Ziegleanas

E aqueles que, no Sul, são chamados de “abutres do FMI” chegaram mesmo a considerar que os argumentos empregados pelos partidários do direito à alimentação derivam da pura ideologia, da cegueira doutrinária ou, pior, da dogmática comunista.

Há um desenho de Plantu¹ em que se vê um menino africano em farrapos, de pé atrás de um gordo homem branco que usa gravata e óculos e está sentado a uma mesa que exibe uma opípara refeição. O menino diz: “Tenho fome”. O branco gordo volta-se para ele e replica: “Não me venha falar de política!”.

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1- Jean Plantureux (Plantu), nascido em Paris, em 1951, é um dos mais conhecidos desenhistas franceses contemporâneos – inclusive no Brasil, onde expõe desde os anos 1980. Caricaturista do Le Monde, notabilizou-se pelo traço singular a serviço da arguta crítica social e política (N.T.).

(ZIEGLER 2013, pg 168)

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

Ziegleanas

Retirantes (Cândido Portinari).

Retirantes (Cândido Portinari).

OS CRUZADOS NO NEOLIBERALISMO

Para os Estados Unidos e suas organizações mercenárias – a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) – , o direito à alimentação é uma aberração. Para eles, os direitos humanos são apenas os civis e os políticos.

(…)

Atualmente, as duzentas maiores sociedades ramo agroalimentar controlam cerca de uma quarto dos recursos produtivos mundiais. Tais sociedades realizam lucros geralmente astronômicos e dispõem de recursos financeiros bem superiores aos do governos da maioria dos países onde elas operam.

(…)

Apenas dez sociedades – entre as quais a Aventis, a Monsanto, a Pioneer e a Syngenta – controlam um terço do mercado mundial de sementes, cujo volume é estimado em 23 bilhões de dólares por ano, e 80% do mercado mundial de pesticidas, estimado em 28 bilhões de dólares. Dez outras sociedades, entre as quais a Cargil, controlam 57% das vendas dos 30 maiores varejistas do mundo e representam 37% das receitas da 100 maiores sociedades fabricantes de produtos alimentícios e de bebidas. E seis empresas controlam 77% do mercado de adubos: Bayer, Syngenta, BASF, Cargil, DuPont e Monsanto.

(…)

Sobre os polvos da agroindústria, João Pedro Estédile afirma: “O seu objetivo não é produzir alimentos, mas mercadorias para ganhar dinheiro”.

(ZIEGLER 2013, pg 151/153)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

Ziegleanas

Imediatamente após o fim do Estado Novo e com o restabelecimento de um mínimo de liberdades públicas, Josué de Castro lançou-se numa ação política contra as capitanias e as sociedades multinacionais estrangeiras que controlavam a maior parte da produção agrícola do Brasil. Essa produção era em grande escala destinada – neste país da fome – à exportação, que experimentou então, em face de uma Europa destruída, um crescimento formidável. Depois de 1945, o Brasil, onde tantos seres passavam fome, foi um dos maiores exportadores de alimentos do mundo.

(ZIEGLER 2013, pg 118)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013.

 

