O PEDAGOGO DE FACEBOOK

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Segundo o site de humor SENSACIONALISTA, 98% dos usuários do facebook são especialistas em tudo. Dentre a gama de especialidades, sinto certo incômodo com os que classifico como PEDAGOGOS DO FACE. Este tipo de intelectual nunca pisou em um escola pública da rede básica municipal ou estadual. Geralmente, vêm da classe média e estudou nas escolas elitistas da rede privada ou federal. Adora ler tudo de educação, tem a bibliografia completa de Paulo Freire, assiste todos os dias o Canal Futura e adora participar de encontros com filósofos que nunca lecionaram fora das “universidades de ponta” onde trabalham.

Para estes pedagogos virtuais, os professores atuantes em sala de aula (principalmente nas escolas públicas) são profissionais mal formados e desatualizados que precisam de reciclagens teóricas. Afinal de contas, já estamos no pós-modernismo e é inadmissível que ainda não saibamos o que é isso. Quem sabe, o pós-modernismo pode nos ajudar a lecionar em salas com 60 alunos, com ventiladores quebrados, sem folhas ou materiais básicos. Características estas, mais do que medievais. Será que existe formação para profissionais em situação tão precária?

Segundo o intelectual pós-modernista-facebookiniano, os professores poderiam largar as salas de aula (consideradas prisões institucionais) e lecionar em ambientes alternativos: um professor de biologia pode dar aula no jardim da escola, por exemplo, ou quem sabe ir à um parque. Infelizmente, nosso “Deus” da verdade pedagógica não sabe que a maioria das escolas públicas não tem verba nem para manter um prédio, o que dirá um jardim. Muitas delas, tiveram todas as árvores derrubadas ou o jardim gradeado, já que representava perigo e custos “altíssimos” de manutenção. Árvores frutíferas são consideradas problemas em potencial: afinal de contas, um moleque pode se machucar tentando pegar um fruta, assim, melhor não tê-las. Uma outra alternativa seria o professor de educação musical trabalhar com instrumentos alternativos ou reciclados. Pena que nosso pensador nunca estudou percussão, ele não tem noção do que são 30, 40 ou 50 desses instrumentos; assim como gerenciar estes objetos em prédios sem isolamento acústicos e sem local para armazenar tudo isso. Afinal de contas, são raras as escolas que disponibilizam salas temáticas: muitos docentes chegam a trocar de sala por mais de 10 vezes ao dia. Qual profissional têm pique para várias aulas dessas durante a semana?

Já que não há jardim na escola, podemos levar a escola para o jardim. Seria ótimo se a secretaria disponibilizasse o ônibus. Seria, mas muitos professores desistiram de brigar por eles, já que têm tanto trabalho com solicitações vazias. Agora, se o prefeito aparece no evento, as verbas para o transporte surgem com uma imensa facilidade.

A inter/mega/hiper/transdisciplinaridade é a solução para as matérias arcaicas dos professores mal formados. Entretanto, como um profissional que chega a dar mais de trinta aulas por semana, trabalha em 3 escolas (assim como nos 3 turnos para ter uma condição financeira melhor) e que mal lembra do nome dos alunos (já que são mais de mil), pode encontrar tempo e condições para reunir-se com outros professores e pensar nas estratégias em conjunto? A coordenação pedagogica poderia intermediar, é claro!!! Contudo, em muitos estados e municípios este cargo praticamente não existe, a coordenadoria acaba se tornando um espaço para “encostar” o professor reabilitado, aquele mestre que perdeu a voz de tanto gritar, que desenvolveu algum problema mental, que se acidentou tentando “fugir”/separar  brigas entre alunos ou tudo isso junto.

Ele adora ler as séries, pedagogia segundo: Deleuze, Derrida, Hegel, Foucault, Marx, Hanna Arendt, Rousseau, Gramsci, entre outros. O que o pedagogo de facebook não consegue entender, porque não vive na realidade educacional, é que a teoria pode abrandar, mas nunca irá solucionar problemas de ordem estrutural: condições de trabalho dignas, salários decentes, redução das dezenas de alunos por turmas, entre outros. O professor pode até aplicar a pedagogia segundo Jesus Cristo, mas caso o mesmo Jesus não faça um milagre na estrutura escolar, pouca coisa irá mudar.

