EXPLICANDO A ARTE BRASILEIRA, segundo Garcez e Oliveira.

Olá amigos

Abaixo segue o resumo do Livro EXPLICANDO A ARTE BRASILEIRA (REFERÊNCIAS), ótima obra para quem quer se aventurar em nossa cultura. Inté !!!

Introdução – Conversa sobre a expressão artística brasileira

É por meio da arte e dos símbolos criados pela mesma que podemos nos compreender melhor e conhecer o nosso próprio país.

A emancipação e constituição de nossa arte e identidade foi um longo processo de assimilação, transformação e reelaboração das matizes estéticas europeias. Sendo assim, informações a respeito das expressões culturais no velho continente são importantes para a compreensão de nossas manifestações artísticas. O Brasil soberano que conhecemos atualmente, constitui-se num processo histórico longo e entremeado por conflitos e interesses.

Um característica bem marcante da compreensão artística é o desenvolvimento do senso crítico. Desta maneira, podemos perceber se somos vítimas de uma dominação simbólica. Desde a “descoberta”, o Brasil transpunha modos de viver, valores e formas de expressão europeias. Inicialmente portuguesas e mais tarde francesas e inglesas.

Para aguçar este senso crítico, devemos associar as informações a respeito de todo o contexto em que a arte é desenvolvida. A apreciação da manifestação artística isolada do conhecimento a respeito da situação em que foi produzida, pode ser instigante e estimulante, entretanto, não é tão ampla como a análise acompanhada de informações que enriqueçam a experiência estética e a ampliem de forma abrangente. Nunca podemos nos entregar sem uma participação ativa.

Capítulo 1- A Arte antes de Cabral chegar ao Brasil

A Arte Rupestre

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Já existiam habitantes em nosso território bem antes da colonização portuguesa. Provavelmente , pescadores e nômades de descendência asiática. Como registro destas civilizações, encontramos pinturas e gravuras em diferentes suportes de pedra. Estas manifestações recebem o nome de pintura rupestre ou itacoatiara, geralmente são encontradas em paredes e tetos de cavernas, abrigos, blocos no chão, pedras nos leitos dos rios e lajes a céu aberto.

Parque Nacional da Serra da Capivara.

Parque Nacional da Serra da Capivara.

Na região do Parque Nacional da Serra da Capivara ( São Raimundo Nonato/PI), encontramos as mais antigas manifestações desta arte. Geralmente, são desenhos que retratam cena da vida cotidiana ou eventos cerimoniais.

Na região de Lagoa Santa/MG, encontramos outro tipo de arte rupestre: as gravuras, tendo como base a técnica de abrasão. Consistindo na raspagem das pedras, tendo como resultado figuras em baixo-relevo.

Os temas da arte rupestre são bastante variados. Alguns grupos usavam desenho geométrico, trabalhando com formas não representativas (pontos, traços e círculos em diferentes tamanhos e combinações). Os estilos também variam: figuras formadas apenas por linhas e contornos, pinturas cheias, pinturas pontilhadas. Outros aproveitavam o relevo das pedras para dar impressão de volume.

A arte rupestre é talvez o vestígio arqueológico mais difícil de ser analisado, pois não conhecemos o contexto social no qual os desenhos foram criados. É uma representação simbólica do mundo real. Desta maneira, as possibilidades de interpretação são infinitas.

De uma coisa, temos certeza. Trata-se de arte, pois exprime um sentimento ou pensamento !!!

Arte Marajoara e Tapajó

Muiraquitã

Muiraquitã

Na bacia do rio Tapajós e na ilha de Marajó, encontra-se vestígios de culturas com alto grau de sofisticação na

fabricação e na decoração de artefatos de cerâmica. Pouca coisa restou da cultura dos índios Tapajós (grande nação que habitava a região de Santarém). Apenas muiraquitãs: amuleto símbolo das culturas amazônicas. Consistem em pequenas esculturas de pedra verde (nefrita). Assim como um tipo tão elaborado de cerâmica que mais parece escultura do que um vaso usual.

Encontra-se, em aterros próximos ao lago Arari, grandes urnas funerárias com desenhos labirínticos denominadas igaçabas. Geralmente este tipo de artefato era usado em rituais religiosos, verdadeiros espetáculos artísticos que reuniam música, dança e objetos.

Todos estes indícios demonstram que a cultura marajoara atingiu um grau de desenvolvimento e complexidade social e política muito grande.

