A Realidade do Educador Musical no Rio de Janeiro: um olhar sobre as propostas da Revista Música na Educação Básica (ABEM)

EDUCAMUSICAL.ORG

Olá amigos! Desde minha época de licenciando em música na UFRJ venho refletindo sobre a relação entre os métodos e atividades ensinados ao estudantes de educação musical e sua aplicação na realidade da educação pública brasileira.

Obtive a confirmação de que pouco do que foi ensinado pode ser utilizado na prática quando, há dois anos atrás, entrei na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro como professor de música. Minha matrícula de 40 horas obrigava-me a dar 32 aulas semanais, aulas estas que poderiam ser divididas do 1º ao 9º ano do ensino fundamental (a escolha dos anos levaria em consideração a singularidade de cada escola). Como relatado, muito do que foi demonstrado na minha formação não se encaixava na dinâmica e rotina de uma escola pública. Ainda mais: encontrava (e ainda encontro) bastante dificuldade em achar artigos e livros que levem em consideração a realidade atual do ensino público.

Para exemplificar a problemática que eu e meus amigos de profissão vivenciamos (sendo cariocas ou não, já que esta realidade é encontrada em todo o Brasil), resolvi comparar a rotina de trabalho do professor de música no ensino básico do município do Rio de Janeiro com as propostas presentes na revista “Música na Educação Básica” nº 4 da ABEM (Associação Brasileira de Educação Musical).Não houve nenhum critério rígido de seleção dos números desta publicação. O quarto volume foi escolhido, pois era a obra mais recente disponível para download no site da associação (acesso no dia 12/3/2015).

Desde já, afirmo que não tenho o objetivo de julgar ou desqualificar nenhum dos pesquisadores ou a ABEM. Na maioria dos casos, são profissionais que têm muito mais anos de vida e docência que eu. Entretanto, outras interpretações devem ser analisadas, principalmente, por profissionais que estão na base do sistema educacional: os professores do ensino fundamental e público.

Agradeço a ABEM pela ótima iniciativa de criar uma revista com o objetivo de ajudar o docente na educação fundamental. Atitudes como esta são mais do que necessárias, principalmente num país como o nosso, muito desigual em todos os aspectos, principalmente na educação.

Devido ao tamanho das descrições sobre os artigos revisados, este post tomou proporções maiores do que um simples texto de blog (cerca de 20 páginas). Então, este escrito apresentará apenas a conclusão geral de todos os artigos. Caso o leitor queira se ater mais detalhadamente, poderá acessar a descrição individual presente no final do artigo.

O que mais chamou a atenção é que apesar do título da publicação ser “MÚSICA NO ENSINO BÁSICO”, praticamente não se fala da instituição de ensino básico que mais tem alunos, que mais emprega professores (de todas as áreas do ensino básico), que mais compra livros didáticos, que tem o maior orçamento educacional, que mais atende aos pobres e necessitados, que mais precisa de investimento, que mais precisa de pesquisa, que mais precisa de ajuda: A ESCOLA PÚBLICA.

É claro que não existe “a escola pública”, porém algumas características são marcantes quando tratamos de ensino estatal no Brasil: falta de infraestrutura, sobrecarga de trabalho para os docentes, pouco apoio de responsáveis dos educandos, grande número de estudantes com dificuldades de aprendizado, entre outras.

Nas mais de 100 páginas da revista, praticamente não se encontram palavras como escola pública, ensino público, escola municipal, escola estadual ou algo semelhante. Apenas na página 90, encontrei a seguinte citação: “Os dois primeiros desses requisitos são suficientes para que o jogos sejam acessíveis em computadores de instituições públicas de ensino […]”. Mesmo com este dado, continuo advogando pela falta de objetividade com o ensino público. Afinal de contas, esta citação não é o tema principal do artigo, e sim uma característica secundária, tanto é que ela só aparece em um momento do artigo. Além do mais, na análise sobre este estudo, defendo que ele se adapta mais à escola particular da classe média do que à maioria das escolas públicas brasileiras.

Dos sete artigos contidos na revista, quatro foram testados praticamente. Já nos outros três, não são apresentadas informações sobre a aplicação das propostas pedagógicas. Os locais das práticas educacionais citadas foram: um laboratório de musicalização infantil de uma universidade federal, uma escola ou oficina de música (o artigo não descreve com exatidão), uma escola particular com “tradição em bandas rítmicas” e uma escola (não sabemos se é pública ou privada. Na verdade, só obtive a informação da aplicação desta atividade nos vídeos disponíveis no artigo). Nenhuma escola pública de ensino básico é citada como campo experimental das atividades apresentadas nas propostas. Fato interessante, já que diferente do título, a música na educação básica praticamente não aparece quando tratamos da aplicação das propostas apresentadas.

