do filho? Jesus veio nos ensinar o amor como prática de justiça. E foi vítima da injustiça estrutural que predominava em sua época, como ainda hoje.
— Deus tentou me enganar – queixou-se o Diabo. — Manteve em segredo o nascimento de Jesus. Mas à medida em que o Filho crescia, fui percebendo quão perfeito ele era. Quis, portanto, tê-lo ao meu lado.
— Você tentou seduzi-lo três vezes e quebrou a cara. Prometeu-lhe os reinos deste mundo, mas ele preferiu o de Deus; mandou que transformasse pedras em pães, mas ele não acedeu à primazia dos sentidos; quis vê-lo voar como os anjos, atirando-se do pináculo do Templo, mas ele optou pelas vias ordinárias, e não pelos efeitos extraordinários.
— Admito que não consegui dobrá-lo aos meus caprichos. Mas desencadeei as forças do mal contra ele, até que morresse na cruz.
— Mas ele ressuscitou, venceu o mal – frisei.
— Sim, Deus me enganou.
— Como assim?
— O homem Jesus era a isca na qual Deus escondeu o anzol da divindade de Cristo. Ao perceber isso, era tarde demais.
— Por que Deus, em vez de sacrificar seu Filho na cruz, não matou você?
— Isso é um segredo entre mim e Deus.
— Não posso acreditar que Deus comparta qualquer coisa com você, como as almas de seus filhos e filhas, e nem mesmo a existência. Ou acha que vou acreditar que a falta de Adão tenha sido mais grave que o assassinato do Filho do Homem na cruz?
— Eu sou a contradição de Deus – vangloriou-se o Diabo.
— Você já leu Robinson Crusoé? Lembra da “catequese” que ele tentou impingir em Sexta-Feira? Este indagou: “Se você diz que Deus é tão forte, tão grande, ele não é mais forte e mais poderoso que o Diabo?” Crusoé confirmou. Então Sexta-Feira concluiu: “Por que Deus não mata o Diabo para ele não fazer mais maldade?” Embaraçado, Crusoé fingiu que não ouviu.
— O que você responderia? – indagou o Diabo.
— Diria que Deus não pode matar o que não criou. Você é uma criação das religiões arcaicas que dividiam o mundo entre as forças do bem e do mal, o que a Bíblia rejeita, embora alguns políticos atuais queiram justificar seus ímpetos bélicos e suas ambições imperialistas na base desse dualismo.
— Mas eu figuro na Bíblia! – exaltou-se ele.
— O que não significa que de fato exista, assim como Adão e Eva também estão citados lá e nunca existiram. Adão significa “terra” e Eva, “vida”. A Bíblia, como um livro em linguagem popular, antropomorfiza conceitos abstratos. Ou você acha que Elias subiu ao céu num carro de fogo e que existe o dragão citado no Apocalipse?
— Então você não crê na minha existência? Como explica tanto mal no mundo?
— Você mente tanto e tão bem que até faz a gente tender a acreditar que existe. O mal é uma decorrência da liberdade humana. Eternizar o castigo é eternizar o mal. Somos chamados a responder livremente ao amor de Deus. E onde há amor, há liberdade, inclusive de se fechar a ele.
— E no inferno, você acredita?
— Fico com Dostoievski, “o inferno é a incapacidade de não poder mais amar”. Borges frisa que “é uma irreligiosidade” crer no inferno.
— Mas eu sou real – insistiu o Diabo.
— Deus não tem concorrente – rebati. — Nós inventamos você para nos eximir de nossas responsabilidades e culpas, por nem sempre corresponder ao que Deus espera de nós.

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A EDUCAÇÃO COMO TEMA DA SOCIOLOGIA (SONIA M. PORTELLA KRUPPA)

Este texto tem a finalidade de levantar aspectos mais importantes encontrados no capítulo primeiro do livro Sociologia da Educação (1994), de Kruppa.

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1-      O que torna possível a educação

A educação funciona, basicamente, como um agente socializador do ser humano. Torna-se necessária a incorporação de certos padrões comunitários ao indivíduo, para que o mesmo possa melhor conviver em grupo.

É grande a influência dos padrões sociais na cidadania dos indivíduos. Esses padrões chegam mesmo a interferir nos processos fisiológicos do organismo, na percepção do eu, do outro, do mundo. É possível, por exemplo, constatarmos que funções vitais, como a alimentação, estão sujeitas a determinações socialmente impostas. Temos fome em horários previamente determinados, aos quais nosso organismo se adapta.

