A Realidade do Educador Musical no Município do Rio de Janeiro e o ensino de Flauta Doce apresentado na Revista Música na Educação Básica

Charge2011-drogas

Sem Título (Ivan Cabral)

 

Flauta doce como instrumento artístico: uma experiência em sala de aula.

Os autores iniciam o estudo demonstrando que a flauta tem sido um dos instrumentos escolhidos para a prática de instrumentos musicais nas escolas. Estas práticas vem ocorrendo nas escolas por meio de projetos e aulas curriculares ou mesmo como parte das aulas de artes (pg 34). Os exemplos de trabalhos com flauta doce nas escolas apresentados são: Lenga la Lenga; Flauta, flautinha e flautão; e Projeto Guri. Todas as atividades descritas no artigo são baseadas no método SUZUKI de musicalização. Propõe-se que as atividades sejam aplicadas em escolas de ensino regular, em turmas desde os últimos níveis da educação infantil até o quinto ano do ensino fundamental (pg 34).

Seguindo a filosofia Suzuki, os pesquisadores defendem a interação com os pais. Contudo, advertem que a mesma é difícil quando tratamos do ensino regular. Para manter esta relação “tríadica” entre os responsáveis, professores e alunos; outras formas de aproximação precisam existir. Entre as sugestões levantadas, destacarei aquelas que me chamaram a atenção:

– Tarefas que envolvam pesquisa e auxílio dos pais

– Cartazes que envolvam pesquisas e auxilio dos pais

– Emails

– Disponibilização de CDs e DVDs para apreciação em casa

– Trabalhos sociais

Perdoe-me pela repetição do termo “escola”no início desta análise. Quando escuto esta palavra, o que me vem à cabeça é a escola pública. Escola essa que absorve a maioria da população brasileira e, consequentemente, o exército de pobres que não podem pagar por outra forma de ensino. Neste artigo, não consigo focalizar que “tipo específico ou não” de escola é descrita. Será a escola pública que os pesquisadores estão se referindo?

Tendo esta dúvida inicial, outra pergunta me vem à cabeça: será que o ensino deste instrumento sofre alguma dificuldade nas instituições públicas? Será que o artigo contextualiza a realidade em que o educador musical encontra no meio estatal? E os projetos relatados? São aplicáveis em todas as escolas?

Devo confessar que sou fã dos projetos citados acima pelos autores. Todos eles contribuem para a musicalização de milhares de brasileiros e todos os anos aparecem novos talentos musicais descobertos por estas iniciativas. Entretanto, nenhum é totalmente gerado, desenvolvido e mantido pelo ensino fundamental público. São ótimos exemplos de projetos, entretanto não podem servir de referência quando comparados à realidade da escola pública.

Fica muito difícil uma escola pública doar ou emprestar uma flauta doce para cada aluno. Uma alternativa é pedir para que os alunos comprem este instrumento. Entretanto, muitos se mantém com ajuda de programas sociais, assim, até 10 reais acaba se tornando uma “fortuna” para certas famílias. O docente não pode “obrigar” o educando a comprar esta flauta. Outra alternativa é o próprio professor comprar os instrumentos. Então, vamos aos cálculos:

Numa pesquisa rápida no site bondfaro.com.br (acesso no dia 13/3/2015), uma flauta doce custava 29 reais. Suponhamos que um professor consiga as flautas por 15 reais a unidade no atacado (baita promoção!).

Agora, vamos ao número de alunos: um professor com uma matrícula de 40 horas, no município do Rio de Janeiro tem a obrigação dar 28 aulas semanais. As turmas de 1º ao 5º anos (como recomendam os autores) tem uma aula de educação musical por semana. Resumindo, o docente que trabalha nesta faixa etária terá 28 turmas. Oficialmente, as turmas podem comportar até 40 educandos (as primeiras séries contêm menos de 40, no entanto os últimos anos as turmas podem passar do limite em casos excepcionais). Tudo bem! Fixaremos uma média de 30 alunos por turma, o que dá: 840 alunos.

Logo, 840 alunos x 15 reais = 12.600 reais.

Xá pra lá!

Vamos comprar as flautinhas de brinquedo, assim o educador musical só gasta 840 reais. Isso se comprar no atacado, na mais positiva da hipóteses, a flauta por 1 real.

