Ziegleanas

E aqueles que, no Sul, são chamados de “abutres do FMI” chegaram mesmo a considerar que os argumentos empregados pelos partidários do direito à alimentação derivam da pura ideologia, da cegueira doutrinária ou, pior, da dogmática comunista.

Há um desenho de Plantu¹ em que se vê um menino africano em farrapos, de pé atrás de um gordo homem branco que usa gravata e óculos e está sentado a uma mesa que exibe uma opípara refeição. O menino diz: “Tenho fome”. O branco gordo volta-se para ele e replica: “Não me venha falar de política!”.

hambre

1- Jean Plantureux (Plantu), nascido em Paris, em 1951, é um dos mais conhecidos desenhistas franceses contemporâneos – inclusive no Brasil, onde expõe desde os anos 1980. Caricaturista do Le Monde, notabilizou-se pelo traço singular a serviço da arguta crítica social e política (N.T.).

(ZIEGLER 2013, pg 168)

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

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Ziegleanas

camaroesNo mercado mundial, os oligopólios jogam todo o seu peso para impor os preços dos alimentos – em seu próprio benefício, claro: o preço mais elevado possível! Mas quando se trata de conquistar um mercado local, eliminar concorrentes, os senhores dos cereais praticam sem problemas o dumping¹. Exemplo: a liquidação da avicultura autóctones em Camarões – ali, as maciças importações de frangos baratos jogaram na miséria dezenas de milhares de famílias que criavam frangos e abasteciam o mercado interno com sua carne e ovos. Uma vez destruída a produção local, os senhores dos alimentos aumentam seus preços.

(…)

Atualmente, a OMC, o FMI e o Banco Mundial determinam as relações econômicas entre o mundo dos dominantes e os povos do Sul. Mas, em matéria de política agrícola, esses organismos se submetem, de fato, aos interesses das sociedades transcontinentais privadas. É assim que, originalmente encarregados da luta contra a extrema pobreza e a fome, a FAO e o PAM não desempenham, em relação àqueles organismos, mais que um papel residual.

¹Dumping: termo empregado para designar a prática mediante a qual, com o objetivo de eliminar concorrentes, as empresas reduzem, temporária e excessivamente, o preço de bens ou serviços destinados à exportação.(N.T.)

(ZIEGLER 2013, pg 157/159)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

Ziegleanas

Retirantes (Cândido Portinari).

Retirantes (Cândido Portinari).

OS CRUZADOS NO NEOLIBERALISMO

Para os Estados Unidos e suas organizações mercenárias – a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) – , o direito à alimentação é uma aberração. Para eles, os direitos humanos são apenas os civis e os políticos.

(…)

Atualmente, as duzentas maiores sociedades ramo agroalimentar controlam cerca de uma quarto dos recursos produtivos mundiais. Tais sociedades realizam lucros geralmente astronômicos e dispõem de recursos financeiros bem superiores aos do governos da maioria dos países onde elas operam.

(…)

Apenas dez sociedades – entre as quais a Aventis, a Monsanto, a Pioneer e a Syngenta – controlam um terço do mercado mundial de sementes, cujo volume é estimado em 23 bilhões de dólares por ano, e 80% do mercado mundial de pesticidas, estimado em 28 bilhões de dólares. Dez outras sociedades, entre as quais a Cargil, controlam 57% das vendas dos 30 maiores varejistas do mundo e representam 37% das receitas da 100 maiores sociedades fabricantes de produtos alimentícios e de bebidas. E seis empresas controlam 77% do mercado de adubos: Bayer, Syngenta, BASF, Cargil, DuPont e Monsanto.

(…)

Sobre os polvos da agroindústria, João Pedro Estédile afirma: “O seu objetivo não é produzir alimentos, mas mercadorias para ganhar dinheiro”.

(ZIEGLER 2013, pg 151/153)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

O DESENVOLVIMENTO DO ENSINO A DISTÂNCIA

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Definição de Educação a Distância (EAD)

Gohn (2011) advoga que este processo educacional é caracterizado quando parte do ensino é dirigida distante no espaço e/ou no tempo do aprendiz, e acrescenta: utiliza-se técnicas especiais de criação do curso e de instrução, comunicação por meio de várias tecnologias e disposições organizacionais e administrativas especiais (pg 40).