(KRUPPA, Sonia M. Portella; 1994 pg 23)

Os indivíduos se reúnem e formam instituições sociais. Estes organismos tem a finalidade de satisfazer as necessidades do grupo atendido. Família, escola, igreja, são exemplos de tais instituições. Porém estas empresas não funcionam sempre para o bem do ser humano, a seguir analisaremos o trabalho como instituição social.

 

2-      A educação e a escola –  as relações entre saber e poder

Encontra-se na sociedade neoliberal uma “diferença entre homens”, basicamente estamos falando da divisão de renda encontrada e difundida em nossa vivência. Estas diferenças ligadas ao saber, são automaticamente transformadas em relação de poder, utiliza-se o saber como “posse” e forma de opressão com a maioria.

Em sociedades complexas, organizadas sob o sistema capitalista, onde a divisão do trabalho é bem maior, o conhecimentos e os outros bens materiais que o trabalho produz são distribuídos de maneira desigual. Quanto maior for essa desigualdade, maior será a relação entre saber e poder, porque, embora as condições para o saber sejam, como em qualquer sociedade, produzidas coletivamente, o conhecimento em si acaba ficando na mão de alguns. Aqui, o ditado “saber é poder”  aplica-se em sua dupla relação: “poder também é saber”.

(KRUPPA, Sonia M. Portella; 1994 pg 27)

A sociedade mantém uma relação dualista: divide-se entre os que pensam e os que executam. Nesta sociedade, o produto do conhecimento e os meios para a sua produção, estão distribuídos de maneira desigual: aos que tem poder (conhecimento), a maioria dos bens; aos pobres, apenas o suficientes para manter suas energias, ou nem isso.

Esta dualidade se encontra no trabalho. Quem detém a pesquisa e encaminha a solução para os problemas encontrados são os “técnicos”, cabendo aos trabalhadores, somente a execução das tarefas. Assim, embora a prática do trabalho coloque problemas à teoria, esta assume papel próprio, à parte daquele que executam o trabalho prático, retornando a eles apenas enquanto tarefas de execução específica (pg 28).

Nessas situações o trabalho se torna uma atividade de repetição coercitiva, deixando de ser uma atividade de criação e passando a ser uma atividade alienante, como apontava Marx. O objeto produzido, bem como o conhecimento decorrente do trabalho, não pertencem àqueles homens e apenas servem para aumentar a sua pobreza.

Cabe analisar que o problema não está, necessariamente, na divisão do trabalho, mas sim na perda de visão de conjunto que a grande maioria dos trabalhadores sofre, pelo fato de não deterem o controle do conhecimento produzido e da produção realizada. Na sociedade capitalista, essa perda de visão de conjunto, retratada pelo quê acontece com os operários na linha de produção, estende-se a toda a sociedade, nos níveis econômico, político e social, impedindo que a maioria dos trabalhadores tenha condições de interferir na direção dessa sociedade.

(KRUPPA, Sonia M. Portella; 1994 pg 29)

Uma das contradições encontradas na sociedade capitalista é a ausência simultânea da concentração de saber e das técnicas que permitiriam democratizá-lo. Porém, quem detém o conhecimento, também detém as condições de determinados saberes, que permitem controlar a sociedade.

 

3-      A educação escolar e a educação fora da escola

Já é consenso que a educação escolar é prioritariamente formal. Por este motivo, a escola é obrigada a organizar os conhecimentos transmitidos. Nota-se que estes conteúdos, na maioria das vezes, são impostos “de cima para baixo”,  tendo o enciclopedismo iluminista e  as ciências positivistas como seu carro-chefe.

Fora da escola o conhecimento é formado a partir de necessidades práticas, na sobrevivência diária do ser humano. Caso o conhecimento escolar se distancie da prática da sociedade, caindo assim em um abstracionismo acadêmico, o resultado escolar será marcado necessariamente pela exclusão daqueles que deveriam dominar esse conhecimento. Tem-se aí a fórmula para a reprodução da vida conservadora e desigual que norteia nossas vidas.

 

4-      Cultura/educação/conhecimento

Para KRUPPA, há uma diferença clara entre cultura e saber escolar. Para a escola ser bem sucedida, deve adaptar-se à cultura de seus alunos, já que cultura é algo criado em sociedade e não imposto por uma classe dominante.

