A Realidade do Educador Musical no Rio de Janeiro: um olhar sobre as propostas da Revista Música na Educação Básica (ABEM)

EDUCAMUSICAL.ORG

Olá amigos! Desde minha época de licenciando em música na UFRJ venho refletindo sobre a relação entre os métodos e atividades ensinados ao estudantes de educação musical e sua aplicação na realidade da educação pública brasileira.

Obtive a confirmação de que pouco do que foi ensinado pode ser utilizado na prática quando, há dois anos atrás, entrei na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro como professor de música. Minha matrícula de 40 horas obrigava-me a dar 32 aulas semanais, aulas estas que poderiam ser divididas do 1º ao 9º ano do ensino fundamental (a escolha dos anos levaria em consideração a singularidade de cada escola). Como relatado, muito do que foi demonstrado na minha formação não se encaixava na dinâmica e rotina de uma escola pública. Ainda mais: encontrava (e ainda encontro) bastante dificuldade em achar artigos e livros que levem em consideração a realidade atual do ensino público.

Para exemplificar a problemática que eu e meus amigos de profissão vivenciamos (sendo cariocas ou não, já que esta realidade é encontrada em todo o Brasil), resolvi comparar a rotina de trabalho do professor de música no ensino básico do município do Rio de Janeiro com as propostas presentes na revista “Música na Educação Básica” nº 4 da ABEM (Associação Brasileira de Educação Musical).Não houve nenhum critério rígido de seleção dos números desta publicação. O quarto volume foi escolhido, pois era a obra mais recente disponível para download no site da associação (acesso no dia 12/3/2015).

Desde já, afirmo que não tenho o objetivo de julgar ou desqualificar nenhum dos pesquisadores ou a ABEM. Na maioria dos casos, são profissionais que têm muito mais anos de vida e docência que eu. Entretanto, outras interpretações devem ser analisadas, principalmente, por profissionais que estão na base do sistema educacional: os professores do ensino fundamental e público.

Agradeço a ABEM pela ótima iniciativa de criar uma revista com o objetivo de ajudar o docente na educação fundamental. Atitudes como esta são mais do que necessárias, principalmente num país como o nosso, muito desigual em todos os aspectos, principalmente na educação.

Devido ao tamanho das descrições sobre os artigos revisados, este post tomou proporções maiores do que um simples texto de blog (cerca de 20 páginas). Então, este escrito apresentará apenas a conclusão geral de todos os artigos. Caso o leitor queira se ater mais detalhadamente, poderá acessar a descrição individual presente no final do artigo.

O que mais chamou a atenção é que apesar do título da publicação ser “MÚSICA NO ENSINO BÁSICO”, praticamente não se fala da instituição de ensino básico que mais tem alunos, que mais emprega professores (de todas as áreas do ensino básico), que mais compra livros didáticos, que tem o maior orçamento educacional, que mais atende aos pobres e necessitados, que mais precisa de investimento, que mais precisa de pesquisa, que mais precisa de ajuda: A ESCOLA PÚBLICA.

É claro que não existe “a escola pública”, porém algumas características são marcantes quando tratamos de ensino estatal no Brasil: falta de infraestrutura, sobrecarga de trabalho para os docentes, pouco apoio de responsáveis dos educandos, grande número de estudantes com dificuldades de aprendizado, entre outras.

Nas mais de 100 páginas da revista, praticamente não se encontram palavras como escola pública, ensino público, escola municipal, escola estadual ou algo semelhante. Apenas na página 90, encontrei a seguinte citação: “Os dois primeiros desses requisitos são suficientes para que o jogos sejam acessíveis em computadores de instituições públicas de ensino […]”. Mesmo com este dado, continuo advogando pela falta de objetividade com o ensino público. Afinal de contas, esta citação não é o tema principal do artigo, e sim uma característica secundária, tanto é que ela só aparece em um momento do artigo. Além do mais, na análise sobre este estudo, defendo que ele se adapta mais à escola particular da classe média do que à maioria das escolas públicas brasileiras.

Dos sete artigos contidos na revista, quatro foram testados praticamente. Já nos outros três, não são apresentadas informações sobre a aplicação das propostas pedagógicas. Os locais das práticas educacionais citadas foram: um laboratório de musicalização infantil de uma universidade federal, uma escola ou oficina de música (o artigo não descreve com exatidão), uma escola particular com “tradição em bandas rítmicas” e uma escola (não sabemos se é pública ou privada. Na verdade, só obtive a informação da aplicação desta atividade nos vídeos disponíveis no artigo). Nenhuma escola pública de ensino básico é citada como campo experimental das atividades apresentadas nas propostas. Fato interessante, já que diferente do título, a música na educação básica praticamente não aparece quando tratamos da aplicação das propostas apresentadas.