Com o desenvolvimento desta forma de ensino e o atrelamento à era da informática, outros termos sugiram como sinônimos: aprendizagem on-line, e-learning, sala de aula virtual. Soma-se isso a aprendizagem híbrida (blended learning): combinação de contatos presenciais e aulas a distância. E a lista não para, temos as aprendizagens: autodirigida, centrada no aluno, independente e autônoma. Todas estas últimas, indicando que a responsabilidade do aprendizado diferenciado cabe ao educando.

Contudo, alguns dos itens descritos acima pertencem à várias formas de ensino. Nota-se, frequentemente, a utilização do termo e-learning como sinônimo de educação a distância. Este termo também se refere ao uso da internet para aplicação educacional. Em outas palavras: um educando pode aprender como autodidata por esta via, sem estar, obrigatoriamente matriculado em um curso a distância. Adicionamos à este exemplo o uso de CD-ROM, gravações audiovisuais, transmissões via satélite, entre outras.

Não apenas ferramentas eletrônicas (PC, rádio, TV) são consideradas meios para EAD. Conteúdos impressos e enviados por correio foram os precursores desta metodologia. Como veremos mais adiante, esta tecnologia foi a primeira e a maior responsável pela divulgação da metodologia não presencial.

 

 

História do EAD pelo mundo

Ead

É difícil precisar, exatamente, em que época o EAD surgiu. Gohn (2011) defende, durante o seu levantamento bibliográfico, que esta metodologia era praticada já no ano 50 da era cristã. Segundo o autor, o apóstolo Paulo de Tarso (São Paulo para os católicos) seria um dos precursores do ensino a distância, tendo como objetivo a divulgação do cristianismo. A justificativa é simples: nas primeiras comunidades cristãs, fiéis liam as cartas do missionário sobre a doutrina cristã , configurando assim algo parecido com os cursos em apostilas que surgiriam séculos depois (pg 45).

Durante o século XIV ocorre a primeira grande revolução tecnológica do EAD: o desenvolvimento da prensa pelo alemão Johannes Gutemberg. Após esta façanha, há uma mudança nas formas de difusão da informação que, na época, seguia a relação mestre/aprendiz. Os livros foram barateados devido ao processo mecânico, logo o estudo poderia ser feito em qualquer local, mesmo que distante do professor.

Devemos salientar que este barateamento não contemplou as camadas mais pobres da população. O livro saiu da confecção dos monges, mas continuou como instrumento ideológico e político das elites europeias.

Prensa de Gutemberg

Prensa de Gutemberg


Outra grande contribuição do modelo impresso foi a padronização dos métodos escritos. Quando estas obras eram manuscritas, não tardava (as vezes já na terceira cópia) para que aparecessem erros que logo eram reproduzidos e anexados à obra. A invenção de Gutemberg permitiu que um novo estilo cognitivo se instaurasse (LÉVY
2011, pg 99).

A Revolução Industrial é uma revolução dupla. Já que também marca a segunda revolução do EAD. Além do alargamento dos capitais, houve uma melhoria na velocidade do transporte via trilhos e logo da comunicação impressa. É neste período que surge o sentido moderno de educação distância. É em 1858 que se instaura a educação por correspondência na Universidade de Londres. Assim, vários educandos concluíram seus estudos sem jamais terem vivido na Inglaterra.

Ainda existe muita polêmica sobre a invenção do telefone. Entretanto é com Graham Bell que estes meio de comunicação se populariza. Logo o EAD contaria com esta nova tecnologia agilizando as trocas que antes aconteceriam somente via cartas. Embora fosse uma ótima ferramenta, o telefone não foi amplamente utilizado, já que as ligações eram muito caras, impossibilitando assim seu uso em massa.

Fechamos o século XIX com a criação do primeiro cursos a distância das Américas. Criado em 1882 em Chicago, EUA.

O século XX surge com dados extraordinários quando tratamos de EAD: em 1900, a University Correspondence College, em Londres detinham 80% de vagas destinadas aos professores da época não tinham tempo para o curso presencial e estudavam a distância.

O cinema foi utilizado com fins educacionais desde sua criação, em 1895. há vários registros de filmes mudos usados na educação, sendo o mais antigo do ano 1898, na qual era demonstrada uma cirurgia do doutor Doyen. Entretanto foi na mudança para o cinema falado que esta ferramenta foi usada sistematicamente nas escolas sendo substituída pela televisão na segunda metade do século XX.