Na realidade isto não acontece. Os valores da “classe média” são considerados modelos a serem seguidos por todos os educandos, pela “seleção”, “ritmo” e “avaliação” do conhecimento escolar. Argumenta-se então que o desenvolvimento cognitivo dos grupos mais pobres é insuficiente (pg 33).

As pessoas sabem fazer bem o que é prático e necessário para suas vidas. Logo, um currículo “abstrato” às classes oprimidas não surtirá o mesmo efeito comparado às classes dominantes.

(…) A escola, ao separar o espaço do aprendizado do espaço da existência, impede o sujeito de pensar o cotidiano com suas implicações. Essas parecem fragmentadas, como se o assalto a banco não tivesse nenhuma relação com a política salarial ou as medalhas de ouro conquistadas numa olimpíada com o investimento em uma área social.

(…) Educa-se para a competitividade e o sucesso e não para tecer laços de solidariedade que amenizam situações conflitivas. Em suma, falta à escola abordar o sentido da existência.

(BETTO, Frei in KRUPPA, Sonia M Portella ; pg 37  1994)

 

BIBLIOGRAFIA:

KRUPPA, Sonia M. Portella. Sociologia da Educação; Ed Cortez 1994.

Abdicar de pensar, por Frei Betto

ADITAL

Está em cartaz, em alguns cinemas do Brasil, o filme “Hannah Arendt”, direção de Margarethe Von Trotta. Por ser uma obra de arte que faz pensar não atrai muitos espectadores. A maioria prefere os enlatados de entretenimento que entopem a programação televisiva.

Hannah Arendt (1906-1975) era uma filósofa alemã, judia, aluna e amante de Heidegger, um dos mais importantes filósofos do século XX, que cometeu o grave deslize de filiar-se ao Partido Nazista e aceitar que Hitler o nomeasse reitor da Universidade de Freiburg. O que não tira o valor de sua obra, que exerceu grande influência sobre Sartre. Hannah Arendt refugiou-se do nazismo nos EUA.

O filme de Von Trotta retrata a filósofa no julgamento de Adolf Eichmann, em 1961, em Jerusalém, enviada pela revista “The New Yorker”. Cenas reais do julgamento foram enxertadas no filme.

De volta a Nova York, Hannah escreveu uma série de cinco ensaios, hoje reunidos no livro “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal” (Companhia das Letras, 1999). Sua ótica sobre o réu nazista chocou muitos leitores, em especial da comunidade judaica.

Hannah escreveu que esperava encontrar um homem monstruoso, responsável por crimes monstruosos: o embarque de vítimas do nazismo em trens rumo à morte nos campos de concentração. No entanto, ela se deparou com um ser humano medíocre, mero burocrata da máquina genocida comandada por Hitler. A grande culpa de Eichmann, segundo ela, foi demitir-se do direito de pensar.

Hannah pôs o dedo na ferida. Muitos de nós julgamos que são pessoas sem coração, frias, incapazes de um gesto de generosidade os corruptos que embolsam recursos públicos, os carcereiros que torturam presos em delegacias e presídios, os policiais que primeiro espancam e depois perguntam, os médicos que deixam morrer um paciente sem dinheiro para custear o tratamento. É o que mostram os filmes cujos personagens são “do mal”.

Na realidade, o mal é também cometido por pessoas que não fariam feio se convidadas para jantar com a rainha Elizabeth II, como Raskólnikov, personagem de Doistoiévski em “Crime e castigo”. Gente que, no exercício de suas funções, se demite do direito de pensar, como fez Eichmann.

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Elas não vestem apenas a camisa do serviço público, da empresa, da corporação (Igreja, clube, associação etc.) no qual trabalham ou frequentam. Vestem também a pele. São incapazes de juízo crítico frente a seus superiores, de discernimento nas ordens que recebem, de dizer “não” a quem estão hierarquicamente submetidas.

Lembro de “Pudim”, um dos mais notórios torturadores do DEOPS de São Paulo, vinculado ao Esquadrão da Morte chefiado pelo delegado Fleury. Ele foi incumbido de transportar o principal assessor de Dom Helder Camara, monsenhor Marcelo Carvalheira (que mais tarde viria a ser arcebispo de João Pessoa), do cárcere de São Paulo ao DOPS de Porto Alegre, onde seria solto.

