Ziegleanas

Retirantes (Cândido Portinari).

Retirantes (Cândido Portinari).

OS CRUZADOS NO NEOLIBERALISMO

Para os Estados Unidos e suas organizações mercenárias – a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) – , o direito à alimentação é uma aberração. Para eles, os direitos humanos são apenas os civis e os políticos.

(…)

Atualmente, as duzentas maiores sociedades ramo agroalimentar controlam cerca de uma quarto dos recursos produtivos mundiais. Tais sociedades realizam lucros geralmente astronômicos e dispõem de recursos financeiros bem superiores aos do governos da maioria dos países onde elas operam.

(…)

Apenas dez sociedades – entre as quais a Aventis, a Monsanto, a Pioneer e a Syngenta – controlam um terço do mercado mundial de sementes, cujo volume é estimado em 23 bilhões de dólares por ano, e 80% do mercado mundial de pesticidas, estimado em 28 bilhões de dólares. Dez outras sociedades, entre as quais a Cargil, controlam 57% das vendas dos 30 maiores varejistas do mundo e representam 37% das receitas da 100 maiores sociedades fabricantes de produtos alimentícios e de bebidas. E seis empresas controlam 77% do mercado de adubos: Bayer, Syngenta, BASF, Cargil, DuPont e Monsanto.

(…)

Sobre os polvos da agroindústria, João Pedro Estédile afirma: “O seu objetivo não é produzir alimentos, mas mercadorias para ganhar dinheiro”.

(ZIEGLER 2013, pg 151/153)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

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O PEDAGOGO DE FACEBOOK

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Segundo o site de humor SENSACIONALISTA, 98% dos usuários do facebook são especialistas em tudo. Dentre a gama de especialidades, sinto certo incômodo com os que classifico como PEDAGOGOS DO FACE. Este tipo de intelectual nunca pisou em um escola pública da rede básica municipal ou estadual. Geralmente, vêm da classe média e estudou nas escolas elitistas da rede privada ou federal. Adora ler tudo de educação, tem a bibliografia completa de Paulo Freire, assiste todos os dias o Canal Futura e adora participar de encontros com filósofos que nunca lecionaram fora das “universidades de ponta” onde trabalham.

Para estes pedagogos virtuais, os professores atuantes em sala de aula (principalmente nas escolas públicas) são profissionais mal formados e desatualizados que precisam de reciclagens teóricas. Afinal de contas, já estamos no pós-modernismo e é inadmissível que ainda não saibamos o que é isso. Quem sabe, o pós-modernismo pode nos ajudar a lecionar em salas com 60 alunos, com ventiladores quebrados, sem folhas ou materiais básicos. Características estas, mais do que medievais. Será que existe formação para profissionais em situação tão precária?

Segundo o intelectual pós-modernista-facebookiniano, os professores poderiam largar as salas de aula (consideradas prisões institucionais) e lecionar em ambientes alternativos: um professor de biologia pode dar aula no jardim da escola, por exemplo, ou quem sabe ir à um parque. Infelizmente, nosso “Deus” da verdade pedagógica não sabe que a maioria das escolas públicas não tem verba nem para manter um prédio, o que dirá um jardim. Muitas delas, tiveram todas as árvores derrubadas ou o jardim gradeado, já que representava perigo e custos “altíssimos” de manutenção. Árvores frutíferas são consideradas problemas em potencial: afinal de contas, um moleque pode se machucar tentando pegar um fruta, assim, melhor não tê-las. Uma outra alternativa seria o professor de educação musical trabalhar com instrumentos alternativos ou reciclados. Pena que nosso pensador nunca estudou percussão, ele não tem noção do que são 30, 40 ou 50 desses instrumentos; assim como gerenciar estes objetos em prédios sem isolamento acústicos e sem local para armazenar tudo isso. Afinal de contas, são raras as escolas que disponibilizam salas temáticas: muitos docentes chegam a trocar de sala por mais de 10 vezes ao dia. Qual profissional têm pique para várias aulas dessas durante a semana?

Já que não há jardim na escola, podemos levar a escola para o jardim. Seria ótimo se a secretaria disponibilizasse o ônibus. Seria, mas muitos professores desistiram de brigar por eles, já que têm tanto trabalho com solicitações vazias. Agora, se o prefeito aparece no evento, as verbas para o transporte surgem com uma imensa facilidade.

A inter/mega/hiper/transdisciplinaridade é a solução para as matérias arcaicas dos professores mal formados. Entretanto, como um profissional que chega a dar mais de trinta aulas por semana, trabalha em 3 escolas (assim como nos 3 turnos para ter uma condição financeira melhor) e que mal lembra do nome dos alunos (já que são mais de mil), pode encontrar tempo e condições para reunir-se com outros professores e pensar nas estratégias em conjunto? A coordenação pedagogica poderia intermediar, é claro!!! Contudo, em muitos estados e municípios este cargo praticamente não existe, a coordenadoria acaba se tornando um espaço para “encostar” o professor reabilitado, aquele mestre que perdeu a voz de tanto gritar, que desenvolveu algum problema mental, que se acidentou tentando “fugir”/separar  brigas entre alunos ou tudo isso junto.