 

Arte Indígena

A arte contemporânea e a indígena tem algo em comum: ambas estão ligadas ao prazer estético. Geralmente, os objetos utilitários dos indígenas são embelezados e impregnados de expressões simbólicas.

Destes, podemos destacar a arte plumária e a pintura corporal como reflexo da busca de prazer estético e de comunicação por meio de uma expressão corporal.

Exemplos da diversidade da pintura corporal dos índios brasileiros.

Exemplos da diversidade da pintura corporal dos índios brasileiros.

As diferentes tribos indígenas se expressam de diversas maneiras: instrumentos musicais (flautas, chocalhos, tambores), adereços compostos por vários materiais, adornos plumários (mantas, cocares, máscaras), trançados (cestas, redes e esteiras) e cerâmicas com diversas finalidades.

Outra arte indígena que merece observação é a pintura corporal. Trata-se de uma forma de expressão artística e uma linguagem visual em estreita relação com outros meios de comunicação verbais e não verbais. Esta manifestação pode ser “lida”, já que revela intenções pacíficas ou guerreiras. Em resumo, uma linguagem com seus símbolos específicos.

Como resultado prático, esta arte espanta os insetos e defende a pele dos efeitos do sol. No campo religioso, esta expressão pode afastar espíritos do mal.

 

Capítulo 2 – Arte Europeia no Brasil

Ocupação da Terra

Terra Brasilis. Mapa do Atlas Miller (1515-1519).

Terra Brasilis. Mapa do Atlas Miller (1515-1519).

Infelizmente, a história brasileira traz uma passado segregacionista. É somente no século XIX que a cultura pré-cabralina (anterior ao “descobrimento”) começa a ser estudada e valorizada. Para muitos colonos portugueses, o povo que aqui vivia era uma sub-raça. Tendo em vista esta concepção, como considerar artístico aquilo que vem de uma civilização inferior?

No primeiro século de colonização, a principal função brasileira era de exportação de pau-brasil. As “manifestações artísticas” permitidas pela coroa portuguesa eram, na verdade, uma tentativa de conversão do indígena pela música e teatro dos recém chegados monges beneditinos, franciscanos e jesuítas (principalmente).

A época da recém colonização brasileira é contemporânea à uma transição artística no velho mundo. A arte renascentista, que buscava razão, equilíbrio e simplicidade inspiradas no modelos grego e romano era abandona em prol de outro tipo de manifestação artística.

A agitações ocorridas na Europa como as grandes navegações e a reforma protestante configuram um estilo de vida mais ousado e emotivo. O Barroco surge como uma nova forma de expressão valorizando a emoção, a subjetividade, os temas religiosos o conflito e o rebuscamento.

A Arquitetura Colonial para a Defesa e para a Devoção

A Arquitetura foi a primeira manifestação artística dos portugueses em solo americano. Todo o material para a construção de edificações era importado de Portugal. Estes itens eram trazidos como carga de retorno no navios que retornavam ao velho mundo com nossas riquezas naturais.

Primeira Igreja Construída no Brasil - Cosme e Damião, em Igarassu - PE

Primeira Igreja Construída no Brasil – Cosme e Damião, em Igarassu – PE

Esta arquitetura era apenas “montada no Brasil”. Até mesmo os construtores que aqui trabalhavam, seguiam padrões do clima frio europeu. Com pouca mão de obra qualificada e a dependência de material, as obras de fortes e mosteiros se arrastavam durante anos. Esta problemática gerou algo peculiar: muitos fortes e mosteiros eram projetos com linhas renascentistas e terminados no estilo Barroco.

A presença dos Jesuítas

Os jesuítas se instalaram no Brasil em 1549, construindo igrejas monumentais, seminários e escolas de catequeses e de artes e ofícios. A arte deveria servir a Deus, transformando as cerimônias em espetáculos fascinantes. A luz de velas iluminavam objetos de ouro e prata.

A grandiosidade dos templos jesuítas (cópias italianas e portuguesas) tinha propósitos específicos em terras brasileiras: favorecer a catequeses, atraindo assim novos fiéis. Estas megaconstruções que destoavam das pequenas vilas deveriam atrair não apenas os senhores proprietários, mas toda a população do entorno.

A presença Holandesa

Vista de Itamaracá de Frans Prost (considerada a primeira pintura que retrataria fielmente o novo mundo).

Vista de Itamaracá de Frans Prost (considerada a primeira pintura que retrataria fielmente o novo mundo).

