Por que o embargo econômico imposto pelos EUA a Cuba nunca tem fim?

Por Fabiano Amorin do Diário do centro do mundo.

Em junho de 2012, o banco holandês ING foi multado em 619 milhões de dólares pelo governo dos Estados Unidos. Essa multa não foi por ter feito lavagem de dinheiro, sonegado impostos, nem mesmo por lesar clientes. O grande crime cometido foi fazer negócios com Cuba.

Punir bancos estrangeiros que negociem com Cuba é o meio que o governo americano encontrou para impedir que esse país tenha acesso a crédito; algo fundamental para um país pobre se desenvolver.

O impedimento do acesso ao crédito é apenas uma pequena parte do embargo econômico imposto a Cuba. O governo americano impõe a todas as empresas do mundo a seguinte condição: “Se você fizer negócios com Cuba, não fará negócios comigo”. Como os EUA são o maior mercado consumidor do mundo, isso faz com que muitas empresas se afastem completamente de Cuba, restringindo bastante o mercado ao qual o país tem acesso. Isso prejudica o país de diversas formas, desde a aquisição de veículos até a compra de equipamentos para a indústria ou para os hospitais. Cuba tem um excelente sistema de saúde pública e ótimos médicos, mas possui grande dificuldade de aparelhar os hospitais de forma adequada, pois é comum ter o dinheiro para comprar os equipamentos de que precisa e não encontrar vendedores disponíveis.

