Ziegleanas

E aqueles que, no Sul, são chamados de “abutres do FMI” chegaram mesmo a considerar que os argumentos empregados pelos partidários do direito à alimentação derivam da pura ideologia, da cegueira doutrinária ou, pior, da dogmática comunista.

Há um desenho de Plantu¹ em que se vê um menino africano em farrapos, de pé atrás de um gordo homem branco que usa gravata e óculos e está sentado a uma mesa que exibe uma opípara refeição. O menino diz: “Tenho fome”. O branco gordo volta-se para ele e replica: “Não me venha falar de política!”.

hambre

1- Jean Plantureux (Plantu), nascido em Paris, em 1951, é um dos mais conhecidos desenhistas franceses contemporâneos – inclusive no Brasil, onde expõe desde os anos 1980. Caricaturista do Le Monde, notabilizou-se pelo traço singular a serviço da arguta crítica social e política (N.T.).

(ZIEGLER 2013, pg 168)

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

Ziegleanas

Imediatamente após o fim do Estado Novo e com o restabelecimento de um mínimo de liberdades públicas, Josué de Castro lançou-se numa ação política contra as capitanias e as sociedades multinacionais estrangeiras que controlavam a maior parte da produção agrícola do Brasil. Essa produção era em grande escala destinada – neste país da fome – à exportação, que experimentou então, em face de uma Europa destruída, um crescimento formidável. Depois de 1945, o Brasil, onde tantos seres passavam fome, foi um dos maiores exportadores de alimentos do mundo.

(ZIEGLER 2013, pg 118)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

 

Josué de Castro

Zieglianas

A este país [Níger] de fomes recorrentes, onde a seca expõe periodicamente homens e animais à subalimentação e à má nutrição, o FMI impôs a liquidação dos estoques de reservas controladas pelo Estado – que se elevavam a 40.000 toneladas de cereais. O Estado conservava em seus depósitos montanhas de sacos de milho, cevada e trigo precisamente para socorrer, nas situações de emergência (secas, inundações ou ataques de gafanhotos), as populações ,mais vulneráveis. Mas o departamento africano do FMI, sediado em Washington, considera que tais reservas distorcem o livre funcionamento do mercado. Em resumo: que o comércio de cereais não pode ser objeto de intervenção estatal, uma vez que esta viola o sacrossanto dogma do livre-comércio.

(…)

O Níger é uma neocolônia francesa. O país é o segundo mais pobre do planeta, conforme o Indicador do Desenvolvimento Humano do PNUD. Imensas riquezas estão adormecidas em seu subsolo. Depois do Canadá, o Níger é o maior produtor de urânio do mundo. Mas, atenção: a Areva, sociedade controlada pelo Estado frânces, exerce o monopólio da exploração das minas de Arlit. Os tributos pagos pela Areva ao governo de Niamey são ridiculamente baixos.

(ZIEGLER 2013, pg 64)

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013

 

Eurocentrismos

Grande parte do acervo dos principais museus do mundo foi obtido como pilhagem de guerra. As riquezas da arte egípcia que se encontram no Museus do Louvre, por exemplo, foram trazidas para a França por Napoleão quando o imperador dos franceses conquistou o Egito. A coleção de arte grega do Museu Britânico de Londres também foi constituída de forma semelhante. Enfim, uma série de museus da Europa ou dos Estados Unidos abriga obras de arte antigas que foram adquiridas nem sempre de forma correta.

PROENÇA, Graça. História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2014. p. 377

Zieglianas

Os nigerianos, porém, estão esmagados por sua dívida externa. A lei de ferro do Fundo Monetário Internacional (FMI), pois, asfixia-os. Ao londo dos dez últimos anos, o organismo arrasou o país com vários e sucessivos programas de ajuste estrutural.

Em especial, o FMI determinou a liquidação do Departamento Nacional de Veterinária, abrindo o mercado da farmacopeia animal às sociedades privadas multinacionais. Assim, o Estado não exerce mas nenhum controle efetivo sobre as datas de validade das vacinas e dos medicamentos. (Niamey se encontra a mil quilômetros da costa atlântica. Muitos produtos da farmacopeia animal já chegam vencidos ao mercado da capital. Os comerciantes locais se limitam a modificar manualmente, nas etiquetas, as datas-limite para o consumo.)

Atualmente, os criadores nigerianos devem comprar no mercado livre de Niamey as antiparasitoses, vacinas e vitaminas para o seu gado a altos preços impostos pelas sociedades multinacionais do ocidente.

(ZIEGLER 2013, pg 63)

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013

Zieglianas

Os velhos marxistas alemães da Escola de Frankfurt – Max Horkheimner, Ernest Bloch, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamim – refletiram muito sobre a percepção mediatizada da realidade pelo indivíduo, sobre os processos em virtude dos quais a consciência subjetiva está alienada pela doxa de um capitalismo cada vez mais agressivo e autoritário. Procuraram analisar os efeitos da ideologia capitalista dominante, o modo como ela forma o homem, desde a sua infância, para aceitar a submissão da sua vida a fins que lhe são alheios, privando-os das possibilidades da autonomia pessoal pela qual se afirma a liberdade.

