Entrevista ao portal Educamusical.org

Olá amigos.

Abaixo segue a entrevista concedida ao projeto Semanário no site Educamusical. Uma ótima entrevista comandada pelo professor Marcelo Borba (UFPel).

Levantamos questões referentes à educação musical dentro da escola pública e a relação entre teoria e prática na formação do educador que está no ensino básico público. Espero que este relato ajude a outros docentes. Perguntas são sempre bem-vindas !!!

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Semanário – Mateus Nikel

É bastante positivo a variedade de blogs, sites e portais que tem surgido na área da música e da educação musical nos últimos anos. Da mesma forma que as comunidades e os grupos de discussão em mídias sociais, os blogs representam um espaço articulado para diálogos e são importantes por valorizarem o caráter autoral em suas publicações.

Em vários momentos tive o prazer de contar com a colaboração dos colegas (blogueiros ou não) da educação musical nas postagens do “semanário” aqui no site. A cada semana tentamos viabilizar novos relatos, recomendar materiais didáticos disponíveis pela rede e divulgar trabalhos que acreditamos poder contribuir para a prática educativa dos professores de música.

Ao privilegiar a interação e a narrativa dos educadores convidados, conseguimos conhecer um pouco mais sobre os diferentes contextos e as micro-realidades da educação musical na atualidade. E sabemos como tem sido importante tais narrativas.

Seguimos com o convidado dessa semana:
Algum tempo atrás, em pesquisas pela web, encontrei o “Blog do Nikel”. O autor do blog é o educador Mateus Nikel, o qual disponibiliza na sua página diversas sugestões de atividades para educação musical e também textos autorais sobre temas variados. Os escritos de Mateus são relevantes, em minha opinião, principalmente porque partem de suas experiências cotidianas como professor de música em escolas públicas do Rio de Janeiro. As atividades disponibilizadas no Blog do Nikel trazem ainda recursos de áudios e imagens que ajudam muito no entendimento e na reutilização das propostas publicadas.

Não tive dúvidas em lançar o convite para que Mateus pudesse colaborar com o projeto “semanário”. Felizmente ele aceitou participar e publico então a apresentação enviada pelo educador.

Olá, sou Mateus Nikel, tenho 28 anos e trabalho como professor de educação musical na prefeitura do Rio de Janeiro, mais especificamente na Escola Municipal Monteiro Lobato (Guaratiba/Zona Oeste carioca). Sou licenciado em educação musical pela Escola de Música da UFRJ e, desde o ano de 2013, leciono em escolas públicas de ensino básico.

Já ministrei aulas para turmas do primeiro e segundo segmentos do ensino fundamental, assim como turmas de realfabeização (Projetos Acelera e Realfa) e EJA (PEJA). Atualmente, atuo do primeiro ao sexto ano do ensino fundamental.” (Mateus Nikel)

“Para se ter ideia desta problemática, até fazer uma simples roda é uma ação quase utópica (e praticamente todo método de musicalização sugere uma). As salas de aula são planejadas para a disposição tradicional das mesas e cadeiras, dificultando assim outra forma de organização. É óbvio que o professor pode empilhar as carteiras. Porém ele só tem um tempo de aula para empilhar as mesas e cadeiras, fazer as atividades na roda, arrumar a sala com antes e fazer a chamada. Soma-se a isso os baixos salário que obrigam o profissional da educação a dar 10 ou mais aulas por dia. Qual docente tem pique para arrumar 10 salas num dia?”

 

Marcelo Borba: Olá Mateus, como surgiu a ideia de fazer publicações relacionadas a educação musical via blog? Qual seus objetivos com essa iniciativa?

Mateus Nikel: Na verdade não foi uma ideia, mas sim uma necessidade. Para explicar isso melhor tenho que contar sobre a minhas história com a educação…

Quando entrei na rede pública, pude comprovar na prática as críticas que fazia à minha formação: muito pouco do que aprendi no curso de licenciatura em música pode ser aplicado na realidade do ensino público brasileiro. Em outras palavras, muita teoria e pouca vivência prática.

Falava-se e ainda fala-se muito em paisagem sonora, percussão corporal, parlendas e outras poucas atividades. Entretanto, não se situava estas atividades no contexto público escolar, na quantidade de aulas e no planejamento curricular da disciplina. Quando criávamos algo, seguíamos parâmetros das escolas federais (CAPs, IFs e Colégio Pedro II) que estão bem distantes do ensino de forma geral. Eu mesmo, fui obrigado a estagiar no CAP/UFRJ: uma instituição com ótimo padrão de ensino, mas que atende praticamente à classe média carioca, ficando assim bem distante da realidade da docência pública de uma forma geral.