Josué de Castro

Boffinianas

O que se sabe do Papa João XII (955-964), sagrado com 18 anos, e da forma como exerceu o Pontificado, é pior que o exercício pagão do poder. Segundo Rops “estava metido em todas as intrigas…; a respeito dele se contam — talvez com certo exagero, mas sem dúvida com algum fundo de verdade — as piores histórias de orgiásticos banquetes nos quais, segundo se conta, os convivas faziam brindes a Lúcifer” (p. 618). Bento IX (1033-1045) foi sagrado Papa com 12 anos “já cheio de vícios, e tantos escândalos praticou que o povo romano acabou por se indignar e correr com ele” (p. 619). Entretanto, nada ultrapassa em vergonha para a Igreja o abuso inominável de poder, o que o Papa Estêvão VI (896-897) praticou com o cadáver do Papa Formoso (891-896): “O cadáver do velho Papa foi tirado do túmulo, sentado sobre uma cadeira e julgado por uma assembleia sinodal, presidida pelo novo Papa, Estêvão VI, que o odiava. Todo o seu passado foi desenterrado com ele; foram evocadas todas as suas aventuras e intrigas, e denunciaram-se também todas as suas faltas ao direito canônico. Um clérigo, aterrorizado, respondia em vez do defunto e confessava os seus ‘crimes’. Seguiu-se uma abominável cerimônia em que o morto foi privado da sua dignidade e despojado das vestes pontifícias a que aderiam as carnes putrificadas. Tiraram-lhe o próprio cilício que tinha consigo e depois cortaram-lhe os dedos da mão direita — aqueles dedos indignos que tinham abençoado o povo. E, para terminar, o cadáver foi entregue à populaça que o lançou ao rio” (p. 548-549).

(BOFF 2005, Pg 400-401)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Ziegleanas

A loucura especuladora dos predadores do capital financeiro globalizado custou, no total, em 2008-2009, 8,9 trilhões de dólares aos Estados industriais do Ocidente. Em especial, tais Estados gastaram bilhões de dólares para socorrer seus banqueiros delinquentes.

(…) A ONG suíça Déclaration de Berne fez o seguinte cálculo: os 8,9 trilhões de dólares que os governos dos Estados industriais entregaram a seus banqueiros equivalem a 75 anos de ajuda pública ao desenvolvimento.

(ZIEGLER 2013, pg 81)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013

Ziegleanas

Em 27 de dezembro de 2008, as forças aéreas, terrestres e navais de Israel desencadearam um assalto generalizado contra as infraestruturas e os habitantes do gueto de Gaza. 1.444 palestinos, entre os quais 348 crianças, foram mortos, muitos com a utilização de armas que Israel experimentava pela primeira vez. Uma das principais armas “testadas” contra as mulheres, crianças e homens de Gaza foi a Dense Inert Metal Explosive (DIME), transportada por um drone; essa bomba, composta por esferas de tungstênio que explodem no interior do corpo, literalmente dilacera a vítima.

(…) O governo de Tel Aviv permite a entrada no gueto somente do alimento necessário para evitar uma fome generalizada, que seria muito visível no plano internacional. Ele organiza a subalimentação e a má nutrição.

(ZIEGLER 2013, pg 72-73)

 

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013

 

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Zieglianas

A este país [Níger] de fomes recorrentes, onde a seca expõe periodicamente homens e animais à subalimentação e à má nutrição, o FMI impôs a liquidação dos estoques de reservas controladas pelo Estado – que se elevavam a 40.000 toneladas de cereais. O Estado conservava em seus depósitos montanhas de sacos de milho, cevada e trigo precisamente para socorrer, nas situações de emergência (secas, inundações ou ataques de gafanhotos), as populações ,mais vulneráveis. Mas o departamento africano do FMI, sediado em Washington, considera que tais reservas distorcem o livre funcionamento do mercado. Em resumo: que o comércio de cereais não pode ser objeto de intervenção estatal, uma vez que esta viola o sacrossanto dogma do livre-comércio.

(…)

O Níger é uma neocolônia francesa. O país é o segundo mais pobre do planeta, conforme o Indicador do Desenvolvimento Humano do PNUD. Imensas riquezas estão adormecidas em seu subsolo. Depois do Canadá, o Níger é o maior produtor de urânio do mundo. Mas, atenção: a Areva, sociedade controlada pelo Estado frânces, exerce o monopólio da exploração das minas de Arlit. Os tributos pagos pela Areva ao governo de Niamey são ridiculamente baixos.

(ZIEGLER 2013, pg 64)

ZIEGLER, Jean. Destruição em massa: geopolítica da fome; tradução José Paulo Neto . 1ª edição. São Paulo: Cortez 2013