Boffinianas

O que se sabe do Papa João XII (955-964), sagrado com 18 anos, e da forma como exerceu o Pontificado, é pior que o exercício pagão do poder. Segundo Rops “estava metido em todas as intrigas…; a respeito dele se contam — talvez com certo exagero, mas sem dúvida com algum fundo de verdade — as piores histórias de orgiásticos banquetes nos quais, segundo se conta, os convivas faziam brindes a Lúcifer” (p. 618). Bento IX (1033-1045) foi sagrado Papa com 12 anos “já cheio de vícios, e tantos escândalos praticou que o povo romano acabou por se indignar e correr com ele” (p. 619). Entretanto, nada ultrapassa em vergonha para a Igreja o abuso inominável de poder, o que o Papa Estêvão VI (896-897) praticou com o cadáver do Papa Formoso (891-896): “O cadáver do velho Papa foi tirado do túmulo, sentado sobre uma cadeira e julgado por uma assembleia sinodal, presidida pelo novo Papa, Estêvão VI, que o odiava. Todo o seu passado foi desenterrado com ele; foram evocadas todas as suas aventuras e intrigas, e denunciaram-se também todas as suas faltas ao direito canônico. Um clérigo, aterrorizado, respondia em vez do defunto e confessava os seus ‘crimes’. Seguiu-se uma abominável cerimônia em que o morto foi privado da sua dignidade e despojado das vestes pontifícias a que aderiam as carnes putrificadas. Tiraram-lhe o próprio cilício que tinha consigo e depois cortaram-lhe os dedos da mão direita — aqueles dedos indignos que tinham abençoado o povo. E, para terminar, o cadáver foi entregue à populaça que o lançou ao rio” (p. 548-549).

(BOFF 2005, Pg 400-401)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Boffinianas

A comunidade está inserida no mundo. Não é um mundozinho fechado com sua liturgia onde todos participam bem, com sua ação social, onde todos se conhecem. Ela está inserida num mundo aberto, onde há conflitos, luta de classes, exploração, onde se usa a religião para acalmar os ânimos para que tudo possa correr como sempre correu, isto é, os poderosos por cima, explorando, o povo por baixo, sofrendo.

É possível uma libertação intrassistêmica: remanejam-se as posições, gente sofre menos, há progresso porque se fazem obras de assistência necessárias, mas não se estouram os limites do cercado que oprime e prende todo mundo. Alguém pode arranjar sua liberdade dentro de uma prisão: aceita esse limite e se vira até viver mais ou menos; faz progressos mas sempre dentro da prisão. O problema é que o homem, entusiasmado com os progressos que faz dentro da prisão, acaba esquecendo a prisão; defende sua situação, olvidado que defende a prisão que lhe tirou a liberdade e o mantém preso aí dentro. O problema é conscientizar a prisão; fazer com que não haja mais homens aí dentro, criar condições para que todos sejam livres. Não basta fazer progressos dentro da prisão; há que sair daí num longo processo cm que a prisão é desmontada, transformada totalmente de forma a não ser mais prisão nenhuma.

Tal libertação como processo exige uma análise mais detalhada da sociedade, como funciona a produção da riqueza, como ela é distribuída, como cada um se situa dentro da relação capital-trabalho-participação. A comunidade que despertou para isso já se conscientiza dos direitos humanos violados, da pobreza estrutural, das injustiças sociais que são fruto, não da má vontade do patrão, mas da organização de todo um sistema que geralmente é apresentado como bom, cristão, democrático etc. A fé cristã desperta para a macrocaridade, para a justiça social, para o significado verdadeiro da libertação global de Jesus Cristo, que exige uma transformação não só da pessoa, mas também das estruturas.

(BOFF 2005, Pg 274-275)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Boffinianas

A fé não aliena do mundo, nem cria uma comunidade apartada dos demais homens; é um fermento de esperança e de amor jamais vencidos, que apostam na força dos fracos e na infalibilidade da causa da justiça e da fraternidade. O interesse pelo céu não faz esquecer a terra; pelo contrário, o céu depende daquilo que fizermos na terra e com a terra. Uma Igreja assim comprometida com as causas dos espoliados deste século confere credibilidade àquilo que a fé proclama e a esperança promete; desvela um rosto de Cristo capaz ainda de fascinar espíritos atentos e insatisfeitos com a ordem deste mundo. As comunidades comprovam que se pode ser cristão sem ser conservador, que se pode ser homem de fé e ao mesmo tempo comprometido com o destino da sociedade, que se pode esperar contra a esperança e na eternidade sem perder os pés no chão firme e o empenho na luta por um amanhã melhor, ainda aqui dentro de nossa história.

(BOFF 2005, Pg 250-251)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Boffinianas

Lutando pela libertação econômica, social e política que abre a perspectiva para uma libertação em plenitude no Reino de Deus, ela está a serviço de uma causa universal. O capitalismo como sistema de convivência dissimétrica se apresenta como um empecilho à universalidade da Igreja na medida em que ele realiza somente os interesses de uma classe. Uma sociedade democrática e socialista ofereceria melhores condições objetivas para uma expressão mais plena da catolicidade da Igreja. Em outros termos, no capitalismo a catolicidade da Igreja corre o risco de permanecer na pura intencionalidade, da utilização dos mesmos símbolos, mas com conteúdos diferentes consoante a situação de classe. Ricos e pobres comungam juntos na igreja, mas se excomungam mutuamente na fábrica. Se na fábrica houvesse comunhão, a comunhão eucarística expressaria não apenas a comunhão escatológica no termo da história, mas já agora a comunhão real da sociedade.

(BOFF 2005, Pg 248)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Boffinianas

Jesus, os Apóstolos e as primeiras comunidades cristãs eram gente do povo, pobres e membros de classes subjugadas. Nunca na Igreja se perdeu a memória das origens humildes; entretanto com a construção de um regime de cristandade estas origens humildes foram mitizadas; a mensagem libertadora de Jesus sofreu um sequestro por parte dos grupos dominantes em função de seus interesses.

(BOFF 2005, Pg 245)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Boffinianas

O fato de ser pobre e fraco não constitui apenas um dado sociológico; aos olhos da fé constitui um acontecimento teológico; o pobre, evangelicamente, significa uma epifania do Senhor; sua existência é um desafio lançado a Deus mesmo, que resolveu,um dia, intervir para restabelecer a justiça, porque a pobreza exprime uma quebra da justiça porque ela não é gerada espontaneamente, mas por um modo de produção expropriador. São os pobres os naturais portadores da utopia do Reino de Deus; são eles que carregam a esperança e a eles deve pertencer futuro.

(BOFF 2005, Pg 241)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005

Boffinianas

As classes dominantes em sua estratégia hegemônica procurarão incorporar a Igreja a serviço da ampliação, consolidação e legitimação de sua dominação, especialmente para conseguir a aceitação da hegemonia por todos os indivíduos e grupos sociais. O campo religioso-eclesiástico é fortemente pressionado a se organizar de tal forma que se ajuste aos interesses das classes hegemônicas mediante vários tipos de estratégias econômicas, jurídico-políticas, culturais e até repressivas. A Igreja desempenha então a função conservadora e legitimadora do bloco histórico imperante.

(BOFF 2005, Pg 232)

BOFF, Leonardo. Igreja: Carisma e Poder. Rio de Janeiro: Record, 2005