A realidade da Educação Musical no Rio de Janeiro e a proposta de Jogos Digitais apresentada na Revista Música na Educação Básica

Efeito MEC (Ivan Cabral)

Efeito MEC (Ivan Cabral)

 

Jogos digitais online e ensino de música: propostas para a prática musical em grupo


Uma das finalidades principais deste artigo é direcionar os olhares para os jogos cujos objetivos não são necessariamente educativos e sim de entretenimento (pg 87). Os autores iniciam o artigo demostrando as definições de jogos de entretenimento, softwares para treinamento musical e instrumentos on-line. Demonstra-se, também, como estes jogos constituem um recurso potencial para a sala de aula. Assim, lemos na página 89:

As propostas apresentadas neste texto caracterizam-se por aliar os jogos digitais às práticas coletivas de música e podem auxiliar o professor seja na inserção do ensino de música na escola de educação básica, seja na execução de projetos não escolares (…).

Segundo o artigo, estes jogos são leves, multi plataformas e casuais. Estas características são suficientes para que os jogos sejam acessíveis em computadores de instituições públicas. Alegam também que o Brasil tem um alto grau de informatização. Assim, a maioria dos jovens e crianças do país usufrui da internet e acessa jogos virtuais.

Os autores disponibilizam um site com os jogos online. Site este bem construído e interativo. Para utilizar esta ferramenta em sala de aula são necessários os seguintes recursos: computador com acesso à internet, caixa para amplificar o som e , se possível, um aparelho de projeção.

O primeiro jogo descrito é MUSIC BLOX: um sequenciador de sons em loop. Os sons são escritos por colagem de quadrados. Várias sugestões são abordadas na primeira etapa do experimento: exploração livre, criação de desenhos ou criação de melodias e combinações harmônicas (para alunos com conhecimento musical). Segundo os autores, esta atividade pode ser aplicada com apenas um computador na sala. Caso a imagem não possa ser ampliada, o professor pode posicionar a tela do computador de frente para os alunos.

Na segunda etapa, aborda-se a prática em grupo. Em um laboratório de informática é possível a realizar uma criação coletiva. Em grupo, ou individualmente, os educandos podem compor canções a partir do jogo. Caso não haja este espaço, o artigo sugere a escolha de um padrão sonoro (ostinato). O educador deixa este ostinato tocando durante a explicação da tarefa. Assim, os estudantes internalizam a melodia que será trabalhada. Com esta melodia já entendida, os os grupos são direcionados a criar uma composição tendo o ostinato com parte desta criação. Os materiais usados nesta montagem podem ser os mais diversos: voz, corpo, instrumentos de percussão, materiais alternativos, entre outros. Posteriormente, o educando pode ser estimulado a experimentar o jogo em casa, com os colegas (pg 93).

A segunda atividade apresenta é um ótmo jogo: Sheep Beats. Um sequenciador animado, no qual 3 robôs tocam: bateria, baixa e teclado. Para cada instrumento, os sons podem ser distribuídos ao longo de quatro tempos.

Para este soft, são indicadas quatro etapas:

Experimentação Livre: pode ocorrer num laboratório de informática, ou na sala de aula, com o uso de apenas uma computador: mostra-se o jogo para a turma e depois sugere-se que cada aluno experimente o jogo individualmente.

Prática musical em conjunto: o programa, quando selcionado, gera conduções harmômicas por meio dos acordes de I, II, III, IV e V graus. Sugere-se que o professor explique para os alunos como ocorre esta relação de graus, apresentando alguma música de repertório conhecido por eles. Esta poderá ser cantada enquanto o professor aponta no jogo as possibilidades harmônicas (pg 95).

Novamente, após a leitura deste artigo, algumas perguntas surgem, entre elas: os autores tratam da prática coletiva de música na educação básica. Mas, como é realizada esta prática? Com ou sem instrumentos? Em que tipo de instituição?

Uma outra alternativa , apresentada pelos pesquisadores, para a inserção destes softs na educação, é a execução de projetos não escolares. Onde estão inseridos estes projetos no cotidiano do educador musical de ensino básico da rede pública? Tenho muitos companheiros, educadores musicais do ensino público, e nenhum trabalha com projetos exteriores ao funcionamento tradicional da escola.

Em toda a revista, encontramos uma única citação à uma instituição pública de ensino básico. Neste artigo, lemos na página 90:

Os dois primeiros desses requisitos são suficientes para que o jogos sejam acessíveis em computadores de instituições públicas de ensino…

Creio que nem sempre estes requisitos (que estão detalhados no início deste post) são suficientes para a aplicação destes jogos na realidade do ensino público brasileiro. Como dito em análises passadas, muitos jovens são dependentes de auxílios sociais, muitos nem tem computador e acessam a rede somente em lan-houses. Muitos, além de excluídos sociais são excluídos digitais. Um exemplo prático disso é que este ano não consegui formar um grupo, nas turmas de 6º ano, para criar apresentações musicais em slides. Muitos alunos alegaram não ter um computador, ou quando tinham, mal conseguiam acessar a internet.

