A realidade da Educação Musical no Rio de Janeiro e a Musicalização de Bebês apresentada na Revista Música na Educação Básica

Hino Nacional (Ivan Cabral)

Hino Nacional (Ivan Cabral)

Compartilhando um ambiente musical e afetivo com bebês

Este artigo apresenta possibilidades de atividades musicais destacando as relações afetivas estimuladas em aulas de música oferecidas para um grupo de bebês de oito meses a dois anos e adultos acompanhantes . As propostas descritas no estudo foram executadas dentro do laboratório de musicalização infantil, pertencente ao programa de Educação Musical da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Segundo o relato, as aulas de musicalização são bastante procuradas por pais e responsáveis (pg 9-10).

Indico as canções, partituras e atividades descritas no artigo. Elas podem e devem ser adaptadas à outros segmentos do ensino, principalmente no 1º e 2º anos do ensino fundamental. Os autores disponibilizam links onde o educador pode comprar os CDs com músicas presentes nas aulas.

O que mais chama a atenção neste trabalho é a diferença entre a infraestrutura apresentada no laboratório de musicalização infantil da universidade e a realidade da maioria das instituições de ensino básico nacional. Como descrito no artigo, as aulas de musicalização são bastante procuradas por pais e responsáveis, porém não se relata de qual classe social esses pais são provenientes e se os educandos mais velhos frequentam o ensino “gratuito” ou não. Nas fotos apresentadas, muitos educandos assemelham-se à classe média, contrastando com a imagem de muitos alunos de escolas públicas. Mesmo sendo os retratos pequenos e em preto e branco, observamos apenas uma criança negra nas imagens. Infelizmente, em um país tão desigual como o Brasil, a cor da pele pode indicar a qual estrato social o educando pertence.

Além disso, vemos pequenos grupos de crianças, nunca excedendo uma dezena. O ambiente é bem conservado e com boa estrutura. As fotografias lembram vagamente uma sala de aula do ensino regular, principalmente o público. Sinceramente, nunca vi uma proposta parecida com esta dentro do sistema de ensino carioca.

No município do Rio, as crianças entre 8 meses 2 anos podem ser matriculadas nas ainda insuficientes creches municipais ou nos EDIs (escolas de Educação Infantil). Nessas instituições, poucos pais podem participar de atividades de musicalização infantil com seus filhos. A maioria das mães confia suas crianças à estas instituições com o intuito de poder trabalhar e assim manter ou ajudar nas despesas do lar. Saliento que estas escolas abraçam a base do sistema capitalista, ou em outras palavras, os mais pobres. Famílias que demonstram dificuldades para cuidar da prole e, na maioria dos casos, dependentes de políticas sociais.

Outra característica a ser levantada é o números de crianças dentro de uma sala de aula da pré-escola carioca: bem maior que 10. Para ser mais exato, 25 oficialmente. Cabe ao educador, ou AGENTE EDUCACIONAL (profissional que atua em creches) manter atividades sem o auxílio dos pais.

Quando tratamos destes agentes educacionais, o problema ainda é maior. São ótimos profissionais que muitas vezes sacrificam até a própria saúde em prol das crianças, entretanto, têm pouca formação na área da educação. O concurso para este cargo solicita apenas o ensino médio como requisito mínimo para esta ocupação. Se na parte pedagógica não é apresentada uma situação ideal, imagine a formação musical destes profissionais.

Na oficina, algumas atividades eram executadas com o auxílio de um piano e flauta doce (pg 16). Infelizmente, na maioria das escolas voltadas para este público, não um piano, teclado ou outro instrumento harmônico. Além disso, não há profissionais para tocá-los, pois a maioria dos educadores musicais está nas séries finais do ensino fundamental, já que na falta de profissionais para a rede, dá-se prioridade aos últimos anos de escolarização. De todos os educadores musicais que conheço, apenas um trabalha em uma creche, e mesmo assim depois de anos no serviço público.


Diante da problemática
relatada, lanço uma pergunta: não seria melhor aplicar esta oficina dentro de uma escola ou creche pública de São Carlos, ou em qualquer outro município no estado de São Paulo? Afinal de contas, o ensino básico apresenta problemas que dificultam muitas propostas apresentadas no texto.

Compreendo que professores universitários estão sobrecarregados de trabalho, mas aplicar estas atividades num ambiente real, naquele que é dado para os oprimidos, não surtiria mais efeito para diminuir a opressão dos mesmos e dar uma oportunidade para os mais necessitados?

No editorial, mais exatamente na página 6, ao descrever este artigo, encontramos a seguinte frase: [as aulas de musicalização de bebês] oferecem aos professores de música exemplos que podem ser realizados com grupos semelhantes.

Mas, onde estão estes grupos semelhantes na educação básica? Principalmente a pública.

Saliento que não sei a origem das crianças e a qual público está destinado a oficina. Porém, ele parece ser bem diferente de alunos de um colégio municipal ou estadual. Levando em consideração as questões abordadas até agora, este artigo parece ótimo para crianças pertencentes à escola da classe média brasileira e pouco aplicável na realidade da educação brasileira de forma geral.

Referências

ABEM. Música na Educação Básica, nº 4. Disponível em:http://abemeducacaomusical.com.br/publicacoes.asp#t3 . Último acesso:22/07/2015

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Um pensamento sobre “A realidade da Educação Musical no Rio de Janeiro e a Musicalização de Bebês apresentada na Revista Música na Educação Básica

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