Estas flautas de brinquedo, além de durarem pouco não afinam. Esta característica vai de encontro com o que os autores recomendam na página 38, ondem lemos:

É importante que os alunos tenham contato com instrumentos de qualidade, com profissionais que estejam atuando e trabalhando para que a flauta doce continue sendo um instrumento de excelência. Escutar gravações, assistir a vídeos, manipular flautas de diferentes tamanhos e receber visitas valorizando o trabalho e fortalecem o desenvolvimento musical, aguçando o senso crítico dos alunos.

Levando em consideração a realidade encontrada no ensino público, como uma escola poderia receber visitas? Como relatado em análises anteriores, a quem caberia os gastos com transporte e alimentação destes profissionais?

Como os professores, que muitas vezes são obrigados a ter 2 matrículas e até dobras de matrículas para manter a família, podem ser profissionais atuantes?

Os autores também indicam a execução de cartazes e tarefas que envolvam pesquisa e auxílio dos pais. Não é novidade que nós, docentes do ensino básico da rede pública, lidamos com estudantes de baixo background cultural, background este tendo como referência os conhecimentos valorizados pela escola. Afirmo que não concordo com tudo o que envolva a teoria do sociólogo francês Bourdieu, entretanto devo admitir que a falta de instrução pode dificultar a já difícil tarefa de envolver os pais em tarefas que envolvam uma cultura escolar.

Muitos pais nem concluíram o ensino fundamental. Já presenciei, inúmeras vezes, casos em que os responsáveis até tentam ajudar, mas não conseguem entender um exercício do primeiro ano primário. Eu mesmo, filho de uma nordestina do interior de Alagoas, era obrigado a pedir ajuda aos vizinhos, pois minha mãe mal sabia ler. Nestas condições, como desenvolver tarefas que envolvam os pais? Pais que tem vários filhos. Pais que em certos casos mal têm momentos com a prole, devido ao tempo que gastam no trabalho e no transporte público.

Tratando dos problemas listados acima, mandar “emails” chega a ser uma utopia. Disponibilizar CDs e DVDs, talvez seja o mais fácil. Entretanto, as mídias devem ser compradas e gravadas pelo educador musical. Sobre trabalhos sociais, não consegui entender muito bem do que se trata. Trabalho social os professores da rede pública já fazem: além de docentes, nós desempenhamos papéis que extrapolam a relação de professor/aluno pois envolvem problemas que vão além do ensino-aprendizagem. Não somos psicólogos ou assistentes sociais, porém em muitos casos, somos obrigados a desempenhar funções que são exclusivas destes profissionais.

Outra tática abordada pelos pesquisadores trata das práticas de articulação apresentadas às crianças. Recomenda-se o uso de brinquedos como cachimbos com bolinhas e a fabricação de bolinhas de sabão (pg 40). estes brinquedos são até baratos, mas quem irá comprá-los? Talvez o educador possa fabricar estes instrumentos. No meu curso de licenciatura, nunca tive uma aula do tipo. O educador teria, talvez, que pesquisar e utilizar o pouco tempo livre que dispõe para esta atividade. E o sabão? É barato! Mas, para a quantidade de alunos apresentados, o custo pode ser um pouco alto.

No método Suzuki, o repertório é compilado em uma série de livros, cada um dos quais com gravações em CD para o aluno escutar e se familiarizar com a música que estiver estudando (pg 41). Mais uma vez: se a flauta já é uma questão difícil, o que dirá a compra do livro referente ao método? As faculdades de música não poderiam desenvolver algo semelhante e disponibilizar gratuitamente estas partituras e gravações?

Na seção de atividades de interpretação, improvisação e composição; são indicadas atividades que envolvam outros instrumentos como xilofone e pandeiro (pg 45). Gostaria muito de trabalhar numa escola com xilofones… Já o pandeiro, eu tive que comprar. Outra ideia é trabalhar com atividades que envolvam experimentar outros tamanhos de flautas. Se a soprano já é um “problema”, imagine outros tamanhos. Mais uma vez, o custo pode cair no colo dos professores. Caberá a eles comprar as flautas e apresentá-las em turmas com dezenas de educandos. Como é do caso das escolas públicas.

O artigo não explicita em qual instituição foi trabalhado o experimento: oficina, laboratório ou numa escola pública de ensino básico. Nas fotos, o número máximo de alunos enquadrados é de vinte e dois estudantes. Entretanto, eles não estão tocando; mas, assistindo à uma apresentação. O número máximo de alunos utilizando a flauta doce é de 7 educandos. Nenhum deles é negro. A instituição parece ser bem conservada e conta com quadro de música e teclado de percussão. Características quase antagônicas à maioria das escolas públicas de educação básica.