Entre 1630 e 1654, os holandeses ocuparam Pernambuco e boa parte da região nordeste do Brasil. Os pintores dos países baixos deixaram uma herança cultural inestimável. Foi a 1ª vez na colônia que artistas pintaram assuntos desligados de temas religiosos.

 

3- O Esplendor do Período Barroco

O Predomínio da Emoção

Como citado anteriormente, no momento em que Portugal colonizava a América, o continente europeu passava por intensas transformações: comércio com novos mundos, reforma protestantes, novas invenções que abalavam as antigas crenças, entre outras.

A arte Barroca surge como um movimento antagonista à simplicidade do Renascimento. Agora, valorizava-se o movimento, a ornamentação e as emoções contraditórias. Aparecem os contrastes fortes entre luz e sombras e muitas curvas e dobras.

O ambiente Barroco

Ouro Preto/MG. A cidade e o Barroco no Brasil.

Ouro Preto/MG. A cidade e o Barroco no Brasil.

Na literatura destacam-se Gregório de Matos e Padre Vieira. A música barroca alcançou grande desenvolvimento em uma larga faixa de gêneros praticados no século XVIII nas escolas de Recife, Minas Gerais e Bahia. Geralmente, essa música estava ligada às igrejas e compostas por músicos organistas, em sua maioria mulatos e tendo como inspiração o eurocentrismo das óperas napolitanas e na música religiosa portuguesa.

Durante este período, as igrejas tiveram seus tetos revestidos por uma pintura que dá ilusão de entalhes de madeiras, de profundidade, relevo e de movimento. Estes artistas também imitaram com pinturas do azulejos portugueses, geralmente em tons de azul.

Não existia ainda a noção de “autoria”, bastante valoriza na atual sociedade capitalista. Muitos artistas contavam com a ajuda de auxiliares, em sua maioria anônimos. Estes ajudavam a terminar obras com valores incalculáveis na contemporaneidade.

Nas pinturas e esculturas frequentemente eram usados modelos negros e mulatos, o que dava uma feição tropical às faces e formas corporais das esculturas. A riqueza da decoração durante o ciclo do ouro mineiro representa a fase final do Barroco, chamado Rococó (devido ao exagero de linhas curvas e espirais).

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e o Barroco em Minas Gerais

Aleijadinho é considera o maior artista do período colonial brasileiro. Natural de Vila Rica (Ouro Preto), filho de um arquiteto português e de uma escrava negra, estudou arquitetura e desenho com os mestres da época. Sofreu durante anos com uma misteriosa doença: teve membros atrofiados, feição deforma, locomovia-se de joelhos e teve os dedos amputados (amarrava os instrumentos nas mãos para esculpir). Morreu cego e pobre.

 

4 As Origens do Sentimento Nacional

O Neoclassicismo

Debret - Passeio de Domingo à tarde.

Debret – Passeio de Domingo à tarde.

O exagero barroco começa agora a ser suavizado, o excesso de curva e de expressividade vai-se atenuando e dando espaço para uma arte mais tranquila e equilibrada. O Neoclassicismo advoga pela razão e a documentação dos afazeres do grupo.

Surge, em 1748, o primeiro teatro do Rio de Janeiro e em 1767 a primeira casa de ópera, sempre voltadas para a elite econômica.

Este período coincide com a profunda repressão contra a emancipação e cultura brasileira: as manifestações culturais populares de matriz africana como o bumba meu boi e reisados, eram perseguidas pela igreja católica. O governo proibia a criação de cursos superiores e tipografias. Surge em 1798 a inconfidência mineira.

A Família Real no Brasil

Com a expansão napoleônica e a vinda da família real em 1808, o Brasil apresenta um grande avanço em seu desenvolvimento.

Toda a arte produzida no período anterior à chegada da corte portuguesa é considerada ultrapassada e gótica. Predominava na Europa a volta aos valores clássicos do Renascimento, a busca do equilíbrio e da simplicidade na imitação das linhas greco-romanas. Este estilo é classificado como Neoclassicismo ou Academicismo.

Debret - Os Refrescos do Largo do Palácio

Debret – Os Refrescos do Largo do Palácio

A Missão francesa

Dom João VI contrata artistas franceses (pintores, músico e arquitetos) para modernizar artisticamente o Reino Unificado. Os brasileiros reagiram contrariamente a esta missão, já que se tratava de uma nova colonização cultural. Entretanto, esta comitiva deixou uma enorme legado, influenciando muito a arte brasileira.