Antes de pegar a estrada, a viatura parou à porta de uma casa de classe média baixa, em um bairro da capital paulista. Marcelo temeu por sua vida, julgou funcionar ali um centro clandestino de tortura e extermínio. Surpreendeu-se ao se deparar com uma cena bizarra: a mulher e os filhos pequenos de “Pudim” em torno da mesa preparada para o lanche. O preso ficou estarrecido ao ver o torturador como afetuoso pai e esposo…

Uma das áreas em que as pessoas mais se demitem do direito de pensar é a política. Em nome da ambição de galgar os degraus do poder, de manter uma função pública, de usufruir da amizade de poderosos, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem a seco abusos de seus superiores, fazem vista grossa à corrupção, se abrem em sorrisos para quem, no íntimo, desprezam.

 

Boas-vindas ao Papa Chico, por Frei Betto

ADITAL

Querido papa Francisco, o povo brasileiro o espera de braços e coração abertos. Graças à sua eleição, o papado adquire agora um rosto mais alegre.

O senhor incutiu em todos nós renovadas esperanças na Igreja Católica ao tomar atitudes mais próximas ao Evangelho de Jesus que às rubricas monárquicas predominantes no Vaticano: uma vez eleito, retornou pessoalmente ao hotel de três estrelas em que se hospedara em Roma, para pagar a conta; no Vaticano, decidiu morar na Casa Santa Marta, alojamento de hóspedes, e não na residência pontifícia, quase um palácio principesco; almoça no refeitório dos funcionários e não admite lugar marcado, variando de mesa e companhias a cada dia; mandou prender o padre diretor do banco do Vaticano, envolvido em falcatrua de 20 milhões de euros.

Pope Francis

Em Lampedusa, onde aportam os imigrantes africanos que sobrevivem à travessia marítima (na qual já morreram 20 mil pessoas) e buscam melhores condições de vida na Europa, o senhor criticou a “globalização da indiferença” e aqueles que, no anonimato, movem os índices econômicos e financeiros, condenando multidões ao desemprego e à miséria.

Um Brasil diferente o espera. Como se Deus, para abrilhantar ainda mais a Jornada Mundial da Juventude, tivesse mobilizado os nossos jovens que, nas últimas semanas, inundam nossas ruas, expressando sonhos e reivindicações. Sobretudo, a esperança em um Brasil e um mundo melhores.

É fato que nossas autoridades eclesiásticas e civis não tiveram o cuidado de deixá-lo mais tempo com os jovens. Segundo a programação oficial, o senhor terá mais encontros com aqueles que ora nos governam ou dirigem a Igreja no Brasil do que com aqueles que são alvos e protagonistas dessa jornada.

Enquanto nosso povo vive um momento de democracia direta nas ruas, os organizadores de sua visita cuidam de aprisioná-lo em palácios e salões. Assim como seus discursos sofrem, agora, modificações em Roma para estarem mais afinados com o clamor da juventude brasileira, tomara que o senhor altere aqui o programa que lhe prepararam e dedique mais tempo ao diálogo com os jovens.

Não faz sentido, por exemplo, o senhor benzer, na prefeitura do Rio, as bandeiras dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. São eventos esportivos acima de toda diversidade religiosa, cultural, étnica, nacional e política.

Por que o chefe da Igreja Católica fazer esse gesto simbólico de abençoar bandeiras de dois eventos que nada têm de religioso, embora contenham valores evangélicos por zerar divergências entre nações e promover a paz? Talvez seja o único momento em que atletas da Coreia do Norte e dos EUA se confraternizarão.

Como nos sentiríamos se elas fossem abençoadas por um rabino ou uma autoridade religiosa muçulmana?

Nos pronunciamentos que fará no Brasil, o senhor deixará claro a que veio. Ao ser eleito e proclamado, declarou à multidão reunida na Praça de São Pedro, em Roma, que os cardeais foram buscar um pontífice “no fim do mundo”.

Tomara que o seu pontificado represente também o início de um novo tempo para a Igreja Católica, livre do moralismo, do clericalismo, da desconfiança frente à pós-modernidade. Uma Igreja que ponha fim ao celibato obrigatório, à proibição de uso de preservativos, à exclusão da mulher do acesso ao sacerdócio.

Igreja que reincorpore os padres casados ao ministério sacerdotal, dialogue sem arrogância com as diferentes tradições religiosas, abra-se aos avanços da ciência, assuma o seu papel profético de, em nome de Jesus, denunciar as causas da miséria, das desigualdades sociais, dos fluxos migratórios, da devastação da natureza.

Os jovens esperam da Igreja uma comunidade alegre, despojada, sem luxos e ostentações, capaz de refletir a face do Jovem de Nazaré, e na qual o amor encontre sempre a sua morada.

