TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS NA PRÁTICA ESCOLAR, segundo José Carlos Libâneo

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A prática escolar tem atrás de si condicionantes sociopolíticos que configuram diferentes concepções de homem e de sociedade e, consequentemente, diferentes pressupostos sobre o papel da escola, aprendizagem, relações professor-aluno, técnicas pedagógicas etc.

A maioria dos profissionais da educação baseia sua prática docente em prescrições pedagógicas que viraram senso comum. Mesmo que durante sua formação estes educadores tenham contato com o estudo de práticas e correntes epistemológicas de ensino, devemos salientar que quase nunca estas correntes tem correspondência com as situações concretas de sala de aula. Sendo assim, o quadro de referência para ajudar uma prática pedagógica fica bastante comprometido.

Nota-se, também, um fato bastante contraditório: os professores têm na cabeça o movimento e os princípios da escola nova, no entanto, o professor se vê pressionado pela pedagogia oficial que prega a racionalidade e a produtividade do sistema e do seu trabalho, isto é, ênfase nos meios (tecnicismo). Aí esta o quadro contraditório em que se encontra o professor: sua cabeça é escolanovista, a realidade é tradicional.

Utilizando vários critérios as tendências pedagógicas foram classificadas por Libâneo (1990) entre correntes liberais e progressistas.

PEDAGOGIA LIBERAL

O termo liberal não tem sentido de avançado. Ele aparece como justificativa para a manutenção da ordem capitalista vigente. Esta pedagogia defende a predominância da liberdade e dos interesses individuais na sociedade, assim como, estabelece uma organização social baseada na propriedade privada.

A pedagogia liberal sustenta a ideia de que a escola tem por função preparar o indivíduo para o desempenho de papéis sociais, de acordo com as aptidões individuais. Para isso, os indivíduos precisam aprender a adaptar-se aos vários valores e às normas vigentes na sociedade de classes, através de desenvolvimento da cultura individual. A ênfase no aspecto cultural esconde a realidade das diferenças de classes, pois, embora difundida a ideia de igualdade de oportunidades, não leva em conta a desigualdade de condições.

(LIBÂNEO, José Carlos. 1990 pg 22)

Na tendência tradicional, a pedagogia liberal se caracteriza por acentuar o ensino humanístico, de cultura geral, no qual o aluno é educado para atingir, pelo próprio esforço, sua plena realização como pessoa.

A tendência liberal renovada acentua novamente o sentido da cultura como desenvolvimento das aptidões individuais. Porém, propõe um ensino que valorize a autoeducação (o aluno como sujeito do conhecimento). Esta tendência de apresenta de duas formas: a renovada progressivista (escolanovista) ou pragmatista, principalmente difundida pelos pioneiros da educação nova; a renovada não-diretiva, orientada para os objetivos de auto-realização e para as relações interpessoais, na formulação do psicólogo estadunidense Carl Rogers.

A tendência liberal tecnicista subordina a educação à sociedade, tendo como função a produção de “recursos humanos” (mão-de-obra). O mercado e a indústria estabelecem as metas econômicas e a educação treina nos alunos os comportamentos de ajustamento a essa metas.

Tendência liberal tradicional

Embora a pedagogia tradicional (introduzida e difundida no Brasil durante 4 séculos) abarque uma gama enorme de estudiosos da educação, os jesuítas acabaram se tornando o símbolo deste tendência. “Às estrelas por caminhos difíceis” A frase em latim no quadro do padre jesuíta José de Anchieta, de autoria do pintor Oscar Pereira da Silva (1865-1939).

Embora a pedagogia tradicional (introduzida e difundida no Brasil durante 4 séculos) abarque uma gama enorme de estudiosos da educação, os jesuítas acabaram se tornando o símbolo deste tendência. “Às estrelas por caminhos difíceis” A frase em latim no quadro do padre jesuíta José de Anchieta, de autoria do pintor Oscar Pereira da Silva (1865-1939).