Na Europa o EAD foi utilizado durantes as duas grande guerras para os militares continuassem estudando. O sucesso foi tanto que o external system da Universidade de Londres contemplava até prisioneiros.

Quando tratamos de áudio, o assunto é extenso e envolve muito atores. O primeiro programa educacional regular de rádio é transmitido em 1926 pelo BBC. Agora, os textos continham modulações e ênfases nas vozes. Mesmo que anteriormente, o gramofone fosse utilizado como ferramenta educacional, é com as fitas cassetes que o áudio se populariza na EAD. Com esta ferramenta, além de gravar programas, o estudante poderia repeti-lo quantas vezes desejasse. O monopólio destas fitas só mudaria na década de 1990 com a popularização do CD.

O curso por correspondência foi na criado na Índia no ano de 1962, na Universidade de Delhi. Isto iniciou um processo de EAD que culminaria na criação da Indira Gandhi National Open University, em 1985.

 Indira Gandhi National Open University

Indira Gandhi National Open University

A televisão educativa teve seu despertar em 1934 quando a State University of Iowa realizou transmissões sobre higiene oral e astronomia. Na Inglaterra, os programas educativos foram transmitidos pela BBC e outras TVs comerciais a partir de 1963.

Após o lançamento do satélite Early Bird, em 1960, o vídeo começou a utilizado para comunicações síncronas, com interações via satélite. Assim, a University of Alasca começou a fazer experiências com esta nova tecnologia. A videoconferência resultou em grandes avanços na educação corporativa. Muitas empresas montaram universidades próprias e a Dell University, foi a primeira instituição totalmente virtual no mundo.

O ano de de 1969 é um marco para EAD, pois foi fundada em Londres, a Open University (OU), universidade inteiramente dedicada ao ensino a distância. Esta instituição, logo tornou-se um modelo desta metodologia. A OU não exigia instrução prévia de seus educandos e os cursos poderiam ser começados em qualquer época, com o objetivo de proporcionar o ensino para o maior número de estudantes.

O uso de redes de computadores voltadas para o ensino surge em 1989, quando Michael Moore, na Pensylvania State University, utiliza o “modo audiográfico” (imagens gráficas e áudio eram transmitidos por duas linhas telefônicas independentes) em suas primeiras experiências.

A primeira universidade totalmente virtual surge no Reino Unido. A United Kingdom e-University (UkeU) nasce em 2000, com grandes investimentos do governo britânico. Entretanto, o sonho do ensino virtual acabou rápido. A instituição foi fechada dois anos depois devido ao baixo números de matrículas.

 

EAD no Brasil e a criação da Universidade Aberta do Brasil (UAB)

O EAD surgem em solo brasileiro no início do século XX, com cursos de ensino por correspondência. Destacamos o projeto “Universidade do Ar” desenvolvido pelo SENAC e alcançando cerca de 80.000 alunos. O Brasil liderava, no início da década de 70, o ensino a distância, junto de Reino Unido, Espanha, Índia e Canadá. Entretanto houve um enrijecimento da legislação sobre o tema, contendo assim o desenvolvimento desta metodologia.

Propaganda do Instituo Universal Brasileiro e seus cursos que eram oferecidos por correio durante as dácadas de 1980 e 1990.

Propaganda do Instituo Universal Brasileiro e seus cursos que eram oferecidos por correio durante as dácadas de 1980 e 1990.

Aos poucos o Brasil foi retomando algumas características do ensino não-presencial. Em 2011, a portaria nº 2,253 do Ministério da Educação permitiu que qualquer curso já autorizado pudesse empregar métodos não presenciais de ensino, desde que não se ultrapasse o limite de 20% do tempo total do programa.

Em 2006, foi instituída a Universidade Aberta do Brasil (UAB), com o objetivo de expandir a oferta de cursos superiores no Brasil e suprir a demanda por estas especializações.

EAD: Prós e contras

Barreto (2003) tece alguma críticas às modalidades de ensino a distância incorporadas nas tecnologias de informação e comunicação (TIC). Para a autora, as questões relacionadas ao ensino estão na pauta de instituições públicas (MEC,LDB), e também internacionais (UNESCO, FMI). Entretanto, estes interesses se baseiam em questões mais econômicas do que sociais.