Surge, neste período, a ideia de criação de uma Escola de Belas Artes. Em 1816, funda-se a Escola Real das Ciências, Arte e Ofícios. Ao longo do tempo, esta instituição mudou de nome e em 1826 passa a ser chamada de Escola de Belas Artes.

O Nascimento da Fotografia

Fotografia da Família Real

Fotografia da Família Real

Em meio a história de sucessão envolvendo 3 imperadores brasileiros, Louis Compte (um abade francês) introduz a daguerreotipia no Brasil, em 1832.

Entusiasmado com a nova invenção, Pedro II (com apenas 15 anos) encomenda um equipamento em Paris, tornando assim o primeiro brasileiro a praticar fotografia. Com o passar do tempo, o imperador seria uma mecenas da arte chegando a ter o maior e mais diversificado acervo particular de fotografias da época.

A Presença dos Cientistas

Além da presença francesa, o Brasil foi estudado por cientistas austríacos e alemães. O naturalista Auguste Saint-Hilaire já denunciava a devastação da natureza no século XIX.

Neste período, a presença estrangeira define a produção artística no Brasil. O Rio de Janeiro se estabelece como centro cultural do Reinado, o que causa insastifação de outras regiões. Ainda não contávamos com uma arte genuinamente Brasileira.

 

5- A Contrução da Identidade Nacional

O Romantismo

Aos poucos, o estilo Neoclassicista vai perdendo força e uma nova concepção começa aparecer. Existia, neste período, a necessidade de expressar emoções e paixões, de buscar as raízes da nacionalidade brasileira e enaltecer as belezas tropicais.

O Último Tamoio (Rodolfo Amoedo)

Surge daí o Romantismo. Esta escola prega a volta ao passado histórico e glorioso do povo brasileiro e o abandono dos mitos gregos de outrora. Agora, o que vale é viver o amor intensamente. Neste período, o Brasil começa a criar um arte nacional, entretanto, suas expressões artíticas ainda seguem padrões europeus.

A escola romântica introduz o Indianismo (idealização da figura do índio), o nacionalismo nas cenas épicas e o subjetivismo na paisagem (a pintura histórica chega ao auge).

O ambiente do Romantismo

Com a imprensa brasileira consolidada, surge um grande número de revistas e jornais. Daí, destaca-se um grande número de cartunistas que lutavam pelo abolicionismo e pela república. Um dos artista que mais se destaca nesta época é o italiano Ângelo Agostini, considerado o precursor das histórias em quadrinhos no Brasil.

Começávamos a focalizar mais as cenas do cidadão comum: o sertanejo, o escravo e os costumes urbanos da corte.

O teatro até então era bem parecido com as encenações jesuíticas. Cria-se neste peíodo a compania de João Caetano, considerado o 1º grande ator dramático do teatro brasileiro.

Realismo/Naturalismo

Com a queda da monarquia e a proclamação da república (1889), novas ideias influenciaram as artes, que se tornou mais “realista e natural”. Arte esta que foi guiada pelo filosofia positivista de Auguste Comte. Este período é também conhecido como Belle Époque (influência intensa da cultura francesa). Apesar de apresentar a realidade, tanto pintura quanto escultura sofrem poucas transformações neste período.

A literura apresenta uma narrativa menos subjetiva e voltada mais para o ambiente urbano.

A caricatura apresenta Nair de Tefé, a primeira mulher a dispontar nesta arte.

As Origens da Modernidade

Dia de Verão (Georgina de Abuquerque)

Dia de Verão (Georgina de Abuquerque)

Começamos a representar a pintura impressionista, que pregava: a recusa do modelo renascentista, a negação da linha, a ênfase na luz e nas cores e a incorporação do pontilhismo. Para esta escola, o delineamento do desenho deixa de ser importante.

O início do século XX aproxima a arte e a indústria por meio das artes aplicadas (cerâmica, decoração, artes gráficas e mobiliário), deflagrando assim a modernidade.

6- A Modernidade

A Prosperidade Econômica e a Arte

A mudança de século é marcada pela riqueza do café, a industrialização paulista e a vinda de imigrantes europeus. Agora, o contato com as artes europeias se torna mais estreito.

Operários (Tarsila do Amaral)

Operários (Tarsila do Amaral)

As casas, anteriormente pequenas e pobres, recebem novos desenhos e materiais. A modernização das cidades é simultânea à modernização das artes.

O modernismo brasileiro é marcado pelo desenho mais livre, a valorização de temas brasileiros, assim como a valorização das emoções nas manifestações artísticas.