Só dois artigos apresentam fotografias de alunos. Em geral, são pequenos grupos com com no máximo 10 pessoas desempenhando atividades práticas e musicais. As imagens transparecem que estes estudantes pertencem à classe média: generalizações a parte, infelizmente em um país tão desigual como o Brasil, a predominância de um tom de pele, pode demonstrar a qual classe social estas pessoas pertencem. Apenas um negro é visto em todas as imagens. Situação esta, antagônica à maioria das salas do ensino público brasileiro.

Todos os ambientes de ensino apresentados nas fotografias revelam uma boa estrutura e lembram pouco uma sala de aula do ensino público nacional. Alguns pedidos beiram a utopia quando comparados com a realidade do ensino público: aulas em conjunto com os responsáveis, encontrar instrumentistas de sopro e arco para se apresentar na escola, encontrar musicista entre os familiares dos educandos para a apresentação em sala de aula, manter contato com os pais via e-mail, instrumental Orff, metalofones cromáticos, sinos, pandeiros e (“infelizmente”) flauta doce.

A maioria das publicações indicadas para o aprofundamento pedagógico não são gratuitas. Levando em consideração os baixos salários de um professor, comprar estas obras, as vezes, não é uma tarefa fácil. Talvez, não seria melhor criar um programa dentro das faculdades públicas de música para o desenvolvimento deste material? Atualmente, muitas faculdades disponibilizam uma bibliografia totalmente gratuita para o concurso de ingresso na pós-graduação. O mesmo não poderia ser pensado para profissionais que, infelizmente, ganham pouco?

Em todos os artigos, nenhum problema relativo à aplicabilidade da proposta foi relatado. Em apenas um dos textos, temos a advertência de que uma atividade pode ser de difícil execução em salas com grande números de alunos. Contudo, esta é uma das características principais da maioria das salas de aula no ensino público. Não relatar esta problemática, pode causar a impressão que estas atividades se encaixam quase que “perfeitamente” no ensino regular. Precaver o educador de problemas gerados na prática poderia ajudar na prevenção de erros recorrentes destas atividades.

Dos sete artigos apresentados: um trata da pré-escola, três são recomendados para o ensino primário, em dois não há uma recomendação específica (porém o editorial indica que em um dos textos, o autor tinha experiência em turmas do segundo segmento do ensino fundamental) e há outro no qual recomenda-se que a proposta seja desenvolvida com adolescentes. Entretanto, de que adolescentes se tratam? Estudantes de 12 anos que iniciam o ensino ginasial, ou jovens de 17 anos que estão no 3º nível do ensino médio. Existem diferenças enormes entre estas duas etapas educacionais.

Não há na revista um artigo que trate especificamente do ensino musical no nível médio escolar. Nível este que sofre com a falta de propostas mais elaboradas considerando as idades com suas características específicas. Os textos apresentam ótimas ideias relacionadas ao assunto musical abordado. No entanto, a maioria das propostas não levam em consideração a rotina e estrutura de uma escola de ensino regular, principalmente dos colégios públicos. O mesmo ocorre com as características laborais de um docente brasileiro: um profissional desvalorizado tanto financeiramente quanto socialmente, que é obrigado a trabalhar em várias escolas e lecionar para centenas de alunos. Nestas condições, muitos professores nem lembram da metade dos nomes de seus educandos. Meus companheiros de trabalho, desdobram-se em duas matrículas, além de aulas extras. Muitas vezes, chegam a dar mais de 10 aulas num único dia, além de trabalharem com dezenas de turmas.

Em alguns momentos, o leitor pode achar que advogo por “macetes” e propostas prontas. Entretanto, mesmo que estas aulas já estivessem finalizadas, o docente teria que adaptá-las, e muito, para a realidade singular de cada escola. Agora, imagine apenas ideias desconectadas de uma realidade docente? A maioria dos projetos apresenta ótimas propostas para a escola da classe média brasileira: salas estruturadas e poucos alunos, geralmente os mais condicionados do sistema econômico vigente. Já o mesmo não pode ser dito quando comparamos a aplicabilidade destas atividades na rede pública da maioria dos municípios e estados brasileiros. Como relatado durante a análise dos artigos, em muitos casos o docente tem apenas uma caneta “pilot” ou giz e um quadro disponível para as aulas. Assim como vários alunos dentro de uma sala de aula: 40, 50 até beirando os 60 alunos. Como aplicar as ideias apresentadas numa realidade tão precária?

A maioria das ideias e críticas apresentadas aqui estão resumidas. Ampliar estas argumentações demandaria um aumento enorme deste texto e comprometeria a dinâmica de leitura da postagem para o blog.