Consiste na preparação intelectual e moral dos alunos para assumir uma posição na sociedade. O compromisso da escola é com a cultura, fatores de ordem social pertencem exclusivamente à sociedade. O caminho educacional dos alunos é o mesmo, desde que se esforcem. Assim, os menos capacitados devem lutar para chegar ao nível dos melhores, caso não consigam, devem se contentar com uma escolarização inferior.

Valores acumulados ao longo da historia pelas gerações adultas são a base do conteúdo programático. Devido a isto, a educação tradicional é tida como intelectualista e, às vezes, como enciclopédica.

Os métodos de ensino são expositivos com ênfase nos exercícios, na repetição de conceitos ou fórmulas de memorização, tendo como objetivo disciplinar a mente e formar hábitos.

Os pressupostos de aprendizagem se baseiam na ideia de que o ensino consiste em repassar os conhecimentos para o espirito da criança, assim como, a capacidade de assimilação da criança é idêntica à do adulto (sendo apenas menos desenvolvida). Os programas devem ser dados em um progressão lógica, estabelecida pelo adulto, sem levar em conta as características próprias de cada idade.

A avaliação se dá por verificações de curto prazo (interrogatórios orais, exercícios de casa) e de prazo mais longo (provas escritas e trabalhos de casa).

Tendência renovada progressivista (escolanovista)

A necessidade da escola é adequar as necessidades individuais ao meio social e, para isso, ela deve se organizar de forma a retratar, o quanto possível, a vida. Tais integração se dá por meio de experiências que devem satisfazer ao mesmo tempo, os interesses do aluno e as exigências sociais.

A pedagoga escolanovista Maria Montessori utliliza a técnica cognitiva em um um jogo. FONTE: http://www.mcsri.org/mariamontessori/

A pedagoga escolanovista Maria Montessori utliliza a técnica cognitiva em um um jogo.
FONTE: http://www.mcsri.org/mariamontessori/

Nesta concepção, dá-se muito mais valor aos processos mentais e habilidades cognitivas do que a conteúdos organizados racionalmente. Trata-se de “aprender a aprender”, ou seja, é mais importante o processo de aquisição do saber do que o saber propriamente dito. A ideia de “aprender fazendo” está sempre presente, valoriza-se as tentativas experimentais, a pesquisa, a descoberta, o estudo do meio natural e social, o método de solução de problemas.

Diferente da abordagem tradicional, aqui não há um local privilegiado para o professor, antes seu papel é auxiliar o desenvolvimento livre e espontâneo da criança. Pertencem, também, à tendência progressivista muitas das escolas denominadas “experimentais” e as escolas “comunitárias”.

Tendência liberal renovada não-diretiva

Acentua-se nesta tendência o papel da escola na formação de atitudes, razão pela qual deve estar mais preocupada com os problemas psicológicos do que como pedagógicos. Os adeptos desta metodologia alegam que o ensino é uma atividade bastante valorizada; para eles os procedimentos didáticos, a competência na matéria, as aulas, os livros, tudo tem muita pouca importância, face ao proposito de favorecer à pessoa, o que implica estar bem consigo próprio e com seus semelhantes.

A pedagogia não-diretiva propõe uma educação centrada no aluno, visando formar sua personalidade através da vivencia de experiências significativas que lhe permitam desenvolver características inerentes à sua natureza. No quesito avaliação, o teste formal acaba perdendo seu sentido, sendo substituído pela autoavaliação.

 

Tendência Liberal tecnicista

Tal sistema é regido por leis naturais (mesma regularidade encontrada nos fenômenos da natureza), cientificamente descobertas; basta aplicá-las. As descobertas educacionais devem ser restritas aos técnicos “especialistas”. A escola atua para o aperfeiçoamento da ordem vigente, neste caso o sistema capitalista, articulando-se com o sistema produtivo. Para isso se utiliza da ciência comportamentalista ou beharviorismo O objetivo principal desta didática é a formação de mão-de-obra “competente” para o mercado de trabalho, transmitindo informações precisas, objetivas e rápidas.