Só dois artigos apresentam fotografias de alunos. Em geral, são pequenos grupos com com no máximo 10 pessoas desempenhando atividades práticas e musicais. As imagens transparecem que estes estudantes pertencem à classe média: generalizações a parte, infelizmente em um país tão desigual como o Brasil, a predominância de um tom de pele, pode demonstrar a qual classe social estas pessoas pertencem. Apenas um negro é visto em todas as imagens. Situação esta, antagônica à maioria das salas do ensino público brasileiro.

Todos os ambientes de ensino apresentados nas fotografias revelam uma boa estrutura e lembram pouco uma sala de aula do ensino público nacional. Alguns pedidos beiram a utopia quando comparados com a realidade do ensino público: aulas em conjunto com os responsáveis, encontrar instrumentistas de sopro e arco para se apresentar na escola, encontrar musicista entre os familiares dos educandos para a apresentação em sala de aula, manter contato com os pais via e-mail, instrumental Orff, metalofones cromáticos, sinos, pandeiros e (“infelizmente”) flauta doce.

A maioria das publicações indicadas para o aprofundamento pedagógico não são gratuitas. Levando em consideração os baixos salários de um professor, comprar estas obras, as vezes, não é uma tarefa fácil. Talvez, não seria melhor criar um programa dentro das faculdades públicas de música para o desenvolvimento deste material? Atualmente, muitas faculdades disponibilizam uma bibliografia totalmente gratuita para o concurso de ingresso na pós-graduação. O mesmo não poderia ser pensado para profissionais que, infelizmente, ganham pouco?

Em todos os artigos, nenhum problema relativo à aplicabilidade da proposta foi relatado. Em apenas um dos textos, temos a advertência de que uma atividade pode ser de difícil execução em salas com grande números de alunos. Contudo, esta é uma das características principais da maioria das salas de aula no ensino público. Não relatar esta problemática, pode causar a impressão que estas atividades se encaixam quase que “perfeitamente” no ensino regular. Precaver o educador de problemas gerados na prática poderia ajudar na prevenção de erros recorrentes destas atividades.

Dos sete artigos apresentados: um trata da pré-escola, três são recomendados para o ensino primário, em dois não há uma recomendação específica (porém o editorial indica que em um dos textos, o autor tinha experiência em turmas do segundo segmento do ensino fundamental) e há outro no qual recomenda-se que a proposta seja desenvolvida com adolescentes. Entretanto, de que adolescentes se tratam? Estudantes de 12 anos que iniciam o ensino ginasial, ou jovens de 17 anos que estão no 3º nível do ensino médio. Existem diferenças enormes entre estas duas etapas educacionais.

Não há na revista um artigo que trate especificamente do ensino musical no nível médio escolar. Nível este que sofre com a falta de propostas mais elaboradas considerando as idades com suas características específicas. Os textos apresentam ótimas ideias relacionadas ao assunto musical abordado. No entanto, a maioria das propostas não levam em consideração a rotina e estrutura de uma escola de ensino regular, principalmente dos colégios públicos. O mesmo ocorre com as características laborais de um docente brasileiro: um profissional desvalorizado tanto financeiramente quanto socialmente, que é obrigado a trabalhar em várias escolas e lecionar para centenas de alunos. Nestas condições, muitos professores nem lembram da metade dos nomes de seus educandos. Meus companheiros de trabalho, desdobram-se em duas matrículas, além de aulas extras. Muitas vezes, chegam a dar mais de 10 aulas num único dia, além de trabalharem com dezenas de turmas.

Em alguns momentos, o leitor pode achar que advogo por “macetes” e propostas prontas. Entretanto, mesmo que estas aulas já estivessem finalizadas, o docente teria que adaptá-las, e muito, para a realidade singular de cada escola. Agora, imagine apenas ideias desconectadas de uma realidade docente? A maioria dos projetos apresenta ótimas propostas para a escola da classe média brasileira: salas estruturadas e poucos alunos, geralmente os mais condicionados do sistema econômico vigente. Já o mesmo não pode ser dito quando comparamos a aplicabilidade destas atividades na rede pública da maioria dos municípios e estados brasileiros. Como relatado durante a análise dos artigos, em muitos casos o docente tem apenas uma caneta “pilot” ou giz e um quadro disponível para as aulas. Assim como vários alunos dentro de uma sala de aula: 40, 50 até beirando os 60 alunos. Como aplicar as ideias apresentadas numa realidade tão precária?