A palavra mais proclamada por este pensador é VIOLÊNCIA. A escola é violenta, as aulas são violências simbólicas, o currículo é um imposição. Nosso filósofo adora citar Foucault, só esquece de lembrar que este tema é uma via de mão dupla: o escola e o educador também são violentados (por vários motivos). Inspetores escolares? Nunca! Mesmo que só exista um para dar conta de uma prédio com 3 andares e mil crianças. Isso é VIGIAR E PUNIR, algo abominável, é uma imposição ditatorial: o docente deve trabalhar a autogestão. Muitos acreditam que crianças que são mal tratadas diariamente, pelos pais e sociedade, irão (de uma hora para outras) se organizar e manter a ordem e a paz: mesmo que sejam 60 delas dentro de uma sala de aula caindo aos pedaços e com poucas ferramentas pedagógicas disponíveis.

Sala de aula? Isso é desculpa, pois: segundo pesquisas “internacionais” a infraestrutura conta pouco quando tratamos de eficiência escolar. Mais uma vez, nosso pensador esquece que a maioria destes experimentos acontecem nos EUA ou na Inglaterra onde a variabilidade de recursos é bem menor do que no Brasil. Aqui, ainda encontramos muitas escolas com paredes sem reboco, com goteiras e onde o banheiro é o matagal mais próximo. Crer que estas condições sub-humanas não interferem nos estudos é de uma pureza mais do que intelectual.

Para o nosso especialista, todos estes problemas podem ser solucionados com um pedido formal à secretaria de educação. Ele só não sabe que “em muitos casos”, o profissional que chefia este setor está lá por indicação política, assim como nem é professor ou pedagogo (muito menos de facebook): geralmente um economista, administrador ou braço direito do gestor de plantão. Ministério público? Prefiro nem comentar…

Mesmo repetindo isso inúmeras vezes, não adianta conversar com este nosso amigo. Ele sempre classifica isso como REACIONARISMO, até mesmo com professores filiados à partidos de esquerda. Estas críticas à teoria educacional só “atrapalham o desenvolvimento” da pedagogia. Existem respostas piores: professores não são reaças, na verdade, agem com “vitimismo”.

O que mais me intriga é que este profissional mais do que preparado, poderia estar dentro de uma sala de aula (principalmente das escolas públicas), mostrando a nós, simples e mortais professores, como ensinar de uma forma correta e mais atual, como não sermos reacionários ou deixar de agir como “vítimas”. Entretanto, o pedagogo de facebook apenas filosofa. Prefere investigar a pedagogia sem ser interferido por questões emocionais. Quem sabe ele possa terminar o doutorado e ingressar numa faculdade, e assim, dar aulas sem nunca ter pisado numa sala de aula da rede pública de ensino básico. Atitude interessante?

Falar é muito fácil, é muito fácil sugerir atos heroicos e maravilhosos. O mais difícil é realizá-los. Esses mesmos espectadores se darão conta de que as coisas são uma pouco mais difíceis do que pensam se tiverem que fazer eles mesmos os atos que preconizam.”

(AUGUSTO BOAL)

 

OBS: todas as histórias aqui contadas são reais. Foram presenciadas por mim desde post selvagens de redes sociais até (pasmem) encontros com professores universitários.

