A realidade da Educação Musical no Rio de Janeiro e o Universo de Instrumentos apresentado na Revista Música na Educação Básica

Itens escolares (Ivan Cabral)

Itens escolares (Ivan Cabral)

 

Abrem-se as cortinas: o som da orquestra e seus instrumentos

Este artigo têm a finalidade de ressaltar a importância do ato de ouvir e apresentar o universo dos instrumentos de orquestra como uma possibilidade de ampliar a experiência de escuta das crianças (editorial, pg 6)

Logo no início do artigo, a autora recomenda uma pesquisa com o objetivo de mapear os familiares dos estudantes que tocam algum instrumento. Outra atividade sugerida é a construção das características de cada família dos instrumentos e a descoberta de curiosidades dos mesmos. Para um melhor aprofundamento sobre o tema, é recomendado o TCC da própria pesquisadora.

Outras atividades recomendadas são: a construção de instrumentos musicais, pesquisa histórica sobre a origem dos instrumentos, de timbres e apresentação do repertório característico de cada instrumento. Na atividade de construção, são sugeridas atividades interdisciplinares com o objetivo de auxiliar na utilização de materiais reciclados, apresentação e decoração destes objetos. Para uma maior aprofundamento são indicados dois livros.

Seguem as recomendações de aula: após a construção dos instrumentos, solicita-se a utilização dos mesmos. Elas podem cantar, compor ou ser acompanhadas por estes instrumentos (pg 24).

O professor é aconselhado a procurar uma pessoa que toque um instrumentos de cordas e que este musicista demonstre o arco e explique como os fios do rabo de cavalo são utilizados em sua confecção. Da mesma forma, o educador deverá descobrir se há algum instrumentista de sopro para o mesmo fim.

Uma ótima dica apresentada pela pesquisadora é a divulgação de links onde podemos encontrar filmes e desenhos animados que abordam a temática orquestral. Recomenda-se trabalhar estes materiais tendo como foco a apreciação musical.

Outra atividade interessante é trabalhar com as histórias de PEDRO E O LOBO (Sergei Prokofiev) e O PIRULITO PIROU (Cartier). No artigo, encontramos o link para assistir a versão animada da Disney sobre a primeira narração. Também é indicada a leitura dos livros. Caso a estas obras não sejam encontrada na biblioteca da escola, recomenda-se a compra. Para dinamizar a leitura das obras, aconselha-se a confecção de marionetes dos personagens, flanelógrafo, projeção de slides e outros recursos criados pelo professor, em um segundo momento, pede-se a construção de máscaras e uma interpretação teatral sobre o tema.

Para um melhor aprofundamento sobre histórias sonorizadas são aconselhados duas obras encontradas em edições anteriores da mesma revista.

Para finalizar, recomenda-se a ida para um concerto didático com os alunos.

Começarei com uma primeira análise: recomenda-se o TCC da autora para uma maior aprofundamento do tema. No site http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/18626?locale=en não foi encontrada nenhuma referência da aplicação deste estudo na sala de aula do ensino público o que poderia antecipar alguns problemas relativos à aplicabilidade destas propostas, principalmente, no ensino público.

Quando tratamos de atividades de construção de instrumentos algumas dúvida surgem: quais problemas foram encontrados pela autora no desenvolvimento destas atividades? Como não são detalhadas, quantas aulas levariam? Em que ano seriam dadas? Num realidade que até um caderno é difícil (eu estou há mais de um mês cobrando por um), recolher materiais recicláveis pode ser um problema.

Onde estes materiais seriam estocados? Quem compraria as tintas? Afinal de contas, um professor com matrícula de 40 horas, no município do Rio de Janeiro, pode ter até 28 turmas. Onde guardar o material de tantos alunos?

Outra indagação: sugere-se que o educador musical conte com o apoio de outros professores para a confecção destes materiais. Creio que a pessoa mais habilitada para isso seja o professor de artes plásticas. Entretanto, as turmas tem apenas um componente artístico por ano na grade curricular carioca: educação musical, arte cênicas ou artes plásticas. Uma escola pode ter até professores destas 3 áreas, porém é impossível que eles trabalhem na mesma turma. Logo, outro professor teria que trabalhar numa atividade extra-oficialmente . E acrescento: como construir, compor e cantar com estes objetos numa turma que pode comportar até 40 educandos?

Agora, vamos tratar do pedido de encontrar musicista entre os familiares dos educandos para a apresentação em sala de aula. Todos nós sabemos da realidade que a maioria das crianças da rede pública se encontram. Muitos dos responsáveis destes estudantes nem terminaram o ensino fundamental. Muitos mal tiveram contato com um instrumento. Um professor sofre muito com a falta de tempo e com um ambiente tão desfavorável. Encontrar esses instrumentistas pode ser uma atividade frustrante. Devido, infelizmente, à elitização do ensino musical, poucas crianças da base do sistema capitalista tocam instrumentos musicais. Entre meus alunos, menos de 10 já tiveram aulas de música (tenho muito mais que 600 educandos). Quando tratamos dos pais, a situação ainda é pior. E se caso o instrumentista fosse achado? Ele se apresentaria na escola de graça? Quem faria o translado desta pessoa? Como ela seria recebida?

Este artigo conta com um grande número de obras a serem utilizadas em aula, porém não se indica se os livros são gratuitos ou não.

O problema de se pedir um livro na rede pública é que nem sempre este está disponível na biblioteca da escola. No município do Rio de Janeiro, o responsável pela sala de leitura solicita que os professores preparem uma lista de obras referentes à matriz curricular do docente para ser adquirida pela instituição. Entretanto, isso não garante que o livro será comprado. No final das contas, é melhor o professor adquirir o livro do que esperar que este seja encomendado pelo poder público. Levando em consideração os baixos salários dos professores do no Brasil, isso pode ser bastante caro. Então, não seria melhor indicar obras gratuitas?

Outro problema é quando propomos, por exemplo, a confecção de marionetes. Como fazê-las? E sobre exibir slides ? As projeções recomendadas não poderiam já estar disponibilizadas? Saliento isso, já que muitos professores chegam a dar mais de 30 aulas por semana. Tendo em vista esta realidade, tempo para confeccionar estes itens é o que mais falta. O mesmo ocorre com apresentações teatrais, como fazê-las? Um professor de educação musical se sentirá seguro ao propor isso à turma?


Concertos didáticos? A cidade do Rio de Janeiro conta com este tipo de concerto, porém ele ainda abarca uma pequena quantidade de escolas. Sendo assim, o professor escolhe apenas uma parcela mínima de estudantes para o passeio. Outro problema é o transporte desses estudantes. Nem sempre ele está garantido.

Referências

ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 . Último acesso:22/07/2015

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s