A maioria das ideias e críticas apresentadas aqui estão resumidas. Ampliar estas argumentações demandaria um aumento enorme deste texto e comprometeria a dinâmica de leitura da postagem para o blog.

Como dito na apresentação desta análise, não pretendo menosprezar o trabalho de nenhum dos autores. Na maioria dos casos, são profissionais altamente especializados e com mais anos de magistério que eu. Em nenhum momento, citei o nome dos autores e só utilizo o título dos artigos para não criar uma confusão nas análises individuais. Convido estes professores para um diálogo e peço ajuda para desenvolver estes trabalhos nas mais de 25 turmas que tenho como professor.

Aproveito esta oportunidade e lanço mais uma sugestão a todos estes profissionais: quando estiverem em terras fluminenses, peço que visitem a escola onde trabalho, para talvez apresentar uma atividade para as centenas de educandos que tenho. Creio que a secretaria municipal de educação do Rio de Janeiro não irá se opor. Pelo contrário, toda ajuda à educação musical é bem-vinda.

Referências
ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:
http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 (acessado em 22/07/2015)

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Entrevista ao portal Educamusical.org

Olá amigos.

Abaixo segue a entrevista concedida ao projeto Semanário no site Educamusical. Uma ótima entrevista comandada pelo professor Marcelo Borba (UFPel).

Levantamos questões referentes à educação musical dentro da escola pública e a relação entre teoria e prática na formação do educador que está no ensino básico público. Espero que este relato ajude a outros docentes. Perguntas são sempre bem-vindas !!!

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Semanário – Mateus Nikel

É bastante positivo a variedade de blogs, sites e portais que tem surgido na área da música e da educação musical nos últimos anos. Da mesma forma que as comunidades e os grupos de discussão em mídias sociais, os blogs representam um espaço articulado para diálogos e são importantes por valorizarem o caráter autoral em suas publicações.

Em vários momentos tive o prazer de contar com a colaboração dos colegas (blogueiros ou não) da educação musical nas postagens do “semanário” aqui no site. A cada semana tentamos viabilizar novos relatos, recomendar materiais didáticos disponíveis pela rede e divulgar trabalhos que acreditamos poder contribuir para a prática educativa dos professores de música.

Ao privilegiar a interação e a narrativa dos educadores convidados, conseguimos conhecer um pouco mais sobre os diferentes contextos e as micro-realidades da educação musical na atualidade. E sabemos como tem sido importante tais narrativas.

Seguimos com o convidado dessa semana:
Algum tempo atrás, em pesquisas pela web, encontrei o “Blog do Nikel”. O autor do blog é o educador Mateus Nikel, o qual disponibiliza na sua página diversas sugestões de atividades para educação musical e também textos autorais sobre temas variados. Os escritos de Mateus são relevantes, em minha opinião, principalmente porque partem de suas experiências cotidianas como professor de música em escolas públicas do Rio de Janeiro. As atividades disponibilizadas no Blog do Nikel trazem ainda recursos de áudios e imagens que ajudam muito no entendimento e na reutilização das propostas publicadas.

Não tive dúvidas em lançar o convite para que Mateus pudesse colaborar com o projeto “semanário”. Felizmente ele aceitou participar e publico então a apresentação enviada pelo educador.

Olá, sou Mateus Nikel, tenho 28 anos e trabalho como professor de educação musical na prefeitura do Rio de Janeiro, mais especificamente na Escola Municipal Monteiro Lobato (Guaratiba/Zona Oeste carioca). Sou licenciado em educação musical pela Escola de Música da UFRJ e, desde o ano de 2013, leciono em escolas públicas de ensino básico.