Como dito na apresentação desta análise, não pretendo menosprezar o trabalho de nenhum dos autores. Na maioria dos casos, são profissionais altamente especializados e com mais anos de magistério que eu. Em nenhum momento, citei o nome dos autores e só utilizo o título dos artigos para não criar uma confusão nas análises individuais. Convido estes professores para um diálogo e peço ajuda para desenvolver estes trabalhos nas mais de 25 turmas que tenho como professor.

Aproveito esta oportunidade e lanço mais uma sugestão a todos estes profissionais: quando estiverem em terras fluminenses, peço que visitem a escola onde trabalho, para talvez apresentar uma atividade para as centenas de educandos que tenho. Creio que a secretaria municipal de educação do Rio de Janeiro não irá se opor. Pelo contrário, toda ajuda à educação musical é bem-vinda.

Referências
ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:
http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 (acessado em 22/07/2015)

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A Realidade do Educador Musical no Município do Rio de Janeiro e o Ensino do Rock apresentado na Revista Música na Educação Básica

 

 

 

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ENEM (Ivan Cabral)

 

Riffs Forever: o rock na sala de aula

Este artigo é dedicado aos adolescentes, recomendam-se atividades a partir dos marcantes riffs de guitarra. Assim, os estudantes seriam motivados a usar a voz e os instrumentos disponíveis para tocar e reinventar o rock (editorial pg 7).

O artigo começa com uma explicação histórico-filosófica sobre o Rock. Num segundo momento, a autora inicia a ligação entre gênero e educação. Assim lemos:

Como abordá-lo [o rock] em sala de aula, sem guitarras, baixos elétricos, baterias, amplificadores e isolamento acústico? Minha preocupação é que não se crie uma caricatura de rock nem se reduza tudo a seções de apreciação e história. É possível contemporizar as ricas possibilidades do gênero e os recursos disponíveis nas escolas, dispondo da voz e de instrumentos acessíveis, como xilofones, flautas, percussão e alternativos. (pg 74)

As propostas apresentadas no artigo podem compor um projeto de semanas ou meses. Estas sugestões seguem o mesmo padrão em todas as músicas: levantamento histórico, análise musical do riff e ideias didáticas para a canção. Assim:

Para a canção Layla (Eric Clapton), pede-se (caso haja instrumentistas) acompanhamento, percussão e um registro gráfico ou no pentagrama do solo presente na música.

Em Smoke on the wather (Deep Purple) é sugerido que os educandos alternem o riff com improvisação nas estrofes ou refrão.

Para Sweet Child O’mine (Guns N’Roses), em um arranjo em grupo, o riff poder ser desdobrado entre instrumentos iguais (flautas, violões, xilofones) ou diferentes, incluindo a voz…. A linha mais aguda pode ser feita até com sinos ou garrafas com água (pg 79). sobre a base, outros alunos podem improvisar melodias, criar temas e letras. Assim como mudar de tonalidade (pg 80).

Em Hey Bulldog (The Beatles), sugere-se que o ideal é executar o riff no teclado, violão ou guitarra; ou também no metalofone cromático.

Na canção Beat It ( Michael Jackson), o riff pode ser cantado. Os alunos podem tocar essa parte no teclado, xilofone, flauta, violão ou outro instrumento melódico.

Para QUE PAÍS É ESSE (Legião Urbana), sugere-se a percepção da harmonia, solicitando ao um grupo de alunos que entoe a sequência das fundamentais dos acordes. A melodia pode ser tirada de ouvido no teclado , violão, flauta ou xilofone e acompanhada de percussão.

A autora fecha o artigo propondo uma composição coletiva de uma canção de rock. Os educandos devem criar um riff e pode-se até criar um festival, gravar e compartilhar as músicas em redes sociais. Afinal de contas: a qualidade do processo e dos produtos musicais depende, em grande parte, de habilidade, empolgação e criatividade do professor (pg 84).

Quando terminei de ler este texto, surgiu as seguinte indagação: de que adolescentes tratam? Crianças de 12 anos no ensino fundamental ou de 17, no ensino médio? Afinal de contas, existem enormes diferenças biológicas e pedagógicas entre estes extremos.

Quais são os instrumentos acessíveis para os alunos numa escola pública? Xilofones, teclados, flautas, percussão? Em quais escolas (incluo até as particulares) há um xilofone? Ou um metalofone cromático?

Estas propostas podem se estender por semanas ou meses, mas como aplicá-las? Como planejar este projeto tendo várias outras turmas?

Como registrar num pentagrama um solo bastantes complexo como o de Layla numa turma que pode conter até 40 educandos? Em muitas delas ninguém teve acesso a um instrumento. Em qual nível musical estariam estas crianças? Afinal de contas, muitas turmas têm aulas de educação musical em apenas alguns anos formação, ainda são raras as turmas que dispõe e educação musical durante quatro ou cinco anos na educação básica.