Os conteúdos de ensino tratam de princípios científicos, leis, etc., estabelecidos e ordenados em uma sequência lógica e psicológica por especialistas. As relações entre docente e discente são bem estruturadas e objetivas, com papeis bem definidos: o professor administra as condições de transmissão da matéria, conforme um sistema instrucional e “eficiente”. O professor é apenas um elo de ligação entre a verdade cientifica e o aluno, cabendo-lhe empregar o sistema instrucional previsto (pg 30).

Como no fiilme Tempos Modernos (Modern Times). Os alunos, na concepção tecnicista, são classificados como trabalhadores de uma empresa. FONTE: http://lifewithoutbuildings.net/2009/09/subverting-the-spectacle-of-modern-times-charlie-chaplin-and-the-situationists.html?lbisphpreq=1

Como no fiilme Tempos Modernos (Modern Times). Os alunos, na concepção tecnicista, são classificados como trabalhadores de uma empresa. FONTE: http://lifewithoutbuildings.net/2009/09/subverting-the-spectacle-of-modern-times-charlie-chaplin-and-the-situationists.html?lbisphpreq=1

O ensino é um processo de condicionamentos através do uso de reforços das respostas que se quer obter. Faz-se da educação uma experimentação da psicologia, isto é, cria-se um estudo cientifico do comportamento, com o intuito de descobrir as leis naturais que presidem as reações físicas do organismo que aprende, a fim de aumentar o controle das variáveis que o afetam.

PEDAGOGIA PROGRESSISTA

O termo progressista é usado para caracterizar correntes educacionais que, partindo de uma análise crítica da sociedade, defendem finalidades sociopolíticas da educação. Libâneo (1990) defende que a pedagogia progressivista não tem como institucionalizar-se numa sociedade capitalista; daí ela ser um instrumento de luta dos professores ao lado de outras práticas sociais (pg32).

Três pedagogias despontam como críticas: a libertadora, mais conhecida como pedagogia de Paulo Freire; a libertária, que reúne os defensores da autogestão pedagógica; a crítico-social dos conteúdos que, diferentemente das outras, acentua a primazia dos conteúdos no confronto com as realidades sociais.

As versões libertadora e libertaria têm em comum o anti-autoritarismo , a valorização da vivência do educando, assim como, a autogestão. Sendo assim, esta prática somente faz sentido junto ao povo, razão pela qual preferem as modalidades de ensino “não-formal”.

A tendência crítico-social dos conteúdos entende a escola com mediação entre o individual e o social, exercendo ali a articulação entre a transmissão dos conteúdos e a assimilação ativa por parte de um aluno concreto.

Tendência progressista libertadora

Para esta corrente, a educação é uma atividade onde professores e alunos, mediatizados pela realidade atingem um nível de consciência desta mesma realidade, a fim de nela atuarem num sentido de transformação social. Tanto a pedagogia tradicional, quanto a renovada (escolanovista) são domesticadoras, pois em nada cooperam para revelar a opressão das classes populares. A educação freireana, pelo contrário, desperta o lado crítico voltado para os problemas sociais vigentes na sociedade.

Temas geradores são extraídos e utilizados de parâmetros de ensino. O importante não é a transmissão de conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma de relação com a experiência vivida (pg 33).

Em nenhum momento o inspirador e mentor da pedagogia libertadora, Paulo Freire, deixa de mencionar o caráter essencialmente político de sua pedagogia, o que, segundo suas próprias palavras, impede que ele seja posta em prática, em termos sistemáticos nas instituições oficiais, antes da transformação da sociedade. Dai porque sua atuação se dê mais a nível da educação extra-escolar. O que não tem impedindo, por outro lado, que seus pressupostos sejam adotados e aplicados por numerosos professores.

(LIBÂNEO 1990, pg 33-34)

 

O método de ensino é sempre mediatizado pelo diálogo, aquele em que os sujeitos do ato de conhecer se encontram em favor do objeto a ser conhecido. A forma de trabalho educativo é o grupo de discussão. O professor é um animador que, por princípio, deve “descer” ao nível dos alunos, adaptando-se á cultura do educando. Pela dialética é abolida toda forma de autoridade, a relação é horizontal. Aqui temos uma ação “não-diretiva”, não no sentido de professor que se ausenta, mas sim, como um vigilante para assegurar ao grupo um espaço humano para “dizer sua palavra”, para se exprimir sem se neutralizar.

