Wolffinianas

E não é para se indignar? Estou vindo do Espírito Santo, rodando há horas; é terra e terra dos dois lados da estrada. Não é de explodir de raiva, você saber que todo esse espaço não cultivado pertence a três ou quatro ricaços que junto com outros canalhas iguais a eles mantêm de­putados e senadores na folha de pagamento para evitar a reforma agrária? Quando eu viajava pelo Nordeste, um dia, uma mulher, em verdade uma velha desdentada de vinte e poucos anos, quando me viu pegar no colo a filha dela, bonita, magra e barrigudinha, me perguntou se eu queria comprá-la porque não vingaria. Como é que alguém pode morrer de fome neste país?

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WOLFF, Fausto; O Nome de Deus; Ed. Bertand do Brasil 1999, pg 90

 

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(…) Não fora pela ausência de negros e pobres, eu diria que já havia visto o bar, em ver­dade um espécie de cabaré, na Praça Mauá. Desses lugares onde o porteiro pergunta se você está armado, você nega e ele manda você ir embora e voltar com um revólver. O lugar estava cheio de gente que respirava todo tipo de fu­maça. Não fosse pelo neon que anunciava as mais diversas marcas de cerveja, eu diria que tinha retornado no tempo e estava em pleno expressionismo. Artistas, putas, viados, turistas, militares, havia de tudo.

(…) É no bar que me vêm as melhores idéias para contos e romances que não escrevo nunca, pois como estou sempre de porre, no dia seguinte não lembro coisa alguma.

WOLFF, Fausto; O Nome de Deus; Ed. Bertand do Brasil 1999, pg 81/82

Wolffinianas

Eu me demitira de uma emissora de TV, pois a direção decidira fazer um programa para ganhar dinheiro à custa da miséria do povo, e eu acreditava que a televisão poderia vir a ser uma máquina para humanizar e não para tiranizar. Escrevi tanto sobre isso que acabei recebendo um convite de uma organização chamada Internationes para visitar a Alemanha e o seu sistema televisivo, na época, inteiramente estatal. Desde menino, mantenho um pé atrás em relação à Alemanha. Descendente de alemães que sou, sempre me perguntei o que faria se minha família não houvesse emi­grado para o Brasil no princípio do século XIX e eu hou­vesse nascido na Alemanha.

(…)

Em Stuttgart, meu guia, Frank Rafanowsky, levou-me à casa de Martin Heidegger, onde o filósofo me recebeu extremamente entediado. Por causa da maldita timidez que persegue todos os alcoólatras, eu bebera mais de cinco martínis e mal consegui gaguejar a minha admiração. Me pre­parara, lendo Sein undZeit (O Ser e o Tempo) sem entender nada. Sartre era bem mais fácil. Do que ele me disse, guardo a frase: “Em filosofia, não aconteceu nada de novo depois dos pré-socráticos.” Saí de sua casa modesta bastante aliviado.

 

WOLFF, Fausto; O Nome de Deus; Ed. Bertand do Brasil 1999, pg 72/73

Wolffinianas

– Ah, foi o senhor o responsável?

 

– Fui, pois descobri que as estruturas familiares es­tavam podres e não tomei uma atitude antes.

 

O delegado, que já sabia ser o responsável pelo des­moronamento do edifício um deputado-engenheiro-ladrão que misturara cuspe, urina e até mesmo cascas de ovo de galinha na preparação do cimento, limitou-se a ordenar que guardassem o Cabelinho numa cela cheia de desgraçados, a maioria pretos e bêbados. Pobres, todos, naturalmente.

 

WOLLF, Fausto; O Homem; O Nome de Deus; Ed. Bertand do Brasil 1999 pg 29

Wolffinianas

Como eu, e a maioria dos leitores, Cabelinho era um consumidor eterno que aceitava tudo — comida, be­bida, lazer — passivamente. Como todos nós, em algum ponto, sua vida transformou-se numa mercadoria e passou a senti-la como um capital a ser investido com lucro. Como todos nós, seu valor estava na sua rentabilidade e não em suas qualidades de amor, sua possibilidade de raciocinar e sua capacidade artística.

(…) Seus gostos podiam ser facilmente padronizados, influenciados e previstos; um autômato alienado que trabalhava para satisfazer suas ne­cessidades que, por sua vez, eram dirigidas pela máquina política e econômica.

(…) Pen­sou e chegou à conclusão de que em dez anos — quando se aposentasse — estaria fazendo a mesma coisa e rece­bendo o mesmo salário, senão menor.

 

(…) e até o seu banco que ele amava e que juraram não seria privatizado, o foi. Há quem diga que foi essa privatização que detonou a psicose.

 

 

FAUSTO, Wolff; O Homem; O Nome de Deus; Ed. Bertand do Brasil 1999 pg 24/25

Wolffinianas !!!

Hospedou-se no Copacabana Palace onde também estava o ministro. Fechou o negócio e foi pra piscina. Era a quinta-feira anterior ao carnaval e Brasília parecia estar toda distribuída entre piscinas, a pérgula o restaurante Bife de Ouro, a sauna e o Golden Room. Nunca tão poucos quilômetros quadrados abrigaram tantos ladrões, safados, corruptos, puxa-sacos, torturadores, cafetões e jornalistas de aluguel. O poder.

FAUSTO, Wolff; O Nome de Deus; Ed. Bertand do Brasil 1999; pg 15

Wolffinianas !!!

O poder exige muitas coisas. Para andar pelas suas cercanias, entretanto, duas qualidades são fundamentais: mediocridade e subserviência. Ribamér, além de ser medíocre e subserviente, ostentava uma ausência da qual parecia se orgulhar: total falta de caráter. Prepotente com os humildes e humílimo com os poderosos. É fácil que de posse de tais credenciais, embora de origem modesta, acabaria sendo um vencedor.

 

FAUSTO, Wolff; O Nome de Deus; Ed. Bertand do Brasil 1999; pg 12