E as garrafas afinadas? 25, 30 ou 40 garrafas? Em quantas turmas? Quem transportaria e afinaria tantas garrafas? Afinal de contas, ainda são raras as escolas que disponibilizam uma sala de música. Quando tratamos das instituições públicas então…

Sinos?

Mudar tonalidade?

Criar um festival? Como? Além do tempo de planejamento que é escasso, um professor pode criar um festival? Quantos já foram criados? Numa realidade em que um professor chega a dar mais de 10 aulas por dia e ter mais de 800 alunos. Soma-se a isso o número de funcionários, técnicos, que quase sempre está abaixo do recomendável nas instituições públicas.

Gostaria de saber em quais escolas do ensino básico um professor pode encontrar metade dos instrumentos recomendados no artigo. Até mesmo escolas de renome não disponibilizam estes materiais. E quando tratamos de estudantes pobres? Estas propostas são viáveis em escolas que não oferecem nem materiais de maior urgência?

Em todo o artigo, não há informações sobre a aplicação desta proposta em uma escola de ensino básico.


Creio que a maioria destas perguntas não são respondidas nem realizadas em grande parte, com habilidade, empolgação nem criatividade do professor. Principalmente por um docente de uma escola pública !!!

Referências

ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 . Último acesso:22/07/2015

 

A Realidade do Educador Musical no Município do Rio de Janeiro e o ensino de Flauta Doce apresentado na Revista Música na Educação Básica

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Sem Título (Ivan Cabral)

 

Flauta doce como instrumento artístico: uma experiência em sala de aula.

Os autores iniciam o estudo demonstrando que a flauta tem sido um dos instrumentos escolhidos para a prática de instrumentos musicais nas escolas. Estas práticas vem ocorrendo nas escolas por meio de projetos e aulas curriculares ou mesmo como parte das aulas de artes (pg 34). Os exemplos de trabalhos com flauta doce nas escolas apresentados são: Lenga la Lenga; Flauta, flautinha e flautão; e Projeto Guri. Todas as atividades descritas no artigo são baseadas no método SUZUKI de musicalização. Propõe-se que as atividades sejam aplicadas em escolas de ensino regular, em turmas desde os últimos níveis da educação infantil até o quinto ano do ensino fundamental (pg 34).

Seguindo a filosofia Suzuki, os pesquisadores defendem a interação com os pais. Contudo, advertem que a mesma é difícil quando tratamos do ensino regular. Para manter esta relação “tríadica” entre os responsáveis, professores e alunos; outras formas de aproximação precisam existir. Entre as sugestões levantadas, destacarei aquelas que me chamaram a atenção:

– Tarefas que envolvam pesquisa e auxílio dos pais

– Cartazes que envolvam pesquisas e auxilio dos pais

– Emails

– Disponibilização de CDs e DVDs para apreciação em casa

– Trabalhos sociais

Perdoe-me pela repetição do termo “escola”no início desta análise. Quando escuto esta palavra, o que me vem à cabeça é a escola pública. Escola essa que absorve a maioria da população brasileira e, consequentemente, o exército de pobres que não podem pagar por outra forma de ensino. Neste artigo, não consigo focalizar que “tipo específico ou não” de escola é descrita. Será a escola pública que os pesquisadores estão se referindo?

Tendo esta dúvida inicial, outra pergunta me vem à cabeça: será que o ensino deste instrumento sofre alguma dificuldade nas instituições públicas? Será que o artigo contextualiza a realidade em que o educador musical encontra no meio estatal? E os projetos relatados? São aplicáveis em todas as escolas?

Devo confessar que sou fã dos projetos citados acima pelos autores. Todos eles contribuem para a musicalização de milhares de brasileiros e todos os anos aparecem novos talentos musicais descobertos por estas iniciativas. Entretanto, nenhum é totalmente gerado, desenvolvido e mantido pelo ensino fundamental público. São ótimos exemplos de projetos, entretanto não podem servir de referência quando comparados à realidade da escola pública.

Fica muito difícil uma escola pública doar ou emprestar uma flauta doce para cada aluno. Uma alternativa é pedir para que os alunos comprem este instrumento. Entretanto, muitos se mantém com ajuda de programas sociais, assim, até 10 reais acaba se tornando uma “fortuna” para certas famílias. O docente não pode “obrigar” o educando a comprar esta flauta. Outra alternativa é o próprio professor comprar os instrumentos. Então, vamos aos cálculos:

Numa pesquisa rápida no site bondfaro.com.br (acesso no dia 13/3/2015), uma flauta doce custava 29 reais. Suponhamos que um professor consiga as flautas por 15 reais a unidade no atacado (baita promoção!).