Muitos professores, do município do Rio de Janeiro e de outros estados, utilizam flautas doce nas aulas de educação musical. Mas, cabe ressaltar, estas atitudes não abarcam a maioria dos estudantes da rede de ensino. Já presenciei ótimos trabalhos com flautas e copos ou percussão corporal. O problema destas atividades é que, na maioria dos casos, só toca flauta quem pode adquirir uma. Caso o educando não a tenha, ele é “rebaixado” para outro instrumento.

Outros professores compram uma quantidade de flautas compatível com o número de alunos de uma turma. O problema é que estes instrumentos tem que ser higienizados a cada fim de aula. Lembrando, um professor pode ter 28 turmas na rede carioca e dar até mais aulas em outras instituições. Acrescentamos que os educandos não levam estas flautas para casa, os estudantes mantêm contato com o instrumento em apenas um tempo de aula por semana.

Há também uma alternativa menos democrática: escolher uma turma e trabalhar com flautas nela, ou escolher uma série para lecionar o instrumento. Mas, qual turma é a melhor para ser a escolhida? Caso seja a série a solução, as crianças só terão aulas durante um ano?

Existem certas questões que doem no coração ! Principalmente, quando pensamos numa educação libertadora, democrática e acolhedora.

Estamos bem longe de equalizar esta questão !!!

Referências

ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 . Último acesso:22/07/2015

Anúncios

4 pensamentos sobre “A Realidade do Educador Musical no Município do Rio de Janeiro e o ensino de Flauta Doce apresentado na Revista Música na Educação Básica

  1. Olá, Mateus… vou tentar responder algumas perguntas suas.
    Bem, o trabalho apresentado não foi realizado em uma escola pública. Não leciono em escola pública por alguns motivos, entre eles, a demora por aceitar o licenciado em música em concursos aqui no Paraná. Quando finalmente foi aceito e eu passei em um concurso, optei por não aceitar para poder ser mais mãe, do que professora. (Na época eu teria que ficar em várias escolas e não ficaria com meus filhos). E assim, continuei em uma escola privada onde funcionava uma escola de música muito boa e eu podia trabalhar no ensino regular e com a música para bebês junto com o Miguel (meu esposo) e meus filhos.
    Quando busco referências para o meu trabalho, minha escolha não é fazer o trabalho ‘idêntico’ ou seguir à risca o que já é feito, mas procuro o que melhor pode se encaixar em minha realidade e dos meus alunos. Citei trabalhos que admiro e que aprendo com eles.
    Sobre as flautas: eu sei que não se pode obrigar o aluno comprar a flauta e eu não compraria, pois não ganho para isso. Isso é obrigação do governo, que infelizmente não o faz. Mas com tudo o que aconteceu aqui no Paraná (o Miguel é professor do Estado – leciona matemática) não vou comentar o que o nosso governo precisaria fazer. Seria possível o governo oferecer uma flauta doce de qualidade e outros tantos outros recursos? Sim! Mas…
    Eu não ensinaria flauta doce em nenhum ambiente onde os alunos teriam que usar a mesma flauta que a turma anterior usou ou usar uma flauta de brinquedo de R$1,00. Eu ministraria aula de música de outra forma utilizando outros recursos.
    Sobre a presença da família, entendo perfeitamente o que você diz em suas indagações e angústias e dia a dia escuto relatos muito tristes do Miguel em sala de aula (da escola pública). Mas nunca vou desistir de buscar a família para junto da escola. Eu acredito na família! Eu acredito que o simples fato do pai ou responsável poder escutar, olhar ou tentar acompanhar o estudo do seu filho, a diferença pode acontecer e mudanças virão. Ilusão? Sonho? Não sei!
    Os recursos que apresentamos (bola de sabão e outros) podem não ser acessíveis em praticamente todo o país, mas em pequenas cidades talvez seja um pouco mais fácil… Os exemplos podem incentivar outras ideias para os professores em diferentes situações.
    Sobre os CDs e os livros do método Suzuki, seria um absurdo não citar a existência deles, mas mesmo estando em escola particular, os alunos não compravam eu e a escola entregávamos cópias das músicas que estavam sendo trabalhadas por meio de folhas de atividades. Sim, as faculdades poderiam auxiliar o governo fazer o seu trabalho… acho que sim… No Parfor em Música que acontece aqui na UEL (Londrina) eu estimulo os alunos a proporcionarem alguns recursos aos alunos.
    Sobre os xilofones, pandeiros e flautas de tamanhos diferentes, volto a dizer que se o governo quisesse educação de qualidade, com certeza teríamos tudo isso em nossas escolas.
    Sobre as fotos: o artigo propõe o trabalho em turmas que poderiam variar do último nível da educação infantil até o o final do fundamental 1 (ou mais). Bem, nós escolhemos colocar fotos que aparecessem as crianças sem precisar esconder o rosto. Portanto, só apareceu criança que o pai permitiu na autorização. As turmas variavam de 19 alunos até 30. Hoje estou em outro colégio e o máximo de aluno é 33 por sala. A escola que apresentou o trabalho é de uma irmandade que veio da Alemanha, mas existem outras raças que estudam lá também.
    Não pense que eu não passe por problemas ou dificuldades em escola privada e que o Miguel também não passe na escola pública aqui no Paraná… Não pense que a minha família e a do Miguel também não passou por muitas dificuldades. Meu pai não tem o fundamental 1 completo, porém ele é um dos maiores exemplos de sabedoria que eu tenho em minha vida. Eu não tive a mesma sabedoria dele, mas busquei outro tipo de sabedoria e com muito esforço e muito trabalho eu encontrei muitas coisas que me auxiliassem a ser uma pessoa melhor. E era justamente isso que o Suzuki queria: tornar as crianças melhores pessoas, melhores cidadãos.
    Eu “senti” que o meu artigo e do Miguel te frustrou um pouco (ah, eu e o Miguel escrevemos juntos o artigo, pois na época ele estava cursando Música pelo PARFOR e nós fizemos um trabalho pelo método Suzuki com os alunos na UEL). Mas, (sempre existe um mas) tente colher algo que possa ser bom para você enquanto professor… algo que me impressiona quando trabalho com o método Suzuki (especialmente com professores da escola pública, no caso o parfor) é o ambiente de respeito e curiosidade que os professores se entregam e procuram cultivar em seus alunos… assim como eu e o Miguel…