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6 pensamentos sobre “O PEDAGOGO DE FACEBOOK

  1. Uau… um post com cara de desabafo. O facebook está cada vez mais a serviço dos “experts” [no mesmo sentido da publicação do SENSASIONALISTA]. e concordo que este perfil de “educador” ñ está só lá… são personagens reais, sempre cheios de conselhos e soluções mágicas p/ todos.
    Na minha percepção a universidade é apenas um lugar de encontro comum para quem pensa dessa maneira, porém o perfil que você traçou no post não é algo exclusivo da universidade, ou dos programas de pós-graduação, ou dos doutores… assim como a questão do Paulo Freire, pós-modernismo, especialização ou doutorado se apresentam como SINTOMAS de uma maneira pequena de entender os problemas do universo educativo.
    [foi o q pensei nesse momento. Rende mais…em breve volto]

    abço

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  2. Além da valorização do professor em toda a sua amplitude e desdobramentos (salários, valorização social etc.) a melhoria da qualidade da educação acontecerá na medida em que o país melhorar a qualidade de vida da sua população, valorizar a nossa cultura e desvincular-se do modelo de práticas curriculares eurocentrista, uniformizadora e colonizadora. Por enquanto, qualquer intervenção nas escolas é apenas um paliativo e isso não dispensa qualquer ação dos sistemas de ensino. Por exemplo, capacitar os educadores é muito importante, mas hoje não é esse o principal problema. O maior problema é tê-los. Ninguém quer ser professor com o salário que ganha e com as condições de trabalho vigente. Esses teóricos facebookianos que acham magnífico se exporem, muitas vezes, julgam com propostas subjetivas e superficiais. A objetividade é uma premissa de quem está na sala de aula e “sentem na carne” a realidade. Esses professores que estão lá na ponta (na sala de aula) são os que deveriam ser pesquisadores e formuladores de soluções para amenizar os entraves educacionais.

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  3. Existe uma fábula entre as pessoas que estão nos cursos de licenciatura, principalmente as de instituições públicas, de que podem adiar o desemprego com pós-graduação. Já, diferentemente, os que começam cedo na “lida”, como professores substitutos, nunca têm tempo para ficar de bobeira nos botecos, ou discutindo as tessituras do poder (intra)escolar de boas no café, porque tem que preencher os diários de classe ou corrigir provas. Se gabam de ter debatido gênero profundamente com seus alunos, mas durante o estágio no ambiente asséptico, sob condições ideais de temperatura e pressão, das Escolas de Aplicação. Ao terminarem o mestrado ou doutorado, e não enxergando outro lugar para ir – sim, a fonte dos concursos públicos secou, baby -, terão que enfiar seu francês-enrólation e todas suas preocupações e inovaçoes pedagógicas, todas as suas palestras do TEDx debaixo do braço, e encarar a dura realidade de uma escola pública. Quem consegue fazer a passagem da vida-boa para a boa-vida é porque já nasceu em berço de ouro – o que é a maioria dos casos – ou ralou pra caralho (desculpem o palavrão, mas é pra ressaltar a trabalheira que dá) para conseguir terminar um mestrado, se virando em várias bolsas complementares e trampos temporários para se manter enquanto investia em uma (cada vez mais difícil) carreira acadêmia, cuja glória é a aprovação em algum concurso público – de preferência federal.
    Fui-sou-estou um desses frustrados que ainda estão tentando respirar depois desse choque de realidade, além de ter visto outros profissionais ingênuos e empolgados baterem com a cara na parede, tentando encontrar um jeito de dar sentido à Roma Antiga, simbiose, equações de 1o Grau, para uma sala de 6 ano com prostitutas, filhos de traficantes, gente chapada, gente violenta e violentada em todos os sentidos, filhos de pais omissos ou que são obrigados a trabalhar feito burros de carga para botar pão para dentro de casa. É bastante complicado, do alto dos seus certificados, comunicados e mini-cursos em encontros, conviver com professores que se formaram em 2 faculdades em menos tempo que você demorou para terminar sua graduação em uma federal despejando bosta líquida na sala dos professores, ou conversar sobre as humilhações da filha com retardo mental leve e sem qualquer laudo médico, com uma mãe cuja compreensão de mundo não vai além daquilo traduzido por palavras dissílabas.
    Particularmente, estou tendo que aprender a brincar à duras penas para poder descer pro play, porque quem não sabe brincar não vai.

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