Agora, vamos ao número de alunos: um professor com uma matrícula de 40 horas, no município do Rio de Janeiro tem a obrigação dar 28 aulas semanais. As turmas de 1º ao 5º anos (como recomendam os autores) tem uma aula de educação musical por semana. Resumindo, o docente que trabalha nesta faixa etária terá 28 turmas. Oficialmente, as turmas podem comportar até 40 educandos (as primeiras séries contêm menos de 40, no entanto os últimos anos as turmas podem passar do limite em casos excepcionais). Tudo bem! Fixaremos uma média de 30 alunos por turma, o que dá: 840 alunos.

Logo, 840 alunos x 15 reais = 12.600 reais.

Xá pra lá!

Vamos comprar as flautinhas de brinquedo, assim o educador musical só gasta 840 reais. Isso se comprar no atacado, na mais positiva da hipóteses, a flauta por 1 real.

Estas flautas de brinquedo, além de durarem pouco não afinam. Esta característica vai de encontro com o que os autores recomendam na página 38, ondem lemos:

É importante que os alunos tenham contato com instrumentos de qualidade, com profissionais que estejam atuando e trabalhando para que a flauta doce continue sendo um instrumento de excelência. Escutar gravações, assistir a vídeos, manipular flautas de diferentes tamanhos e receber visitas valorizando o trabalho e fortalecem o desenvolvimento musical, aguçando o senso crítico dos alunos.

Levando em consideração a realidade encontrada no ensino público, como uma escola poderia receber visitas? Como relatado em análises anteriores, a quem caberia os gastos com transporte e alimentação destes profissionais?

Como os professores, que muitas vezes são obrigados a ter 2 matrículas e até dobras de matrículas para manter a família, podem ser profissionais atuantes?

Os autores também indicam a execução de cartazes e tarefas que envolvam pesquisa e auxílio dos pais. Não é novidade que nós, docentes do ensino básico da rede pública, lidamos com estudantes de baixo background cultural, background este tendo como referência os conhecimentos valorizados pela escola. Afirmo que não concordo com tudo o que envolva a teoria do sociólogo francês Bourdieu, entretanto devo admitir que a falta de instrução pode dificultar a já difícil tarefa de envolver os pais em tarefas que envolvam uma cultura escolar.

Muitos pais nem concluíram o ensino fundamental. Já presenciei, inúmeras vezes, casos em que os responsáveis até tentam ajudar, mas não conseguem entender um exercício do primeiro ano primário. Eu mesmo, filho de uma nordestina do interior de Alagoas, era obrigado a pedir ajuda aos vizinhos, pois minha mãe mal sabia ler. Nestas condições, como desenvolver tarefas que envolvam os pais? Pais que tem vários filhos. Pais que em certos casos mal têm momentos com a prole, devido ao tempo que gastam no trabalho e no transporte público.

Tratando dos problemas listados acima, mandar “emails” chega a ser uma utopia. Disponibilizar CDs e DVDs, talvez seja o mais fácil. Entretanto, as mídias devem ser compradas e gravadas pelo educador musical. Sobre trabalhos sociais, não consegui entender muito bem do que se trata. Trabalho social os professores da rede pública já fazem: além de docentes, nós desempenhamos papéis que extrapolam a relação de professor/aluno pois envolvem problemas que vão além do ensino-aprendizagem. Não somos psicólogos ou assistentes sociais, porém em muitos casos, somos obrigados a desempenhar funções que são exclusivas destes profissionais.

Outra tática abordada pelos pesquisadores trata das práticas de articulação apresentadas às crianças. Recomenda-se o uso de brinquedos como cachimbos com bolinhas e a fabricação de bolinhas de sabão (pg 40). estes brinquedos são até baratos, mas quem irá comprá-los? Talvez o educador possa fabricar estes instrumentos. No meu curso de licenciatura, nunca tive uma aula do tipo. O educador teria, talvez, que pesquisar e utilizar o pouco tempo livre que dispõe para esta atividade. E o sabão? É barato! Mas, para a quantidade de alunos apresentados, o custo pode ser um pouco alto.

No método Suzuki, o repertório é compilado em uma série de livros, cada um dos quais com gravações em CD para o aluno escutar e se familiarizar com a música que estiver estudando (pg 41). Mais uma vez: se a flauta já é uma questão difícil, o que dirá a compra do livro referente ao método? As faculdades de música não poderiam desenvolver algo semelhante e disponibilizar gratuitamente estas partituras e gravações?