    Bem… espero que você entenda minha ‘fala’, iniciei falando por mim, mas depois eu e o Miguel ‘falamos’ juntos…

    Curtir

  2. Concordo com todas as suas palavras Luciana.

    Como dito em minha análise, não quis em momento algum menosprezar o trabalho dos pesquisadores. Tanto é que coloquei o meu texto na timeline de todos aqueles que achei no facebook. Quis com isso deixar claro que não queria divulgar este texto sem o conhecimento de todos.

    Minha insistência com a escola pública é que, segundo o INEP, esta “instituição” mantêm mais de 75% dos estudantes brasileiros do ensino básico. Logo, falar de educação básica é obrigatoriamente falar de ensino público (na minha humilde opinião). Afinal de contas, as outras escolas são exceções no meio desta grande “rede de ensino”.

    Creio que os governos brasileiros têm verba para manter uma ótima estrutura musical nas escolas, entretanto, como você mesma assinalou: falta vontade política. Na minha escola faltam até folhas A4 e, infelizmente, sou eu quem acaba comprando.

    Acredito, como você, na família. Entretanto, a escola sozinha não pode fazer nada. Sobre o número de alunos, a situação carioca é ainda pior do que você relata. Eu chego a trabalhar com 47 estudantes (minha escolas é uma das poucas que ainda sobram vagas). Meus companheiros do Estado chegam a lecionar para 60 educandos. Acho ótimo sua resposta, assim quem ler o relato acima poderá entender que estas minhas críticas não são válidas para o seu artigo.

    Não me senti frustrado com seu trabalho. O que tento discutir com tudo isso é a aplicabilidade da educação musical para mais de 75% dos estudantes brasileiros. Aplicação esta que deve crescer e se modificar para encarar a realidade brasileira (em nada amigável).

    Como dito anteriormente, peço desculpas caso tenha criado algum mal entendido. Só fiz uma análise da revista tendo como base a realidade que encontramos no ensino público.

    Agradeço pela sua resposta, assim poderemos cria um diálogo envolvendo estas questões tão cruciais para o ensino básico.

    Att

    Mateus Nikel

    Curtir

    • Oi, Mateus… Não peça desculpas, não… Continue buscando diálogos… Assim aprendemos e crescemos mais. Eu fiquei muito feliz com sua análise, a frustração é com o governo… Acho que precisamos saber escolher melhor nossos governantes, pois do contrário não alcançaremos “sucesso” com nossos alunos. Um forte abraço

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s