Ele adora ler as séries, pedagogia segundo: Deleuze, Derrida, Hegel, Foucault, Marx, Hanna Arendt, Rousseau, Gramsci, entre outros. O que o pedagogo de facebook não consegue entender, porque não vive na realidade educacional, é que a teoria pode abrandar, mas nunca irá solucionar problemas de ordem estrutural: condições de trabalho dignas, salários decentes, redução das dezenas de alunos por turmas, entre outros. O professor pode até aplicar a pedagogia segundo Jesus Cristo, mas caso o mesmo Jesus não faça um milagre na estrutura escolar, pouca coisa irá mudar.

A palavra mais proclamada por este pensador é VIOLÊNCIA. A escola é violenta, as aulas são violências simbólicas, o currículo é um imposição. Nosso filósofo adora citar Foucault, só esquece de lembrar que este tema é uma via de mão dupla: o escola e o educador também são violentados (por vários motivos). Inspetores escolares? Nunca! Mesmo que só exista um para dar conta de uma prédio com 3 andares e mil crianças. Isso é VIGIAR E PUNIR, algo abominável, é uma imposição ditatorial: o docente deve trabalhar a autogestão. Muitos acreditam que crianças que são mal tratadas diariamente, pelos pais e sociedade, irão (de uma hora para outras) se organizar e manter a ordem e a paz: mesmo que sejam 60 delas dentro de uma sala de aula caindo aos pedaços e com poucas ferramentas pedagógicas disponíveis.

Sala de aula? Isso é desculpa, pois: segundo pesquisas “internacionais” a infraestrutura conta pouco quando tratamos de eficiência escolar. Mais uma vez, nosso pensador esquece que a maioria destes experimentos acontecem nos EUA ou na Inglaterra onde a variabilidade de recursos é bem menor do que no Brasil. Aqui, ainda encontramos muitas escolas com paredes sem reboco, com goteiras e onde o banheiro é o matagal mais próximo. Crer que estas condições sub-humanas não interferem nos estudos é de uma pureza mais do que intelectual.

Para o nosso especialista, todos estes problemas podem ser solucionados com um pedido formal à secretaria de educação. Ele só não sabe que “em muitos casos”, o profissional que chefia este setor está lá por indicação política, assim como nem é professor ou pedagogo (muito menos de facebook): geralmente um economista, administrador ou braço direito do gestor de plantão. Ministério público? Prefiro nem comentar…

Mesmo repetindo isso inúmeras vezes, não adianta conversar com este nosso amigo. Ele sempre classifica isso como REACIONARISMO, até mesmo com professores filiados à partidos de esquerda. Estas críticas à teoria educacional só “atrapalham o desenvolvimento” da pedagogia. Existem respostas piores: professores não são reaças, na verdade, agem com “vitimismo”.

O que mais me intriga é que este profissional mais do que preparado, poderia estar dentro de uma sala de aula (principalmente das escolas públicas), mostrando a nós, simples e mortais professores, como ensinar de uma forma correta e mais atual, como não sermos reacionários ou deixar de agir como “vítimas”. Entretanto, o pedagogo de facebook apenas filosofa. Prefere investigar a pedagogia sem ser interferido por questões emocionais. Quem sabe ele possa terminar o doutorado e ingressar numa faculdade, e assim, dar aulas sem nunca ter pisado numa sala de aula da rede pública de ensino básico. Atitude interessante?

Falar é muito fácil, é muito fácil sugerir atos heroicos e maravilhosos. O mais difícil é realizá-los. Esses mesmos espectadores se darão conta de que as coisas são uma pouco mais difíceis do que pensam se tiverem que fazer eles mesmos os atos que preconizam.”

(AUGUSTO BOAL)

 

OBS: todas as histórias aqui contadas são reais. Foram presenciadas por mim desde post selvagens de redes sociais até (pasmem) encontros com professores universitários.

Ziegleanas

Imediatamente após o fim do Estado Novo e com o restabelecimento de um mínimo de liberdades públicas, Josué de Castro lançou-se numa ação política contra as capitanias e as sociedades multinacionais estrangeiras que controlavam a maior parte da produção agrícola do Brasil. Essa produção era em grande escala destinada – neste país da fome – à exportação, que experimentou então, em face de uma Europa destruída, um crescimento formidável. Depois de 1945, o Brasil, onde tantos seres passavam fome, foi um dos maiores exportadores de alimentos do mundo.