Na seção de atividades de interpretação, improvisação e composição; são indicadas atividades que envolvam outros instrumentos como xilofone e pandeiro (pg 45). Gostaria muito de trabalhar numa escola com xilofones… Já o pandeiro, eu tive que comprar. Outra ideia é trabalhar com atividades que envolvam experimentar outros tamanhos de flautas. Se a soprano já é um “problema”, imagine outros tamanhos. Mais uma vez, o custo pode cair no colo dos professores. Caberá a eles comprar as flautas e apresentá-las em turmas com dezenas de educandos. Como é do caso das escolas públicas.

O artigo não explicita em qual instituição foi trabalhado o experimento: oficina, laboratório ou numa escola pública de ensino básico. Nas fotos, o número máximo de alunos enquadrados é de vinte e dois estudantes. Entretanto, eles não estão tocando; mas, assistindo à uma apresentação. O número máximo de alunos utilizando a flauta doce é de 7 educandos. Nenhum deles é negro. A instituição parece ser bem conservada e conta com quadro de música e teclado de percussão. Características quase antagônicas à maioria das escolas públicas de educação básica.

Muitos professores, do município do Rio de Janeiro e de outros estados, utilizam flautas doce nas aulas de educação musical. Mas, cabe ressaltar, estas atitudes não abarcam a maioria dos estudantes da rede de ensino. Já presenciei ótimos trabalhos com flautas e copos ou percussão corporal. O problema destas atividades é que, na maioria dos casos, só toca flauta quem pode adquirir uma. Caso o educando não a tenha, ele é “rebaixado” para outro instrumento.

Outros professores compram uma quantidade de flautas compatível com o número de alunos de uma turma. O problema é que estes instrumentos tem que ser higienizados a cada fim de aula. Lembrando, um professor pode ter 28 turmas na rede carioca e dar até mais aulas em outras instituições. Acrescentamos que os educandos não levam estas flautas para casa, os estudantes mantêm contato com o instrumento em apenas um tempo de aula por semana.

Há também uma alternativa menos democrática: escolher uma turma e trabalhar com flautas nela, ou escolher uma série para lecionar o instrumento. Mas, qual turma é a melhor para ser a escolhida? Caso seja a série a solução, as crianças só terão aulas durante um ano?

Existem certas questões que doem no coração ! Principalmente, quando pensamos numa educação libertadora, democrática e acolhedora.

Estamos bem longe de equalizar esta questão !!!

Referências

ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 . Último acesso:22/07/2015

Entrevista ao portal Educamusical.org

Olá amigos.

Abaixo segue a entrevista concedida ao projeto Semanário no site Educamusical. Uma ótima entrevista comandada pelo professor Marcelo Borba (UFPel).

Levantamos questões referentes à educação musical dentro da escola pública e a relação entre teoria e prática na formação do educador que está no ensino básico público. Espero que este relato ajude a outros docentes. Perguntas são sempre bem-vindas !!!

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Semanário – Mateus Nikel

É bastante positivo a variedade de blogs, sites e portais que tem surgido na área da música e da educação musical nos últimos anos. Da mesma forma que as comunidades e os grupos de discussão em mídias sociais, os blogs representam um espaço articulado para diálogos e são importantes por valorizarem o caráter autoral em suas publicações.

Em vários momentos tive o prazer de contar com a colaboração dos colegas (blogueiros ou não) da educação musical nas postagens do “semanário” aqui no site. A cada semana tentamos viabilizar novos relatos, recomendar materiais didáticos disponíveis pela rede e divulgar trabalhos que acreditamos poder contribuir para a prática educativa dos professores de música.

Ao privilegiar a interação e a narrativa dos educadores convidados, conseguimos conhecer um pouco mais sobre os diferentes contextos e as micro-realidades da educação musical na atualidade. E sabemos como tem sido importante tais narrativas.

Seguimos com o convidado dessa semana:
Algum tempo atrás, em pesquisas pela web, encontrei o “Blog do Nikel”. O autor do blog é o educador Mateus Nikel, o qual disponibiliza na sua página diversas sugestões de atividades para educação musical e também textos autorais sobre temas variados. Os escritos de Mateus são relevantes, em minha opinião, principalmente porque partem de suas experiências cotidianas como professor de música em escolas públicas do Rio de Janeiro. As atividades disponibilizadas no Blog do Nikel trazem ainda recursos de áudios e imagens que ajudam muito no entendimento e na reutilização das propostas publicadas.

Não tive dúvidas em lançar o convite para que Mateus pudesse colaborar com o projeto “semanário”. Felizmente ele aceitou participar e publico então a apresentação enviada pelo educador.