A Semana de Arte Moderna e os Modernistas

Muitos alegam que a semana foi uma resposta contra as críticas lançadas por Monteiro Lobato à Anita Malfatti (1896-1964) , criando assim uma provocação à arte acadêmica.

Dentre os vários argumentos apresentados na semana, um chamava a atenção: a tentativa de abrasileiramento da língua portuguesa falada e escrita no Brasil. A linguagem moderna incorporou na literatura, características da língua falada, e a poesia aderiu ao humor e ao verso livre.

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros

Vinha da boca do povo na língua errada do povo

Língua certa do povo

Porque ele é qua fala gostoso o português do Brasil

(Evocação do Recife, Manuel Bandeira)

Muitos movimentos surgiram neste período, destancando-se os movimentos Pau Brasil (1925) e o Movimento Antropofágico (1928).

A antropofagia propunha o abrasileiramento das influências estrangeiras com um cunho político e social.

O ambiente modernista

A música moderna inicia-se com Villa-Lobos que, além de autor, projetou e desenvolveu um projeto de educação musical nas escolas públicas brasileiras. Além disso, em 1922 inauguramos a transmissão radiofônica e a era de cantores do rádio.

Chuva (Xilogravura, Oswaldo Goeldi)

Chuva (Xilogravura, Oswaldo Goeldi)

Humberto Mauro, em Cataguazes, no interior de Minas Gerais, começa a produzir filmes independentes, que o levariam a ser considerado o pai do cinema moderno brasileiro.

Data de 1928 o início da revista O CRUZEIRO, publicação esta que revelaria grandes cartunistas como Péricles, Carlos Estevão e Hilde Weber.

Na pintura, o modernismo inicialmente, assume um figurativismo com características mais expressionistas, temas regionalistas e preocupação social.

Um fator interessante deste período é que os artistas que trabalhavam solitariamente, começam a ser reunir por afinidades estéticas em grupos e associações. Organizando assim, salões e exposições. Entre estes grupos podemos citar: o Núcleo Bernadelli no Rio de Janeiro e a paulistas Sociedade Pró-Arte.

A arquitetura têm na Casa Modernista (1930), projetada pelo arquiteto russo Gregori Warchavchik, o marco da arquitetura moderna em solo brasileiro.

Retirantes (Cândido Portinari).

Retirantes (Cândido Portinari).

Os artistas, que não têm formação acadêmica e não vêm das elites, começam a ser valorizados e descobertos.

No fim da primeira metade do século XX, importantes acontecimentos colocam o Brasil no circuito internacional de Arte: em 1947, Assis Chauteaubriand funda o Museu de Arte de São Paulo (MASP); em 1948, Francisco Matazzo funda o museu de arte moderna de São Paulo (MAM-SP); logo em seguida, é inaugurado o museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ).

 

 

 

 

7- Tendências Contemporâneas

A realização da 1ª Bienal de Artes de São Paulo, coloca o Brasil no circuito internacional de acontecimentos ligados às vanguardas, ou seja, às artes renovadoras.

Embora coexistam diversas formas de expressão, o Abstracionismo tomou lugar de destaque. O abstracionismo chega também à literatura com Guimarães Rosa (Grande Sertões Veredas) e João Cabral de Melo Neto (Morte e Vida Severina).

Surge também um grande desenvolvimento das técnicas de gravura (a xilogravura e a gravura em metal).

Sem Título (Marcelo Grasmann- Litografia sobre papel)

Sem Título (Marcelo Grasmann- Litografia sobre papel)

 

O Século XX

Nos anos 1950 e 1960 há muita inquietação intelectual e uma grande tendência são os ismos. Também surge o concretismo, movimento abstrato que propõe um trabalho rigoroso com a geometria guiada pelo raciocínio.

Neste ínterim surge o neoconcretismo, movimento que reage ao rigor formal da arte concreta e busca aproximação com a op art (arte ótica) e a arte cinética (na qual a presença da luz e dos efeitos do movimento e a incorporação do espaço com formas de expressão são os temas principais). Um novidade é o fato de o espectador interagir com a obra, movimentando-a, entrando nela, vestindo-a (pg 137). Um representante dessa tendência é Hélio Oiticica (1937-1980), com seus Parangolés o que atualmente denomina-se instalação.

A principal tendência abstrata dos anos 60 passa a ser o informalismo, que produz uma expressão de grande pureza e de efeito lírico.