Já ministrei aulas para turmas do primeiro e segundo segmentos do ensino fundamental, assim como turmas de realfabeização (Projetos Acelera e Realfa) e EJA (PEJA). Atualmente, atuo do primeiro ao sexto ano do ensino fundamental.” (Mateus Nikel)

“Para se ter ideia desta problemática, até fazer uma simples roda é uma ação quase utópica (e praticamente todo método de musicalização sugere uma). As salas de aula são planejadas para a disposição tradicional das mesas e cadeiras, dificultando assim outra forma de organização. É óbvio que o professor pode empilhar as carteiras. Porém ele só tem um tempo de aula para empilhar as mesas e cadeiras, fazer as atividades na roda, arrumar a sala com antes e fazer a chamada. Soma-se a isso os baixos salário que obrigam o profissional da educação a dar 10 ou mais aulas por dia. Qual docente tem pique para arrumar 10 salas num dia?”

 

Marcelo Borba: Olá Mateus, como surgiu a ideia de fazer publicações relacionadas a educação musical via blog? Qual seus objetivos com essa iniciativa?

Mateus Nikel: Na verdade não foi uma ideia, mas sim uma necessidade. Para explicar isso melhor tenho que contar sobre a minhas história com a educação…

Quando entrei na rede pública, pude comprovar na prática as críticas que fazia à minha formação: muito pouco do que aprendi no curso de licenciatura em música pode ser aplicado na realidade do ensino público brasileiro. Em outras palavras, muita teoria e pouca vivência prática.

Falava-se e ainda fala-se muito em paisagem sonora, percussão corporal, parlendas e outras poucas atividades. Entretanto, não se situava estas atividades no contexto público escolar, na quantidade de aulas e no planejamento curricular da disciplina. Quando criávamos algo, seguíamos parâmetros das escolas federais (CAPs, IFs e Colégio Pedro II) que estão bem distantes do ensino de forma geral. Eu mesmo, fui obrigado a estagiar no CAP/UFRJ: uma instituição com ótimo padrão de ensino, mas que atende praticamente à classe média carioca, ficando assim bem distante da realidade da docência pública de uma forma geral.

E foi assim que me formei e encarei uma realidade nada animadora. Minha primeira escola foi dentro da favela de Antares (uma das mais pobres e violentas do Rio de Janeiro). Crianças agressivas, desamparadas e convivendo com o tráfico de drogas (o baile funk era em frente a escola e convivíamos com o tráfico diariamente). Não havia instrumentos disponíveis, só contava com uma caneta “pilot” e o quadro. Já tinha o blog nesta época que servia como banco de artigos e outras publicações. Devido à violência da região (que era refletida no comportamento discente), acabei me decepcionando com o magistério e comecei a estudar para concursos em outras ocupações. Foi aí que comecei a utilizar o blog de forma mais autoral: escrevia resumos e fichamentos sobre as bibliografias estudadas e divulgava para quem estivesse precisando.

A situação na favela ia de mal a pior: várias vezes tive que me abaixar dos tiroteios e passar pela boca de fumo no caminho para o trabalho. Não aguentei a situação e com menos de um ano de magistério tirei uma licença médica, estava desistindo de ser professor (desistência motivada pela violência do entorno e o descontentamento com as poucas ferramentas pedagógicas que eu tinha para as aula de educação musical).

 

“a maioria das propostas pedagógicas que tenho contato, trata de pequenos grupos com no máximo 15 crianças. Geralmente, estas atividades são inspiradas em metodologia ativas europeias. Em qual escola do ensino regular o professor tem esse número de alunos?”

 

Após o ocorrido fui transferido para outras escolas e em uma, bem mais tranquila, percebi que poderia desenvolver um ótimo trabalho. Entretanto, nunca estudei uma metodologia que se adaptasse ao ensino público brasileiro: falta de material pedagógico-musical, turmas com até 40 alunos,desmotivação geral e salas que não se adaptavam à experiência corporal.

Pedi ajuda a outros educadores nas mídias sociais. Talvez um livro ou alguns planos de aula pudessem me indicar um norte a seguir. Porém, as repostas eram: “monta um coral”, “faz O PASSO”, “usa Orff” ou “monta uma rádio”. Devo confessar que não entendia: como usar estas ferramentas sem a menor infraestrutura? Como ensinar O PASSO para dezenas de crianças e em salas lotadas de carteiras? Como montar um coral com estudantes que se negavam a cantar? Ninguém soube pormenorizar isso, pelo contrário, alguns alegaram que eu estava “menosprezando os alunos”.

Desta problemática resolvi criar algumas aulas simples, levando em consideração a realidade que eu e meus amigos passavam e que pudessem ser aplicadas em escolas públicas.