Olá, sou Mateus Nikel, tenho 28 anos e trabalho como professor de educação musical na prefeitura do Rio de Janeiro, mais especificamente na Escola Municipal Monteiro Lobato (Guaratiba/Zona Oeste carioca). Sou licenciado em educação musical pela Escola de Música da UFRJ e, desde o ano de 2013, leciono em escolas públicas de ensino básico.

Já ministrei aulas para turmas do primeiro e segundo segmentos do ensino fundamental, assim como turmas de realfabeização (Projetos Acelera e Realfa) e EJA (PEJA). Atualmente, atuo do primeiro ao sexto ano do ensino fundamental.” (Mateus Nikel)

“Para se ter ideia desta problemática, até fazer uma simples roda é uma ação quase utópica (e praticamente todo método de musicalização sugere uma). As salas de aula são planejadas para a disposição tradicional das mesas e cadeiras, dificultando assim outra forma de organização. É óbvio que o professor pode empilhar as carteiras. Porém ele só tem um tempo de aula para empilhar as mesas e cadeiras, fazer as atividades na roda, arrumar a sala com antes e fazer a chamada. Soma-se a isso os baixos salário que obrigam o profissional da educação a dar 10 ou mais aulas por dia. Qual docente tem pique para arrumar 10 salas num dia?”

 

Marcelo Borba: Olá Mateus, como surgiu a ideia de fazer publicações relacionadas a educação musical via blog? Qual seus objetivos com essa iniciativa?

Mateus Nikel: Na verdade não foi uma ideia, mas sim uma necessidade. Para explicar isso melhor tenho que contar sobre a minhas história com a educação…

Quando entrei na rede pública, pude comprovar na prática as críticas que fazia à minha formação: muito pouco do que aprendi no curso de licenciatura em música pode ser aplicado na realidade do ensino público brasileiro. Em outras palavras, muita teoria e pouca vivência prática.

Falava-se e ainda fala-se muito em paisagem sonora, percussão corporal, parlendas e outras poucas atividades. Entretanto, não se situava estas atividades no contexto público escolar, na quantidade de aulas e no planejamento curricular da disciplina. Quando criávamos algo, seguíamos parâmetros das escolas federais (CAPs, IFs e Colégio Pedro II) que estão bem distantes do ensino de forma geral. Eu mesmo, fui obrigado a estagiar no CAP/UFRJ: uma instituição com ótimo padrão de ensino, mas que atende praticamente à classe média carioca, ficando assim bem distante da realidade da docência pública de uma forma geral.

E foi assim que me formei e encarei uma realidade nada animadora. Minha primeira escola foi dentro da favela de Antares (uma das mais pobres e violentas do Rio de Janeiro). Crianças agressivas, desamparadas e convivendo com o tráfico de drogas (o baile funk era em frente a escola e convivíamos com o tráfico diariamente). Não havia instrumentos disponíveis, só contava com uma caneta “pilot” e o quadro. Já tinha o blog nesta época que servia como banco de artigos e outras publicações. Devido à violência da região (que era refletida no comportamento discente), acabei me decepcionando com o magistério e comecei a estudar para concursos em outras ocupações. Foi aí que comecei a utilizar o blog de forma mais autoral: escrevia resumos e fichamentos sobre as bibliografias estudadas e divulgava para quem estivesse precisando.

A situação na favela ia de mal a pior: várias vezes tive que me abaixar dos tiroteios e passar pela boca de fumo no caminho para o trabalho. Não aguentei a situação e com menos de um ano de magistério tirei uma licença médica, estava desistindo de ser professor (desistência motivada pela violência do entorno e o descontentamento com as poucas ferramentas pedagógicas que eu tinha para as aula de educação musical).

 

“a maioria das propostas pedagógicas que tenho contato, trata de pequenos grupos com no máximo 15 crianças. Geralmente, estas atividades são inspiradas em metodologia ativas europeias. Em qual escola do ensino regular o professor tem esse número de alunos?”

 

Após o ocorrido fui transferido para outras escolas e em uma, bem mais tranquila, percebi que poderia desenvolver um ótimo trabalho. Entretanto, nunca estudei uma metodologia que se adaptasse ao ensino público brasileiro: falta de material pedagógico-musical, turmas com até 40 alunos,desmotivação geral e salas que não se adaptavam à experiência corporal.

Pedi ajuda a outros educadores nas mídias sociais. Talvez um livro ou alguns planos de aula pudessem me indicar um norte a seguir. Porém, as repostas eram: “monta um coral”, “faz O PASSO”, “usa Orff” ou “monta uma rádio”. Devo confessar que não entendia: como usar estas ferramentas sem a menor infraestrutura? Como ensinar O PASSO para dezenas de crianças e em salas lotadas de carteiras? Como montar um coral com estudantes que se negavam a cantar? Ninguém soube pormenorizar isso, pelo contrário, alguns alegaram que eu estava “menosprezando os alunos”.