A figuração volta a provocar interesse de um grupo de pintores que usam imagens buscadas nos meio de comunicação, produzindo assim, uma arte politicamente engajada e narrativa.

Em 1965, a Bienal de São Paulo inclui a mostra de fotografia entre as expressões artísticas expostas.

Na década de 1970, no meios e tecnologias são usados: grafite (pintura por meio de spray em lugares públicos), instalação (disposição de elementos no espaço com a intenção de estabelecer uma relação com o espectador), arte postal ( que se utiliza de meio postal para a criação e a divulgação), arte ambiental (que modifica e se relaciona com elementos da paisagem natural, principalmente por meio da escultura e da instalação) e performance (execução momentânea de uma ação espontânea ou teatral que pode envolver a participação do público).

 

A Arte Popular

A arte popular é valorizada pelas bienais de São Paulo e pelas grandes exposições, como a dos 500 anos (2000). Geralmente, estes artistas são provenientes do meio rural, sem muita escolaridade.

A Fotografia, o Cinema e a Música Popular

Sebastião Salgado

Sebastião Salgado

Elevada à categoria de arte, vários artistas têm esta arte com qualidade e expressividade excepcionais. Um exemplo disso é Sebastião Salgado que não se considera um artista, mais sim um ativista político.

O cinema brasileiro atinge sua maturidade com uma produção popular. Em 1995, o filme O Quatrilho, de Fábio Barreto, é a primeira produção brasileira a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Há uma tendência no mundo contemporâneo de que há lugar para todas as formas de manifestação e de que há público para tudo o que se produz.

Conseguimos subverter a tendência a preferir a música estrangeira, principalmente a americana, ameaçadoramente descaracterizadora da identidade nacional, e atualmente 80% do que se ouve no Brasil é produção nacional. Hoje produzimos excelentes discos e estamos em 6º lugar no mercado fonográfico internacional. (pg 149)

Novas Tendências para o século XXI nas Artes Plásticas

O Neoexpressionismo é a influência dominante a partir dos anos 90, resgatando meios tradicionais como a pintura. As tendências figurativas se fortalecem, apesar da forte presença do abstracionismo e da arte conceitual.

Com a revolução tecnológicas, a vídeo arte torna-se importante. Notamos, também as intervenções urbana ou arte pública, assim como uma arte multiculturalista.

As tendências pós-modernistas também ganha força, como a releitura histórica e a desconstrução da obra artística.

Os artistas não se organizam mais em grupos. A individualidade é um valor que dificulta a caracterização em vertentes ou estilos.

Mais do que nunca, a arte se torna especulativa e analítica. Vender uma obra ou emocionar não são mais fatores principais da arte.

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Antropologia e Educação

etnocenstrismo

Mesmo no século XXI a sociedade parece que aprendeu pouco (ou nada aprendeu) sobre a espécie a que pertence. Ainda hoje, existe uma concepção de desenvolvimento humano travestida de superioridade classista. A ideia deste post é mostrar que nem todo ser pensa e age de maneira “certa” e que não há uma receita de história ou sociedade. Abordaremos alguns autores que foram pesquisar o desconhecido e saíram de uma visão “científica e neutra da sociedade”. Tentaram entender o ser humano fora de um padrão universal, que na verdade nada mais era que uma visão de uma classe dominante para impôr sua visão de mundo sobre a maioridade das pessoas.

Assim como na sociedade, estes pesquisadores acabaram se espelhando na antropologia para desmascar alguns mitos sobre aprendizado e, principalmente, sobre o taxamento daqueles que não conseguem o sucesso escolar.

A visão Positivista da Sociedade

Segundo Sarup (1980), ainda pensamos nas relações sociais com uma abordagem recorrente da SOCIOLOGIA POSITIVISTA (corrente esta criada por Auguste Comte, na qual acreditava-se em um método neutro de pesquisa e na racionalidade técnica). Segundo o autor, esta visão de mundo quando aplicada à educação, não pode ir além de uma engenharia social estreita, reformista e fragmentada (pg 14). Caso o leitor se interesse, poderá consultar o post Comportamentalismo e ver a união desta corrente psicológica com o Behaviorismo.

Os sociólogos pós-darwinianos, entre eles aparece em destaque a figura de Comte, acreditavam na teoria da evolução com um enfoque social: a sociedade evoluía num movimento ascendente, da comunidade primitiva para à megalópole civilizada. Argumentava-se que o adulto primitivo equivaleria a uma criança civilizada. A cultura primitiva, logo era mística e pré-lógica. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento técnico da sociedade em que o indivíduo se situava.