Bem-vindo ao Brasil, papa Chico! Se os argentinos merecidamente se orgulham de ter um patrício como sucessor de Pedro, saiba que aqui todos nos contentamos em saber que Deus é brasileiro!

[Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.http://www.freibetto.org– twitter:@freibetto.
Copyright 2013 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].

A CRISE E A DÍVIDA PÚBLICA, por Frei Betto

Desde 2008, quando estourou a crise do capi­talismo, os governos afetados fazem das tripas coração para salvar, não a população ameaçada r de desemprego (já são 25 milhões de desempre­gados na Europa), e sim o sistema financeiro.

Democracia é, hoje, mera expressão retóri­ca. O que temos, de fato, é uma moneycracia.

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Segundo o FED (Banco Central estaduniden­se), o governo do Tio Sam repassou aos bancos privados, como boia de salvação, US$ 1 6 trilhões. Como a lista é longa, assinalo aqui a gordu­ra do Papai Noel dos três principais benefi­ciados nos EUA: Citigroup, US$ 2,5 trilhões; Morgan Stanley, US$ 2,04 trilhões; Merrill Lynch, US$ 1,949 trilhão.

 

No Brasil, a crise começa a bater à porta. Onde a porca torce o rabo é na dívida pública. Em 2011, juros e amortizações da dívida consumiram 45,05% do orçamento da União, ou seja, R$ 708 bilhões. Você imagina o quanto se poderia fazer com tamanho recurso? Daria para promover 28 Copas do Mundo ! A Copa de 2014 está orçada em R$ 25 bilhões. Para se ter idéiadesse dinossauro que sustentamos, no mesmo ano de 2011, a Saúde mereceu 4,07% do orça­mento e a Educação, 2,99%.

Se os dados acima impressionam, veja os atualizados: de janeiro a fevereiro deste ano a dívida pública subiu mais R$ 26 bilhões, atin­gindo R$ 1,95 trilhão! li a previsão é de que al­cançará a cifra de R$ 2,24 trilhões até o fim do ano! Isso significa mais R$ 232 bilhões em re­lação ao montante da dívida em 2012. Os da­dos são do Plano Anual de Financiamento do Tesouro Nacional, divulgados em março.

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Você, eu, todos nós pagamos a dívida pú­blica ao receber salário e consumir. E paga­mos ou padecemos ao NÃO RECEBER melhores serviços públicos: Saúde, Educação, Segurança, Transporte, Cultura etc.

 

O governo não divulga o montante dos ju­ros nominais da dívida pública efetivamen­te pagos. Nem a CPI da Dívida, encerrada em 2010 na Câmara dos Deputados, que­brou o lacre desse segredo. Daí a importân­cia de uma Auditoria Cidadã da dívida pública. Meta que deveria constar da pauta de partidos progressistas, sindicatos, movi­mentos sociais e ONGs voltadas à cidadania.

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Os sinais de que a marolinha brasileira pode terminar em tsunami estão à vista: privatiza­ção das jazidas do pré-sal, de portos, aeropor­tos e hospitais universitários; menos recursos aos programas sociais; leilões de rodovias; in­flação em alta etc.

 

O modelo desenvolvimentista está esgotado. O resultado dele é nefasto: 1% de habitantes do planeta concentra, em mãos, riqueza equiva­lente à renda de 57% da população mundial!

 

Mas quem de fato articula alternativas viá­veis? Cadê a esquerda com os pés na base popular e a cabeça na formulação de estratégias a longo prazo? “Naquele tempo nós fizemos História; agora vocês fazem política”, diz o personagem Rubashov no romance O zero e o infinito, de Arthur Koestler.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de O que a vida me ensinou (Saraiva), entre outros livros.

 

Freibetto.org

 

Retirado de : Caros Amigos edição nº 195

 

[Maioridade penal] Como evitar bandidos precoces por FREI BETTO

Já que o assunto é redução da maioridade penal, tenho uma sugestão que, com certeza, facilitará, e muito, a prevenção à criminalidade.

Supondo que reduzir de 18 para 16 anos é mero paliativo juridicês, tendo em vista que há assassinos com menos de 16 anos, deve-se encontrar uma solução para que, em breve, não haja nova campanha para criminalizar pivetes de 14, 12 ou 10 anos de idade. Sei inclusive de casos em que o criminoso tinha 6 e 5 anos. O que fazer?