Desta problemática resolvi criar algumas aulas simples, levando em consideração a realidade que eu e meus amigos passavam e que pudessem ser aplicadas em escolas públicas.

Divulgo estas atividades musicais em meu blog para ajudar pessoas que estão na mesma situação que a minha, além de trocar ideias com outros professores. Foram as necessidades que me levaram a fazer resumos e depois criar aulas. Junto desta necessidade, pensei em socializar aquilo que pode ajudar meus companheiros de profissão.

Marcelo Borba: A partir da sua experiência com o ensino de música (e as realidades dos espaços em que você trabalha), quais principais desafios a serem enfrentados?

Mateus Nikel: Feliz ou infelizmente, o que não faltam são desafios! Posso elencar os mais recorrentes: salas que comportam até 40 alunos, falta de instrumentos até para o professor, curta duração da aula e falta de local ideal para a disciplina.

Como relatado anteriormente, a maioria das propostas pedagógicas que tenho contato, trata de pequenos grupos com no máximo 15 crianças. Geralmente, estas atividades são inspiradas em metodologia ativas europeias. Em qual escola do ensino regular o professor tem esse número de alunos? Encontramos crianças desmotivadas, dependentes de ajudas sociais e com pouco apoio familiar. Já estamos no segundo bimestre e até agora estou correndo atrás de “cadernos” para alguns educandos. Se um caderno que custa 2 reais já dá este trabalho, imagine uma escaleta ou flauta?

 

“Falava-se e ainda fala-se muito em paisagem sonora, percussão corporal, parlendas e outras poucas atividades. Entretanto, não se situava estas atividades no contexto público escolar, na quantidade de aulas e no planejamento curricular da disciplina.”

 

Muitas escolas não tem um instrumento harmônico, daí o docente é obrigado a levar um . E se não houver como? Você faz um pedido “insistente” à direção ou “se vira” (na verdade, nós sempre nos viramos). Não havia instrumentos na primeira escola em que trabalhei e não dava para levar o meu. Eu não tinha carro e pegava ônibus e trem lotados. Atualmente estou trabalhando com copos. Comprei 50 e ainda estou testando esta abordagem de ensino. Como relatado acima, não encontrei métodos aplicados no ensino regular e nem fui formado para usar esta ferramenta.

A carga horária do primeiro segmento do ensino fundamental é de apenas um tempo por semana. Pouco tempo para fixar conteúdos e até para aplicar uma atividade. Muitas vezes, o professor demora várias aulas para finalizar uma ideia simples que é absorvida rapidamente em um grupo pequeno de estudantes. Passo sempre por esta dificuldade. Uma sala de música seria ótimo, entretanto, são raras as escolas que disponibilizam este espaço. Para se ter ideia desta problemática, até fazer uma simples roda é uma ação quase utópica (e praticamente todo método de musicalização sugere uma). As salas de aula são planejadas para a disposição tradicional das mesas e cadeiras, dificultando assim outra forma de organização. É óbvio que o professor pode empilhar as carteiras. Porém ele só tem um tempo de aula para empilhar as mesas e cadeiras, fazer as atividades na roda, arrumar a sala com antes e fazer a chamada. Soma-se a isso os baixos salário que obrigam o profissional da educação a dar 10 ou mais aulas por dia. Qual docente tem pique para arrumar 10 salas num dia?

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Marcelo Borba: E esse momento contemporâneo que vivemos, com pessoas hiper-conectadas pelas mídias sociais, na sua opinião, são mudanças significativas para a educação musical na escola? Como você entende isso?

Mateus Nikel: Esta pergunta é bastante ampla: tanto pode abarcar a tecnologia dentro da sala de aula e as ferramentas digitais usadas pelos alunos, as trocas de conhecimento nas comunidades virtuais ou até mesmo de outros assuntos que não me vêm à cabeça neste momento.

Inicialmente, creio que comunidades virtuais sirvam, entre outras coisas, para uma maior divulgação das ideias de outros educadores musicais. Nos conhecemos virtualmente certo? Caso não houvesse esta ferramenta, eu teria que editar um livro ou escrever um artigo. Opções difíceis de serem concretizadas.

Já quando tratamos das tecnologias em sala de aula, devemos ter muito cuidado. Todos nós sabemos que a infraestrutura das escolas e das famílias variam muito. Durante muito tempo ensinei as crianças como montar slides e fazer um apresentação em Power Point (ou no Impress, já que sou um defensor do Linux). Entretanto, não consigo fazer isso na escola em que trabalho atualmente. Mesmo com o barateamento do acesso à informática, muitas crianças ainda não têm computador. A acesso à internet ainda é feito por lan-houses.

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