Em certos casos, as suposições de muitos educadores sobre a criança marginalizada eram semelhantes ao aspecto sociológico citado anteriormente. Por que o educando dos grupos mais pobres de nossa sociedade não tem na escola o desempenho que deveriam ter?

Do Positivismo ao Etnocentrismo

Supunha-se que as crianças, como os “primitivos”, não dispunham de instrumentos conceituais para compreender as formas de conhecimento que resultaram historicamente no conhecimento escolar. Sarup (1980) argumenta que esta visão da educação é etnocentrista. Segundo Rocha (2006), o Etnocentrismo é uma visão do mundo com a qual tomamos nosso próprio grupo como centro de tudo, e os demais grupos são pensados e sentidos pelos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência (pg 7).

Dito de outra forma: ser etnocêntrico é acreditar que só existe uma verdade (a nossa) e uma beleza (a nossa), assim como também só existem a nossa justiça e a nossa racionalidade. Em O que é etnocentrismo, o antropólogo Everardo Rocha escreve: “Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência”.

(URIARTE 2012)

Na sociedade multicultural da atualidade, a visão etnocêntrica (tendo a cultura européia como centro) acaba monopolizando a lógica formal da classe média , segundo a qual: através das “formas de conhecimento” pode haver o desenvolvimento da racionalidade e da mente. Entretanto, a definição de conhecimento varia nas diferentes culturas. Logo, as divisões que fizemos entre conteúdo escolar e não escolar podem e devem ser modificadas.

Assim como levavam os antigos nativos a ter vergonha de seu mundo, sendo prescrito um novo modo de ver o mundo pelo antropólogo ocidental; as crianças são submetidas a formas reificadas de conhecimento, que produzem uma visão mecanicista e determinista de realidade social.

A reificação foi descrita como “aquele processo histórico e politico pelo qual os produto da prática humana, as expressões objetificadas da interação do homem com outros homens e com a natureza, se tornam alienados dos produtos reais e com isso parecem à consciência como coisas autônomas e independentes”. Discutindo esses aspectos da reificação, John Holton observa que em termos políticos “reificar” significa legitimar uma prática exploradora sob a alegação de que é um padrão fatual e invariável do ajustamento humano. O pensamento reificado não apreende nunca o caráter prático, administrado, da realidade. A reificação está, é claro, implícita no conceito de alienação e é parte integrante de qualquer crítica do capitalismo.

(SARUP 1980, pg 89. Grifos meus)

Do Etnocentrismo à Relativização

Ao longo dos anos, algumas ideias travaram embates com o etnocentrismo. Uma das mais importantes foi o relativismo. Quando percebemos que “as verdades da vida” são na verdade leis impostas, e não uma “ordem natural”, estamos relativizando.

(…) Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. Relativizar é não transformar a diferença em hierarquia, em superiores e inferiores ou em bem e mal, mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença.

(ROCHA 2006, pg 20)

Relativizar é sempre mais complicado, pois saímos de nossa zona de conforto e abrir mão de nossas certezas etnocêntricas.

A nova sociologia da educação e a incorporação dos estudos antropológicos

Uma das características da “nova sociologia da educação” (NSE- corrente defendida por Sarup) é uso que faz dos estudos antropológicos. Este ramo da sociologia apresenta maneiras diferentes de ordenar não só a educação, como a própria vida. Argumenta-se que embora existam diferenças culturais, as outras culturas não são necessariamente deficientes. De fato, a existência de outras lógicas e racionalidades adequadas desafia o caráter absoluto de nossa própria cultura.

As divisões feitas entre conhecimento escolar e conhecimento não-escolar, entre trabalho teórico e prático, mental e manual, não são naturais; mas sim convencionais. Estas segregações não são imutáveis, mas sim produzidas pelos homens em certos períodos sócio-históricos. Em suma, a antropologia leva a um questionamento daquilo que normalmente aceitamos sem análise e nos dar consciência de outras maneira de fazer as coisas, e outras formas de vida (pg 15).

Uma característica importante na “nova sociologia da educação” é o uso e o interesse crescente por alguns trabalhos antropológicos, principalmente os etnógrafos (os etnógrafos recolhem dados pela observação e trabalho de campo e não são necessariamente antropólogos). As contribuições educacionais destes profissionais surgem na semelhança entre as suposições antropológicas do século XIX e os pressupostos de alguns educadores do século XX.