Data de 1995 textos-chaves do Banco Mundial que estabelecem como saída para a educação (e exigências para a obtenção de crédito para os países do terceiro mundo), a utilização de “tecnologias mais eficientes”, em comparação ao que a instituição chama de “monopólio do professor”.

A concepção modernidade/tradicionalismo pode estar escondendo um jogo de poder. Onde a “distância” pode ser eufemismo “para ausência”. Presentes, sem dúvida, nas tecnologias de informação tanto divulgadas atualmente.

Outra questão fundamental é: para quem vai o EAD? Para quem mora longe dos grandes centros e/ou para quem não teve a educação no tempo “certo”? Para reforçar o apartheid educacional? E a quem se destina o ensino presencial e de qualidade? As TIC podem ser usadas para aumentar o dualismo da escola encontrada em nossa sociedade.

Já Gohn (2011), tratando do ensino de música à distancia, alerta para os riscos de formar especialistas em apertar teclas de computador , mas sem nenhuma compreensão musical e sem capacidades criativas ou interpretativas.

Um outro problema detectado pelo autor é barreira da língua inglesa usada como base na maioria dos cursos ministrados a distância e nos recursos de consulta on line. Quando tratamos dos fóruns utilizados no ensino, algumas dificuldades também surgem: é possível burlar a lógica de leitura e fichamento de textos usados, assim como dedicar menos tempo de estudo do que o necessário. Porém, os mesmo ocorre em aulas presenciais.

Esta metodologia é aberta e fechada: enquanto se abre para um maior contigente educacional, grande parte dos currículos são fechados criando desafios para o gerenciamento de custos no momento de renovar materiais de estudo.

O lado bom da tecnologia é que as ferramentas conhecidas como “softwares sociais”, se adotadas com finalidades educacionais, podem ter um grande impactos de inovação, resultando no desenvolvimento de competências essenciais para a vida na sociedade do conhecimento.

O EAD populariza o ensino, já que descentraliza as instituições de grandes centros urbanos.

REFERÊNCIAS

BARRETO, Gisele Goulart. Tecnologias educacionais e educação a distância: avaliando políticas e práticas. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Quartet, 2003. 192 pgs (Coleção Educação e Sociedade; 9)

GOHN, Daniel Marcondes. Educação Musical a distância: abordagens e experiências. São Paulo: Cortez, 2011

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: O futuro da inteligência na era da informática – Tradução de Carlos Irineu da Costa. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora 34, 2011. 208 páginas. (Coleção TRANS)

NIKEL, Mateus. Blog do Nikel: AS POLÍTICAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES: NOVAS TECNOLOGIAS E EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA, segundo Raquel Goulart Barreto. Disponível em: https://blogdonikel.wordpress.com/2014/12/29/as-politicas-de-formacao-de-professores-novas-tecnologias-e-educacao-a-distancia-segundo-raquel-goulart-barreto-2/ Acessado em: 23/01/2015

WIKIPEDIA. Alexander Graham Bell. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Alexander_Graham_Bell  Acessado em: 23/01/2015

 

Imagens

1- http://www.tudoemfoco.com.br/vantagens-e-desvantagens-do-ensino-a-distancia.html Acessado em: 23/01/2015.

Prensa de Gutemberg- http://www.debatesculturais.com.br/o-nascimento-da-imprensa/ Acessado em: 23/01/2015.

Propaganda do Instituo Universal Brasileiro-http://carissimascatrevagens.blogspot.com.br/2010/08/o-instituto-universal-brasileiro.html Acessado em: 23/01/2015.

AS POLÍTICAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES: NOVAS TECNOLOGIAS E EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA, segundo Raquel Goulart Barreto.

Neste texto consta o fichamento do capítulo 1, homônimo ao título do post, escrito por Barreto (2003), e encontrado na organização intitulada: Tecnologias educacionais e educação à distância (editora Quartet, 2ª edição, 2003). O objetivo deste escrito é a apresentação de uma leitura, tendo como base um lugar contraditório atribuído à formação de professores no Brasil atual. Destacam-se as dimensões ideológicas, econômicas e político-pedagógicas que o sustentam. Neste movimento, discute-se alguns dos principais efeitos produzidos pelas propostas de utilização das tecnologias da informação e da comunicação (TIC), especialmente, como estratégias para promover a modalidade de educação a distância (EAD).