Mesmo após encontrar um vendedor e efetuar a compra, surge um novo problema: se um navio for até Cuba entregar alguma coisa, durante 6 meses não poderá desembarcar nos EUA. Isso restringe a quantidade de navios disponíveis para a entrega e obriga o governo cubano a pagar bem mais caro para que algum dono de navio se disponha a fazer o frete.
Não satisfeitos com todas essas medidas, os EUA também atrapalham e muito o comércio exterior cubano, através da proibição da entrada nos EUA de qualquer produto que tenha sido fabricado com alguma matéria prima cubana. Por exemplo, se a montadora japonesa Nissan fabricar um carro usando o níquel extraído em Cuba, esse carro não poderá ser vendido nos EUA. Nem precisa pensar muito para perceber que nenhuma montadora de carro no mundo usará qualquer minério extraído em Cuba. Domesmo modo, nenhuma bebida poderia ser vendida nos EUA se fosse fabricada usando o açúcar cubano.
Tudo isso estrangula e muito a economia desse pequeno país caribenho. Você considera possível que algum país pobre se desenvolva tendo pouquíssimo acesso a crédito, tendo pouco acesso ao mercado mundial para comprar o que necessita, pagando bem mais caro pela entrega das compras e ainda por cima tendo um mercado consumidor bem restrito para os seus produtos? O embargo causa todos esses problemas a Cuba.
Na última terça-feira, 29 de outubro, a assembléia geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou pelo fim do embargo americano à Cuba pelo 22o ano consecutivo. Foram 188 países votando pelo fim do embargo, contra apenas dois países (EUA e Israel) favoráveis à manutenção dessa política.
Apesar de termos quase 99% dos países do mundo contrários ao embargo, isso não faz a menor diferença para o governo dos EUA, que decide manter essa absurda política ano após ano, mesmo sem ter quase nenhum apoio internacional.
A ONU tem poder para punir países pequenos, quando essa é a vontade dos países mais ricos, mas não tem poder algum para punir um país poderoso como os EUA, a Inglaterra, a Rússia ou a França. Cuba é um país minúsculo, com apenas 11 milhões de habitantes, ou seja, uma população quase do tamanho da cidade de São Paulo e com um PIB de apenas 121 bilhões de dólares (2012). É um país tão pequeno que não representa nem de longe qualquer ameaça militar ou econômica aos Estados Unidos. Mesmo assim, os EUA mantêm contra Cuba um embargo econômico de uma dimensão que normalmente só é vista em situações em que um país está em guerra contra os EUA. Qual o sentido disso?
A justificativa que é sempre usada pelo governo norte-americano é a de que o embargo é mantido pelo fato de Cuba manter um governo ditatorial. Porém eles nunca tiveram qualquer problema de consciência em fazer negócios com a Arábia Saudita, o Bahrein, a Líbia, o Egito e tantos outros países que mantinham (ou mantêm) ditadores ferozes no poder. Como os ditadores desses países se alinham politicamente com os EUA, o comércio com eles é mantido. Como o governo de Cuba, desde a revolução cubana, nunca se alinhou com a política norte-americana, o país recebe até hoje esse enorme castigo.
Essa estratégia de prejudicar a economia de um país é utilizada para jogar a população contra o governante local. Ela já foi usada diversas vezes na história. Uma bem conhecida ocorreu no Chile, com o presidente Salvador Allende. O governo americano, através da CIA, financiou uma greve de empresas de transporte, que causou um enorme problema de abastecimento no país, gerando uma grande crise interna e jogando parte da população contra o presidente.
No caso específico de Cuba, está mais do que provado que o embargo econômico quase não afeta a popularidade do governo cubano. O efeito do embargo é exatamente o contrário: joga a população contra o governo americano, culpando-o pela sua pobre economia, que tem enormes dificuldades de se erguer. No fim das contas, o governo americano aparece para os cubanos como o vilão da história e o governo cubano ganha a imagem de grande herói, que protege o povo cubano contra o imperialismo americano.
Isso é visto com muita clareza na quase total ausência de protestos contra o governo em Cuba. É raro ver esse tipo de protesto por lá e mesmo quando ocorre, têm aproximadamente de 100 a 200 pessoas, nem chegando próximo do que se vê nos EUA, Europa, Brasil e tantos outros países com democracias ou ditaduras.
Por outro lado, as manifestações a favor do governo cubano e contra o governo dos EUA têm proporções monumentais. As manifestações de 1o de maio levam centenas de milhares às ruas. Os vídeos no Youtube e fotos publicadas das manifestações demonstram claramente a absurda diferença entre a quantidade de apoiadores e de dissidentes do governo em Cuba.
Hoje até mesmo boa parte dos dissidentes do governo já são contra o embargo, pois está mais do que provado que ele não tem força alguma para derrubar o governo. A conhecida blogueira dissidente Yoani Sanchez, em uma entrevista concedida nos EUA em março deste ano, manifesta sua opinião de que uma mudança de regime só poderia ocorrer após o fim do embargo econômico.
Se quase todos os países do mundo e parte dos dissidentes cubanos são contra o embargo, por que razão os EUA continuam mantendo essa política ano após ano
Fernando Morais, em seu livro “Os últimos soldados da Guerra Fria” explica as razões:
Nenhum presidente americano havia chegado à Casa Branca sem antes se submeter ao beija-mão dos chefões da diáspora cubana em Miami. A cada quatro anos, um Comitê de Ação Política […] irrigava com doações que chegavam a 10 milhões de dólares as campanhas eleitorais de cerca de 400 candidatos a deputado federal e senador […]. Bastava que defendessem os pontos de vista da diáspora cubana, que fossem comprometidos com a manutenção do bloqueio a Cuba e com todas as formas de luta para pôr fim ao regime comunista que imperava na ilha. Segundo a unanimidade dos observadores políticos, o poder do lobby cubano no congresso só perdia para o multimilionário AIPAC [lobby pró-Israel]…”
Independente de você ser defensor ou opositor do atual modelo político cubano, você deveria ser favorável ao fim do embargo econômico à ilha, pois Cuba só terá condições de se desenvolver, seja pela via socialista ou capitalista, a partir de quando o embargo não mais existir.
Com o fim do embargo, uma série de leis existentes que retiram liberdades dos cubanos não teriam mais sentido de existir. Hoje elas são claramente justificáveis e aceitas pelos cubanos, pelo permanente estado de guerra em que se sentem inseridos graças ao governo americano. É semelhante às leis absurdas aprovadas nos EUA, como o “Ato Patriótico”,  aceito pela maioria, sob a justificativa do medo por causa da guerra ao terrorismo.
No dia seguinte ao fim do embargo, provavelmente a sociedade iria pressionar o governo para que pusesse fim às restrições restantes que impedem a livre entrada e saída do país, o trabalho no exterior, a livre associação, a atividade comercial por conta própria, entre outras questões. A partir do momento em que o congresso americano pusesse fim ao bloqueio econômico, seria iniciada uma corrida contra o tempo em Cuba.
O governo cubano seria obrigado a desenvolver a economia o mais rápido possível, para provar que a culpa dos problemas econômicos era dos americanos e não do governo local. Caso não conseguisse desenvolver a economia em um tempo aceitável pela população, iria sucumbir, pois ficaria a impressão de que a culpa sempre foi do governo e não do embargo.
Caso o governo viesse a fazer concessões e permitisse mais liberdades na ilha,  como a permissão para que os cubanos se associassem livremente, independentemente do Estado, provavelmente novas forças políticas surgiriam, algumas favoráveis ao atual regime e outras contrárias, à esquerda e à direita, mas desta vez bem organizadas e legalizadas.
O que de fato acontecerá após o fim do embargo é imprevisível. O atual sistema político cubano pode acabar, ser reformado ou se tornar ainda mais aceito pela população. Tudo dependerá da capacidade do governo cubano em atender as necessidades da população. O governo não mais poderá usar a justificativa do embargo. Portanto terá de fazer o melhor trabalho possível ou a população não irá suportar viver na pobreza por muito tempo e poderá decretar o fim do domínio do Partido Comunista Cubano.
Sobre o Autor

Fabiano Amorim é nascido em Palmeiras dos Índios, e atualmente mora em Maceió, Alagoas. Ele escreve no blog http://fabiano-amorim.blogspot.com.br. É autor do aclamado documentário “Derrubaram o Pinheirinho”, sobre a reintegração de posse do acampamento Pinheirinho em São Jose dos Campos.

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