Não sendo eu jurista, mas apenas opinista, meto a colher nesse caldeirão para sugerir que se instale uma delegacia de polícia em cada maternidade. Assim, como somos todos tratados como potenciais terroristas em aeroportos, o que obriga a nos submeter a controles eletrônicos e revistas pessoais (talvez o leitor nem desconfie que uma fivela de cinto ou um adorno de metal no sapato é capaz de derrubar um avião!), todo bebê passa a ser considerado, pela legislação vigente, um bandido em potencial.

Até os filhos de ricos?, pergunta minha tia Maroca. Até eles, tia. Não sabe a senhora que entre filhos de famílias abastadas há viciados em drogas que, fora de si, são capazes de hediondas atrocidades?

A senhora não lê jornais? (Não lê, bem sei, só se informa pela TV, que, em geral, omite crimes de gente rica). Não sabe que, infelizmente, os pobres são mantidos presos sem culpa formada e sentença decretada, enquanto os ricos criminosos contratam bons advogados que os mantêm em liberdade?

Até os bebês nascidos em berço esplêndido deveriam ser preventivamente fichados na delegacia maternal. Todo exame pré-natal seria remetido ao Instituto Médico Legal, onde se faria também, via gota de sangue, o exame genético.

Como todos sabemos, alguns fetos trazem de berço, ou melhor, de barriga, o gene da compulsividade assassina. Você, leitor, e eu, por exemplo, graças a Deus nascemos livres desse maldito gene. Nunca matamos ninguém além de baratas e aulas.

Aqueles, entretanto, que a perícia identificar dotados do referido gene (que, curiosamente, predomina entre bebês das classes desfavorecidas) seriam sumariamente abortados.

Calma, tia Maroca, calma! Nenhum problema com a Santa Madre Igreja. Ela não apregoa o pecado original, versão bíblica do gene maldito? Não defende que é preciso cortar o mal pela raiz?

Os bebês que, por acaso, lograrem nascer antes de emitido o laudo pericial, não seriam registrados em cartório, mas fichados na polícia. Não receberiam certidão de nascimento, e sim prontuário. Não iriam ao berçário, mas ao crechário, a creche do sistema penitenciário. Não teriam direito a carrinhos, e sim a gaiolas.

Tia Maroca, ao ter o privilégio de ser a primeira a conhecer minha magistral ideia, objetou se a criminalidade não seria decorrente da falta de educação, tanto na família quanto na escola, e das precárias condições sociais nas quais muitos nascem e são criados.

Nada disso, querida tia! A senhora se refere a pais desempregados ou submetidos a subempregos, que mal podem criar seus filhos? E a mão invisível do Mercado, cometeríamos o grave erro de amputá-la?

A tia argumenta que pais alcoólatras espancam suas crianças que, revoltadas, se tornam violentas. Ora, tia, como prejudicar a promissora indústria de bebidas alcoólicas, que tantos tributos pagam ao governo? Com esse moralismo inócuo?

Sim, sei que a senhora vive propalando que a maioria de nossas escolas não oferece educação de qualidade, a matricula é cara, não há aulas em tempo integral, os índices de reprovação e evasão escolares são altos.

O que espera a senhora? Que o governo gaste seu rico dinheirinho com educação? Cada família que se vire! O que seria de nossos nobres deputados, senadores, juízes, ministros, andando por aí mal vestidos, parados no ponto de ônibus à espera de condução ou espremidos no metrô, viajando por via terrestre em nossas estradas esburacadas, morando em cortiços e desprovidos de gabinetes bem equipados?

Seria uma vergonha para a nação! A falência do poder público! Imagina a cara de um político vendo a sua piscina vazia! Não combina com a beleza de uma mansão. Água em banheiro e cozinha de escola pública não faz tanta falta. É até educativa essa estiagem. Obriga a garotada a economizar água e limpar as partes pudendas com jornal velho.

Ora, não quero fugir ao tema nem aborrecer o leitor. Proponho, em resumo, que toda criança vadia seja recolhida por viaturas semelhantes às antigas carrocinhas de cachorro e tratada pelo método Lombroso. E para evitar arrastões, que haja nos restaurantes equipamentos de controle eletrônico iguais aos de aeroportos, o que impediria a entrada de armas ilegais. Os frequentadores, desde que portadores de armas legais, seriam admitidos.

(Só falta tia Maroca gritar em favor do desarmamento geral, prejudicando os robustos negócios da indústria e do comércio de armas).

Tenho dito. O feito fica por conta do poder público.

 

RETIRADO DE :http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=75876#

 

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