A globalização foi um dos principais motivos para a introdução das TICS.

A globalização foi um dos principais motivos para a introdução das TICS¹.

 

Globalização” e “Globalitarismo”

Barreto (2003) faz severas críticas ao que chama de “globalitarismo”, termo criado pelo jornalista Ramonet (editor do periódico Le Monde), e que caracteriza a atual ditadura do pensamento único tendo como pano de fundo a globalização e a abertura de capitais sobre a égide do neoliberalismo econômico. O principal efeito produzido por este neologismo é o apagamento dos sentidos plurais em circulação e em disputa por hegemonia.

 

Formação de professores: um lugar contraditório

Após um longo período de silêncio, é inevitável constatar que as questões relacionadas à formação de professores estão postas no centro das políticas públicas, tanto no nível nacional (LDB, PDE, MEC) quanto internacional (UNESCO, Banco Mundial e FMI). Entretanto, uma melhor abordagem sobre o tema mostra que esses interesses não se pautam por questões sociais, tampouco educacionais. Por baixo destas iniciativas está uma reestruturação produtiva e a “formação industrial” dos profissionais da educação.

 

Estas reconfigurações, indissociáveis da inserção das TIC, têm em comum uma simplificação de raiz, materializada no deslocamento da formação para a capacitação em serviço. Assim, falar em formação de professores hoje já não é falar da formulação inicial, ou mesmo da dicotomia entre formação inicial e continuada, mas falar de capacitação em serviço e, até, de certificação.

(BARRETO, 2003  pg 12)

Cada vez se libera menos recursos voltados para a pesquisa acadêmica. Um exemplo disso é a concepção dos ISE (Institutos Superiores de Educação), voltados exclusivamente para o ensino, logo dissociados de pesquisa.

Economicamente, esta reestruturação produtiva remete á liquidação da Universidade pública, já que um sistema de educação superior voltado para o ensino e pesquisa (o chamado modelo europeu), dotado de relativa autonomia frente ao Estado e às instituições privadas, parece anacrônico e muito dispendioso.

Esta concepção neoliberal pressupõe que aquelas instituições que fizerem as escolhas educacionais corretas, isto é, sintonizadas com o mercado, terão possibilidades ilimitadas de crescimento e gestão. Nesta perspectiva, os problemas do desemprego e da precarização do trabalho são deslocáveis para a qualificação do trabalhador, a quem compete a produção das competências para manter a sua “empregabilidade”.

Nestes termos, também, é instituída uma modalidade de apartheid educacional: a escola para os excluídos fica reduzida ao ensino fundamental empobrecido em termos de conteúdo científico, artístico e histórico-social. Os demais níveis, crescentemente privatizados, são degradados por reformas curriculares que empobrecem o caráter científico do conteúdo escolar. Esta situação é agravada pelo fato que tais modificações estão sendo definidas em termos “institucionais”. Desse modo a segregação social é assumida como política “deliberada” do Estado. Não adianta gastar com o ensino superior e a pesquisa, pois, conforme a tese das “vantagens comparativas”, os países “em desenvolvimento” devem perseguir “nichos de mercado” onde seja possível vender mercadorias de baixo valor agregado. No caso de necessidade de tecnologia, esta pode ser “facilmente” comprada nos países centrais (pg 14).

Além disso, a flexibilização reafirmada pelo modelo econômico (acumulação flexível), em substituição ao regime único de trabalho nas universidades, bem como nos “contratos de gestão”, sugeridos para o ensino superior devem “diversificar e utilizar os recursos mais eficientemente”, segundo o Banco Mundial.

O discurso do MEC: as tecnologias e a sua utilização

Banco "Mundial" e a política mais do que "central".²

Banco “Mundial” e a política mais do que “central”.²

Data de 1995 textos-chaves do Banco Mundial que estabelecem como saída para a educação (e exigências para a obtenção de crédito para os países do terceiro mundo), a utilização de “tecnologias mais eficientes”, em comparação ao que a instituição chama de “monopólio do professor”.