Em nossa sociedade, predomina a concepção que alguns indivíduos ou grupos desenvolvem capacidades intelectuais superiores, comparados com a maioria da população (uma prova disso é a massificação dos testes de QI). O desenvolvimento é visto como a aquisição de estruturas de uma ordem maior e mais elevada. Uma aplicação popular desta regra é a criança marginalizada, que acaba sendo vista como “culturalmente carente” ou um “nativo primitivo”, sem instrumentos conceituais.

Poucos trabalhos até então abordavam as diferentes culturas representadas numa sala de aula, pouco se fazia sobre os processos lógicos ou as estratégias cognitivas. Porque os pobres tendem a se dar mal nos exames escolares? Segundo Sarup (1980), estes testes ressaltam os contrastes da classe média e quantifica divergências a partir da cultura desta mesma classe média. Há ainda, o absolutismo da questão psicológico relativa aos processos de ensino/aprendizagem. A cognição não é apenas um fator psicológico, é também um processo que sofre influência cultural.

Quando tratamos de conteúdos educacionais, ocorre a “imposição” dos valores da classe média (considerados a corrente principal) e imposto a todos pela seleção, “ritmo” e avaliação do conhecimento escolar. Tendo em vista esta manobra e seu insucesso pré-determinado, argumenta-se então que o desenvolvimento cognitivo dos grupos mais pobres é embotado, ou melhor, deficientes.

Na verdade, existem lógicas diferentes, socialmente construídas e socialmente situadas entre o grupo para o qual são os modos lógicos de pensar e agir. Em nossa cultura, há a predominância da visão etnocêntrica.

Segundo os etnólogos: a cognição está relacionada com o contexto cultural, logo o conhecimento não pode ser estudado como atividade isolada de seu meio influente. Assim como a cognição, a ação sempre é dependente de um contexto situacional. Além destes dois itens, outros como: as palavras, a linguagem e os significados, deveriam ser sempre estudados em relação com o contexto local.

Além disso, as pessoas sabem fazer bem o que é importante para elas. Sarup (1980) exemplifica o caso dos ilhéus de Puluwat: estes indivíduos aprenderam a construir barcos e navegar, sendo para isso ensinados via tradição oral (dispondo, assim, de um corpo especifico de conhecimentos ao mesmo tempo práticos e úteis). Eles se locomovem em canoas sem o auxílio de uma bússola, por milhas e milhas no oceano pacifico. Esta navegação depende de aspectos do mar e do céu, baseando-se num sistema lógico tão complexo, que os ocidentais não podem reproduzi-lo sem o uso de instrumentos avançados. Desta maneira, o que é aprendido como prático em Puluwat, seria altamente teórico e abstrato em qualquer colégio naval do mundo “civilizado”. Ironicamente, quando um navegador de Puluwat é submetido aos nossos testes de QI, obtém um índice baixo.

Os testes de coeficiente de inteligência (QI) são inadequados e intransigentes, pois violam os princípios exemplificados anteriormente: a cognição se relaciona com o contexto cultural e as pessoas fazem bem aquilo que tem algum significado para elas. Da mesma maneira, eles são insuficientes para as classes mais pobres de nossa sociedade. Afinal, em uma sociedade tão complexa, encontramos diferentes modos de pensar e a diferença de raciocínio entre uma criança pobre e uma de classe média pode ser uma dado relevante na carreira escolar.

Encerramos este assunto alertando que: não existe um tipo universalista de pensamento, ou de lógica; eles não são absolutos, mas situacionalmente específicos. Aquilo que é considerado abstrato, está culturalmente situado. Devemos levar em consideração que numa sociedade de classe, algumas culturas são oprimidas e privadas de bens culturais. Sabemos que o entendimento de uma cultura é muito difícil, mas somente com a nova sociologia da educação, começamos a perceber como conhecemos pouco sobre o processo de aprendizagem dos “estrangeiros” na escola. Pouco se sabe como as crianças dão significado à experiência educacional, como elas se adaptam, interpretam e dão sentido.

REFERÊNCIAS

SARUP, Madan. Marxismo e Educação: Zahar Editores, 1980.

ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é Etnocentrismo- São Paulo: Editora Brasiliense, 2006. (Coleção Primeiros Passos)

URIARTE, Urpi Montoya. Euro, Etno e outos centrismos. Revista de História da Biblioteca Nacional, 2012. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/educacao/euro-etno-e-outros-centrismos