As escolas públicas cariocas contam com rede wifi, computadores, caixas de som nas salas e aparelhos de projeção. Porém, a proposta apresentada tem uma falha: a internet. Sem a internet não há como jogar online. E se não existir sinal de internet no dia ou por problemas diversos? Será que a maioria das escolas públicas conta com este tipo de infraestrutura?

É obvio que se estas ferramentas funcionassem off line, mais um passo seria dado para a democratização das mesmas.

O jogo MUSIC BLOX conta com quadrados arrumados 16 linhas verticais e 16 linhas horizontais, resultando em 256 partes. É um jogo formidável, entretanto um pouco complexo, ainda mais para crianças que nunca tiveram acesso à um instrumento musical (infelizmente a maioria das crianças das escolas públicas). Podemos criar a armadilha de apenas criar desenhos ou ficar na experimentação. Dos poucos alunos que tenho e sabem tocar algum instrumento, nenhum tem um conhecimento musical suficiente para criar melodias ou combinações harmônicas como a demonstrada no artigo, a não ser que ficassem horas ou até dias em contato constante com esta ferramenta.

Outra sugestão que merece destaque quando tratamos deste jogo é o posicionamento do computador na frente da turma, caso não haja aparelhos projetores. A prefeitura do rio conta com netbooks da marca CCE. Estes aparelhos têm uma tela menor que 10 polegadas. Será que uma tela desse tamanho será capaz de mostra imagens razoavelmente nítidas para uma turma que pode conter 40 alunos? Ou até mesmo telas maiores. Se é possível, por que professores de outras áreas não fazem o mesmo e reproduzem filmes e documentários com estes computadores?

Os próprios pesquisadore advertem que esta atitude têm melhores resultados em turmas menores, entretanto o grande número de alunos por turma ainda é uma característica da maioria das escolas brasileiras.

Muitas vezes os docentes não utilizam os projetores já que o tempo gasto com a montagem de todo aparato comprometeria grande parte da aula. Um professor de educação musical da rede pública carioca, que leciona no primário, fica apenas um tempo por semana com a turma e todo o aparato para o funcionamento do vídeo pode consumir minutos valiosos numa aula.

Quando tratamos da criação musical utilizando o mesmo jogo, outras questões surgem sobre esta aplicação: segundo a recomendação do artigo, como será a criação musical com o auxílio de percussão com crianças que nunca tiveram uma experiência musical e instrumental consolidada? Em salas que comportam 40 crianças e muitas que mal querem colaborar? E quais instrumentos de percussão estarão disponíveis?

Passar atividades para casa (como recomendado) pode ser um grande problema, muitos jovens (principalmente os mais pobres) não tem computador. Muitos professores, assim como eu, evitam contar com os trabalhos de casa. Preferem utilizar o tempo de aula: dependendo da turma, a maioria dos estudantes não faz o dever de casa.

Como utilizar uma experimentação livre numa turma com dezenas de alunos? Os autores sugerem que esta atividade terá maiores resultados em turmas menores (pg 95). Entretanto, contar com turmas menores no ensino estatal pode ser decepcionante. Vamos fazer o seguinte cálculo: se uma turma de 40 alunos experimentar o jogo, individualmente, tendo dois minutos para cada educando; levará – no mínimo – uma hora e vinte com esta etapa, sem contar o tempo de troca de uma aluno para o outro. E os outros 39? Ficarão sossegados e em silêncio? Dois minutos não será pouco tempo para entender uma ferramenta tão complexa?

Para o jogo Sheep Beats, pede-se a seguinte atividade: explicar a relação de graus presentes em músicas do cotidiano do aluno. Como explicar esta relação de graus para alunos que nunca tocaram um instrumento? Esta atividade parece bastante complexa. Em quantas aulas isso seria feito? E como cantar estes graus com estudantes que se opôe a qualquer tentativa de se expressar? Soma-se a isso, muitas vezes, um repertório de alunos que envolve músicas com apologia à sexo drogas e violência. Soma-se a isso o gosto conflitante em turmas que comportam culturas, as vezes, praticamente antagônicas dado o conflito de ideias.

E quando falamos da criação de Arranjos utilizando esta mesma ferramenta? Nesta parte, o docente escolhe uma das músicas para ser executada pelos alunos por meio do canto ou da prática instrumental. Podem ser utilizados instrumentos melódicos, percussões ou mesmo instrumentos harmônicos disponíveis na sala de aula.

Mais uma vez, insisto nesta questão: de onde sairiam estes instrumentos? Como administrar a criação de vários arranjos?

O artigo mostra ótimas ideias, entretanto estas atividades esbarram na burocracia e falta de infra-estrutura das escolas públicas e de muitas particulares. Muitas vezes, aparenta pedir um conhecimento musical prévio dos estudantes. Conhecimento este que está bem distante da realidade dos pobres brasileiros. Talvez, informar onde estas atividades foram testadas poderia lançar uma luz para os educadores que querem colocar estas ideias em prática.

Referências

ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 . Último acesso:22/07/2015

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