 

“Tecnicamente” falando, a perspectiva é a de que o desempenho dos alunos depende menos da formação dos professores e mais dos materiais pedagógicos utilizados: um modelo de substituição tecnológica, fundado na racionalidade instrumental. Nestes termos, imporá o aumento da produtividade dos sistemas educacionais, por sua vez atribuído ao uso intensivo das tecnologias. Não seria a educação a ferir a lógica do mercado (quanto maior a presença de tecnologia, menor a necessidade do trabalho humano) a ética da acumulação do capital.

(BARRETO, 2003 pg 18)

 

O “novo paradigma” equivale a reduzir a formação ao treinamento das habilidades desejáveis ao manejo dos materiais de ensino que, traduzindo os parâmetros curriculares estabelecidos, favoreçam um bom desempenho na avaliação das competências estabelecidas.

Os materiais didáticos são apropriados como vértice da triangulação que visa a um controle se precedentes das metas estabelecidas para a educação brasileira: a compreendida pelo “currículo centralizado” (parâmetros e diretrizes com “tradução” para os professores, alijados da sua concepção), sustentando modalidades de “avaliação unificada”, centradas nos produtos e nos indicadores quantitativos (SAEB, ENEN, Provão), na mediação dos programas de educação à distância (TV escola ProInfo e Proformação), através do uso intensivo das tecnologias da informação e da comunicação.

(BARRETO, 2003 pg 18)

Com o deslocamento do foco do ensino para os materiais, na maioria das vezes, tidos como autoinstrucionais; são esvaziados também os vínculos lógicos entre as TIC a serem utilizadas no ensino e a formação do professor. Sequer precisa ser objetivada esta formação, uma vez que as TIC supostamente preenchem os vazios: programas de capacitação em serviço. Reciclagem para os “formados” e estratégia de substituição de uma sólida formação inicial necessária.

Tecnologias: (re)formulando questões

A incorporação das TIC é uma condição necessária, mas não suficiente, para universalizar uma educação de qualidade: inclusiva, não contente com a equidade e com a massa de “sobrantes” que este conceito pressupõe (pg 20).

Para que servem as TICs se não há boa formação docente?³

Para que servem as TICs se não há boa formação docente?³

Nota-se no discurso do MEC uma perspectiva (neo)tecnicista, quando, o órgão aborda o termo “pacotes educacionais”. Agora, as TIC vêm embaladas em uma perspectiva histórica-cultura, tendo Vogtsky como referência. Barreto (2003), alerta-nos sobre o racionalismo técnico disfarçado de uma nova roupagem. Presenciamos a valorização da técnica em si e, consequentemente, com a ênfase posta no treinamento para a sua utilização “correta” (pg 21).

 

Do ponto de vista político-pedagógico, é fundamental o reconhecimento de que as TIC, ao abrir novas possibilidades para a educação, colocam novos desafios para o trabalho docente. Entretanto, estes mesmos desafios, reconhecidos e trabalhados nos países ricos, têm sido obliterados por supostas soluções mágicas nos países pobres.

(BARRETO, 2003 pg 21)

A articulação TIC-EAD: sintetizando contradições

A concepção modernidade/tradicionalismo pode estar escondendo um jogo de poder. Onde a “distância” pode ser eufemismo “para ausência”. Presentes, sem dúvida, nas tecnologias de informação tanto divulgadas atualmente.

Outra questão fundamental é: para quem vai o EAD? Para quem mora longe dos grandes centros e/ou para quem não teve a educação no tempo “certo”? Para reforçar o apartheid educacional? E a quem se destina o ensino presencial e de qualidade? As TIC podem ser usadas para aumentar o dualismo da escola encontrada em nossa sociedade.

Informações adicionais

Aproveito este texto de Barreto (2003) e o complemento com uma ideia de Beloni (apud GOULART 2013), revelando-nos que:

A integração das tecnologias de informação e comunicação nos processos educacionais, podem ser uma estratégia de grande valia, desde que esta integração considere estas técnicas como meios, e não como finalidades educacionais (pg 70).

 

BIBLIOGRAFIA

BARRETO, Gisele Goulart. Tecnologias educacionais e educação a distância: avaliando políticas e práticas. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Quartet, 2003. 192 pgs (Coleção Educação e Sociedade; 9)

 

Imagens

¹ Blog do Saiid: http://saiddib.blogspot.com.br/2010/09/adriano-benayon.html

² adriancorbella: http://adriancorbella.blogspot.com.br/2012/04/de-quien-es-el-banco-mundial-por-joseph.html

³ Desconhecido