(…) Eles assinalaram que a consciência é modelada pela esperança na História, pelo espírito da Utopia, pela fé ativa na liberdade.

(ZIEGLER 2013, pg 27)

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013

Como pensa a elite brasileira, por Antonio Lassance

Mafalda esconder pobres

CARTA MAIOR

 

A elite brasileira comprou o livro de Piketty, O Capital no Século 21. Não gostou. Achou que era sobre dinheiro, mas o principal assunto é a desigualdade.

A elite brasileira é engraçada. Gosta de ser elite, de mostrar que é elite, de viver como elite, mas detesta ser chamada de elite, principalmente quando associada a alguma mazela social. Afinal, mazela social, para a elite, é coisa de pobre.

A elite gosta de criticar e xingar tudo e todos. Chama isso de liberdade de expressão. Mas não gosta de ser criticada. Aí vira perseguição.

Quando a elite esculhamba o país, é porque ela é moderna e quer o melhor para todos nós. Quando alguém esculhamba a elite, é porque quer nos transformar em uma Cuba, ou numa Venezuela, dois países que a elite conhece muito bem, embora não saiba exatamente onde ficam.

Ideia de elite é chamada de opinião. Ideia contra a elite é chamada de ideologia.

A elite usa roupas, carros e relógios caros. Tem jatinho e helicóptero. Tem aeroporto particular, às vezes, pago com dinheiro público – para economizar um pouquinho, pois a vida não anda fácil para ninguém.

A elite gosta de mostrar que tem classe e que os outros são sem classe.

Mas, quando alguém reclama da elite por ser esnobe, preconceituosa e excludente, é acusado de incitar a luta de classes.

Elite mora em bairro chique, limpinho e cheiroso, mas gosta de acusar os outros de quererem dividir o país entre ricos e pobres.

O negócio da elite não é dividir, é multiplicar.

A elite é magnânima. Até dá aulas de como ter classe. Diz que, para ser da elite, tem que pensar como elite.

Tem gente que acredita. Não sabe que o principal atributo da elite é o dinheiro. O resto é detalhe.

A elite reclama dos impostos, mesmo dos que ela não paga. Seu jatinho, seu helicóptero, seu iate e seu jet ski não pagam IPVA, mesmo sendo veículos automotores.

Mas a elite, em homenagem aos mais pobres e à classe média, que pagam muito mais imposto do que ela, mantém um grande painel luminoso, o impostômetro, em várias cidades do país.

A elite diz que é contra a corrupção, mas é ela quem financia a campanha do corrupto.

Quando dá problema, finge que não tem nada a ver com  a coisa e reclama que “ninguém” vai para a cadeia. “Ninguém” é o apelido que a elite usa para designar o pessoal que lota as cadeias.

A elite não gosta do Bolsa Família, pois não é feita pela Louis Vuitton.

A elite diz que conceder benefícios aos mais pobres não é direito, é esmola, uma coisa que deixa as pessoas preguiçosas, vagabundas.

Como num passe de mágica, quando a elite recebe recursos governamentais ou isenções fiscais, a esmola se transforma em incentivo produtivo para o Brasil crescer.

A elite gosta de levar vantagem em tudo. Chama isso de visão. Quando não é da elite, levar vantagem é Lei de Gérson ou jeitinho.

Pagar salário de servidor público e os custos da escola e do hospital é gasto público. Pagar muito mais em juros altos ao sistema financeiro é “responsabilidade fiscal”.

Quando um governo mexe no cálculo do dinheiro que é reservado a pagar juros, é acusado de ser leniente com as contas públicas e de fazer “contabilidade criativa”.

Quando o governo da elite, décadas atrás, decidiu fazer contabilidade criativa, gastando menos com educação e saúde do que a Constituição determinava, deram a isso o pomposo nome de “Desvinculação das Receitas da União” –  inventaram até uma sigla (DRU), para ficar mais nebuloso e mais chique.

A elite bebe água mineral Perrier. Os sem classe se viram bebendo água do volume morto do Cantareira.

A elite gosta de passear e do direito de ir e vir, mas acha que rolezinho no seu shopping particular é problema grave de segurança pública.

A elite comprou o livro de um francês, um tal Piketty, intitulado “O Capital no Século 21″. Não gostou. Achou que era só sobre dinheiro, até descobrir que o principal assunto era a desigualdade.

A pior parte do livro é aquela que mostra que as 85 pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente à da metade da população mundial. Ou seja, 85 bacanas têm o dinheiro que 3,5 bilhões de pessoas precisariam desembolsar para conseguir juntar.

A elite não gostou da brincadeira de que essas 85 pessoas mais ricas do mundo caberiam em um daqueles ônibus londrinos de dois andares.

Discordou peremptoriamente e por uma razão muito simples: elite não anda de ônibus, nem se for no andar de cima.