Divulgo estas atividades musicais em meu blog para ajudar pessoas que estão na mesma situação que a minha, além de trocar ideias com outros professores. Foram as necessidades que me levaram a fazer resumos e depois criar aulas. Junto desta necessidade, pensei em socializar aquilo que pode ajudar meus companheiros de profissão.

Marcelo Borba: A partir da sua experiência com o ensino de música (e as realidades dos espaços em que você trabalha), quais principais desafios a serem enfrentados?

Mateus Nikel: Feliz ou infelizmente, o que não faltam são desafios! Posso elencar os mais recorrentes: salas que comportam até 40 alunos, falta de instrumentos até para o professor, curta duração da aula e falta de local ideal para a disciplina.

Como relatado anteriormente, a maioria das propostas pedagógicas que tenho contato, trata de pequenos grupos com no máximo 15 crianças. Geralmente, estas atividades são inspiradas em metodologia ativas europeias. Em qual escola do ensino regular o professor tem esse número de alunos? Encontramos crianças desmotivadas, dependentes de ajudas sociais e com pouco apoio familiar. Já estamos no segundo bimestre e até agora estou correndo atrás de “cadernos” para alguns educandos. Se um caderno que custa 2 reais já dá este trabalho, imagine uma escaleta ou flauta?

 

“Falava-se e ainda fala-se muito em paisagem sonora, percussão corporal, parlendas e outras poucas atividades. Entretanto, não se situava estas atividades no contexto público escolar, na quantidade de aulas e no planejamento curricular da disciplina.”

 

Muitas escolas não tem um instrumento harmônico, daí o docente é obrigado a levar um . E se não houver como? Você faz um pedido “insistente” à direção ou “se vira” (na verdade, nós sempre nos viramos). Não havia instrumentos na primeira escola em que trabalhei e não dava para levar o meu. Eu não tinha carro e pegava ônibus e trem lotados. Atualmente estou trabalhando com copos. Comprei 50 e ainda estou testando esta abordagem de ensino. Como relatado acima, não encontrei métodos aplicados no ensino regular e nem fui formado para usar esta ferramenta.

A carga horária do primeiro segmento do ensino fundamental é de apenas um tempo por semana. Pouco tempo para fixar conteúdos e até para aplicar uma atividade. Muitas vezes, o professor demora várias aulas para finalizar uma ideia simples que é absorvida rapidamente em um grupo pequeno de estudantes. Passo sempre por esta dificuldade. Uma sala de música seria ótimo, entretanto, são raras as escolas que disponibilizam este espaço. Para se ter ideia desta problemática, até fazer uma simples roda é uma ação quase utópica (e praticamente todo método de musicalização sugere uma). As salas de aula são planejadas para a disposição tradicional das mesas e cadeiras, dificultando assim outra forma de organização. É óbvio que o professor pode empilhar as carteiras. Porém ele só tem um tempo de aula para empilhar as mesas e cadeiras, fazer as atividades na roda, arrumar a sala com antes e fazer a chamada. Soma-se a isso os baixos salário que obrigam o profissional da educação a dar 10 ou mais aulas por dia. Qual docente tem pique para arrumar 10 salas num dia?

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Marcelo Borba: E esse momento contemporâneo que vivemos, com pessoas hiper-conectadas pelas mídias sociais, na sua opinião, são mudanças significativas para a educação musical na escola? Como você entende isso?

Mateus Nikel: Esta pergunta é bastante ampla: tanto pode abarcar a tecnologia dentro da sala de aula e as ferramentas digitais usadas pelos alunos, as trocas de conhecimento nas comunidades virtuais ou até mesmo de outros assuntos que não me vêm à cabeça neste momento.

Inicialmente, creio que comunidades virtuais sirvam, entre outras coisas, para uma maior divulgação das ideias de outros educadores musicais. Nos conhecemos virtualmente certo? Caso não houvesse esta ferramenta, eu teria que editar um livro ou escrever um artigo. Opções difíceis de serem concretizadas.

Já quando tratamos das tecnologias em sala de aula, devemos ter muito cuidado. Todos nós sabemos que a infraestrutura das escolas e das famílias variam muito. Durante muito tempo ensinei as crianças como montar slides e fazer um apresentação em Power Point (ou no Impress, já que sou um defensor do Linux). Entretanto, não consigo fazer isso na escola em que trabalho atualmente. Mesmo com o barateamento do acesso à informática, muitas crianças ainda não têm computador. A acesso à internet ainda é feito por lan-houses.

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