Tendência progressista libertária

Esta pedagogia espera que a escola exerça uma transformação na personalidade dos alunos num sentido libertário e autogestionário. Há portanto, um sentido expressamente político, à medida que se afirma o indivíduo como produto do social e que o desenvolvimento individual somente se realiza no coletivo.

As matérias são colocadas à disposição dos alunos, no entanto, não são exigidas. O importante é o conhecimento que resulta das experiências vividas pelo grupo. “Conhecimento” aqui não é a investigação cognitiva do real, para extrair dele um sistema de representações mentais, mas a descoberta de respostas às necessidades e às exigências da vida social.

É proibido proibir (música de Caetano Veloso) é umas das premissas das principais correntes na pedagogia libertária.

É proibido proibir (música de Caetano Veloso) é umas das premissas das principais correntes na pedagogia libertária.

A pedagogia institucional visa em primeiro lugar, transformar a relação professor-aluno no sentido da não-diretividade, isto é, considerar desde o inicio a ineficácia e a nocividade de todos os métodos à base de obrigações e ameaças. Cabe ao professor a função de “conselheiro” ou monitor à disposição do grupo. A ênfase na aprendizagem informal, via grupo, e a negação de toda forma de repressão visam favorecer o desenvolvimento de pessoas mais livres.

A pedagogia libertária abrange quase todas as tendências antiautoritárias em educação, entre elas a anarquista, a psicanalista e dos professores progressistas.

 

Tendência progressista “crítico-social dos conteúdos”

Libâneo

A difusão de conteúdos é a tarefa primordial. Não conteúdos abstratos, mas vivos, concretos e, portanto, indissociáveis das realidades sociais. Acredita-se que a própria escola pode contribuir para eliminar a seletividade social e torná-la democrática.

 

Se o que define uma pedagogia crítica é a consciência de seus condicionantes histórico-sociais, a função da pedagogia “dos conteúdos” é dar um passo à frente no papel transformador da escola, mas a partir das condições existentes. Assim, a condição para que a escola sirva aos interesses populares é garantir a todos um bom ensino, isto é, a apropriação dos conteúdos escolares básicos que tenham ressonância na vida dos alunos.

(LIBÂNEO 1990, pg 33-34)

Em síntese, a atuação da escola consiste na preparação do aluno para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo-lhes um instrumental, por meio de aquisições de conteúdos e da socialização, para uma participação organizada e ativa na democratização da sociedade.

A maneira de conceber os conteúdos do saber não estabelece oposição entre cultura popular e cultura erudita. O que se prega é uma relação de continuidade em que, progressivamente se passa da experiência imediata e desorganizada ao conhecimento sistematizado. Os métodos de uma pedagogia crítico-social dos conteúdos não partem de um saber artificial, depositado a partir da exterioridade; nem do saber espontâneo, mas de uma relação direta com a experiência do aluno, confrontada com o saber trazido de fora.

O papel de mediação exercido em torno da análise dos conteúdos exclui a não-diretividade como forma de orientação do trabalho escolar, porque o diálogo adulto-aluno é desigual. O adulto tem mais experiência acerca das realidades sociais, dispõe de uma formação para ensinar, possui conhecimentos e a ele cabe fazer a análise dos conteúdos em confronto com as realidades sociais.

Sabemos que as tendências espontâneas e naturais são “naturais”, antes são tributárias das condições de vida e do meio. Não são suficientes o amor, a aceitação, para que os filhos dos trabalhadores adquiram o desejo de estudar mais, de progredir; é necessária a intervenção do professor para levar o aluno a acreditar nas suas possibilidades, a ir mais longe, a prolongar a experiência vivida (pg 44).

REFERÊNCIAS

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública- a pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: edições Loyola, 1990

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