(ZIEGLER 2013, pg 118)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

 

Josué de Castro

Boffinianas

O que se sabe do Papa João XII (955-964), sagrado com 18 anos, e da forma como exerceu o Pontificado, é pior que o exercício pagão do poder. Segundo Rops “estava metido em todas as intrigas…; a respeito dele se contam — talvez com certo exagero, mas sem dúvida com algum fundo de verdade — as piores histórias de orgiásticos banquetes nos quais, segundo se conta, os convivas faziam brindes a Lúcifer” (p. 618). Bento IX (1033-1045) foi sagrado Papa com 12 anos “já cheio de vícios, e tantos escândalos praticou que o povo romano acabou por se indignar e correr com ele” (p. 619). Entretanto, nada ultrapassa em vergonha para a Igreja o abuso inominável de poder, o que o Papa Estêvão VI (896-897) praticou com o cadáver do Papa Formoso (891-896): “O cadáver do velho Papa foi tirado do túmulo, sentado sobre uma cadeira e julgado por uma assembleia sinodal, presidida pelo novo Papa, Estêvão VI, que o odiava. Todo o seu passado foi desenterrado com ele; foram evocadas todas as suas aventuras e intrigas, e denunciaram-se também todas as suas faltas ao direito canônico. Um clérigo, aterrorizado, respondia em vez do defunto e confessava os seus ‘crimes’. Seguiu-se uma abominável cerimônia em que o morto foi privado da sua dignidade e despojado das vestes pontifícias a que aderiam as carnes putrificadas. Tiraram-lhe o próprio cilício que tinha consigo e depois cortaram-lhe os dedos da mão direita — aqueles dedos indignos que tinham abençoado o povo. E, para terminar, o cadáver foi entregue à populaça que o lançou ao rio” (p. 548-549).

(BOFF 2005, Pg 400-401)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Aula- O Som dos Instrumentos

Blog do Nikel

Olá amigos professores.

Nesta atividade, proponho uma brincadeira com a turma. Um jogo, no qual os educandos trabalham a percepção sonora e o timbre dos instrumentos.

A aula é simples, o professor apenas precisa de um reprodutor de áudio e um mapa dos instrumentos que pode ser baixado nos anexos da aula.

Além das aulas de educação musical, esta atividade pode ser aplicada por um professor de artes ou um docente que está na regência de uma turma do primeiro segmento do ensino fundamental.

Com este jogo o docente pode introduzir a noção de instrumento harmônico, melódico e percussivo. Enfim, há uma gama enorme de assuntos para abordar.

Espero ajudar, até a próxima !!!

Folha o Som dos Instrumentos (A4)

Proposta: Realizar uma brincadeira de percepção sonora e timbrística dos instrumentos.

Duração: Uma ou duas aulas (45 minutos cada).

Faixa etária: Apartir do 3º ano do ensino fundamental

Objetivos

Objetivos gerais: Desenvolver a sensibilidade estética, a…

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Boffinianas

A comunidade está inserida no mundo. Não é um mundozinho fechado com sua liturgia onde todos participam bem, com sua ação social, onde todos se conhecem. Ela está inserida num mundo aberto, onde há conflitos, luta de classes, exploração, onde se usa a religião para acalmar os ânimos para que tudo possa correr como sempre correu, isto é, os poderosos por cima, explorando, o povo por baixo, sofrendo.

É possível uma libertação intrassistêmica: remanejam-se as posições, gente sofre menos, há progresso porque se fazem obras de assistência necessárias, mas não se estouram os limites do cercado que oprime e prende todo mundo. Alguém pode arranjar sua liberdade dentro de uma prisão: aceita esse limite e se vira até viver mais ou menos; faz progressos mas sempre dentro da prisão. O problema é que o homem, entusiasmado com os progressos que faz dentro da prisão, acaba esquecendo a prisão; defende sua situação, olvidado que defende a prisão que lhe tirou a liberdade e o mantém preso aí dentro. O problema é conscientizar a prisão; fazer com que não haja mais homens aí dentro, criar condições para que todos sejam livres. Não basta fazer progressos dentro da prisão; há que sair daí num longo processo cm que a prisão é desmontada, transformada totalmente de forma a não ser mais prisão nenhuma.

Tal libertação como processo exige uma análise mais detalhada da sociedade, como funciona a produção da riqueza, como ela é distribuída, como cada um se situa dentro da relação capital-trabalho-participação. A comunidade que despertou para isso já se conscientiza dos direitos humanos violados, da pobreza estrutural, das injustiças sociais que são fruto, não da má vontade do patrão, mas da organização de todo um sistema que geralmente é apresentado como bom, cristão, democrático etc. A fé cristã desperta para a macrocaridade, para a justiça social, para o significado verdadeiro da libertação global de Jesus Cristo, que exige uma transformação não só da pessoa, mas também das estruturas.

(BOFF 2005, Pg 274-275)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Ziegleanas

A loucura especuladora dos predadores do capital financeiro globalizado custou, no total, em 2008-2009, 8,9 trilhões de dólares aos Estados industriais do Ocidente. Em especial, tais Estados gastaram bilhões de dólares para socorrer seus banqueiros delinquentes.

(…) A ONG suíça Déclaration de Berne fez o seguinte cálculo: os 8,9 trilhões de dólares que os governos dos Estados industriais entregaram a seus banqueiros equivalem a 75 anos de ajuda pública ao desenvolvimento.

(ZIEGLER 2013, pg 81)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013