E foi assim que me formei e encarei uma realidade nada animadora. Minha primeira escola foi dentro da favela de Antares (uma das mais pobres e violentas do Rio de Janeiro). Crianças agressivas, desamparadas e convivendo com o tráfico de drogas (o baile funk era em frente a escola e convivíamos com o tráfico diariamente). Não havia instrumentos disponíveis, só contava com uma caneta “pilot” e o quadro. Já tinha o blog nesta época que servia como banco de artigos e outras publicações. Devido à violência da região (que era refletida no comportamento discente), acabei me decepcionando com o magistério e comecei a estudar para concursos em outras ocupações. Foi aí que comecei a utilizar o blog de forma mais autoral: escrevia resumos e fichamentos sobre as bibliografias estudadas e divulgava para quem estivesse precisando.

A situação na favela ia de mal a pior: várias vezes tive que me abaixar dos tiroteios e passar pela boca de fumo no caminho para o trabalho. Não aguentei a situação e com menos de um ano de magistério tirei uma licença médica, estava desistindo de ser professor (desistência motivada pela violência do entorno e o descontentamento com as poucas ferramentas pedagógicas que eu tinha para as aula de educação musical).

 

“a maioria das propostas pedagógicas que tenho contato, trata de pequenos grupos com no máximo 15 crianças. Geralmente, estas atividades são inspiradas em metodologia ativas europeias. Em qual escola do ensino regular o professor tem esse número de alunos?”

 

Após o ocorrido fui transferido para outras escolas e em uma, bem mais tranquila, percebi que poderia desenvolver um ótimo trabalho. Entretanto, nunca estudei uma metodologia que se adaptasse ao ensino público brasileiro: falta de material pedagógico-musical, turmas com até 40 alunos,desmotivação geral e salas que não se adaptavam à experiência corporal.

Pedi ajuda a outros educadores nas mídias sociais. Talvez um livro ou alguns planos de aula pudessem me indicar um norte a seguir. Porém, as repostas eram: “monta um coral”, “faz O PASSO”, “usa Orff” ou “monta uma rádio”. Devo confessar que não entendia: como usar estas ferramentas sem a menor infraestrutura? Como ensinar O PASSO para dezenas de crianças e em salas lotadas de carteiras? Como montar um coral com estudantes que se negavam a cantar? Ninguém soube pormenorizar isso, pelo contrário, alguns alegaram que eu estava “menosprezando os alunos”.

Desta problemática resolvi criar algumas aulas simples, levando em consideração a realidade que eu e meus amigos passavam e que pudessem ser aplicadas em escolas públicas.

Divulgo estas atividades musicais em meu blog para ajudar pessoas que estão na mesma situação que a minha, além de trocar ideias com outros professores. Foram as necessidades que me levaram a fazer resumos e depois criar aulas. Junto desta necessidade, pensei em socializar aquilo que pode ajudar meus companheiros de profissão.

Marcelo Borba: A partir da sua experiência com o ensino de música (e as realidades dos espaços em que você trabalha), quais principais desafios a serem enfrentados?

Mateus Nikel: Feliz ou infelizmente, o que não faltam são desafios! Posso elencar os mais recorrentes: salas que comportam até 40 alunos, falta de instrumentos até para o professor, curta duração da aula e falta de local ideal para a disciplina.

Como relatado anteriormente, a maioria das propostas pedagógicas que tenho contato, trata de pequenos grupos com no máximo 15 crianças. Geralmente, estas atividades são inspiradas em metodologia ativas europeias. Em qual escola do ensino regular o professor tem esse número de alunos? Encontramos crianças desmotivadas, dependentes de ajudas sociais e com pouco apoio familiar. Já estamos no segundo bimestre e até agora estou correndo atrás de “cadernos” para alguns educandos. Se um caderno que custa 2 reais já dá este trabalho, imagine uma escaleta ou flauta?

 

“Falava-se e ainda fala-se muito em paisagem sonora, percussão corporal, parlendas e outras poucas atividades. Entretanto, não se situava estas atividades no contexto público escolar, na quantidade de aulas e no planejamento curricular da disciplina.”

 

Muitas escolas não tem um instrumento harmônico, daí o docente é obrigado a levar um . E se não houver como? Você faz um pedido “insistente” à direção ou “se vira” (na verdade, nós sempre nos viramos). Não havia instrumentos na primeira escola em que trabalhei e não dava para levar o meu. Eu não tinha carro e pegava ônibus e trem lotados. Atualmente estou trabalhando com copos. Comprei 50 e ainda estou testando esta abordagem de ensino. Como relatado acima, não encontrei métodos aplicados no ensino regular e nem fui formado para usar esta ferramenta.

A carga horária do primeiro segmento do ensino fundamental é de apenas um tempo por semana. Pouco tempo para fixar conteúdos e até para aplicar uma atividade. Muitas vezes, o professor demora várias aulas para finalizar uma ideia simples que é absorvida rapidamente em um grupo pequeno de estudantes. Passo sempre por esta dificuldade. Uma sala de música seria ótimo, entretanto, são raras as escolas que disponibilizam este espaço. Para se ter ideia desta problemática, até fazer uma simples roda é uma ação quase utópica (e praticamente todo método de musicalização sugere uma). As salas de aula são planejadas para a disposição tradicional das mesas e cadeiras, dificultando assim outra forma de organização. É óbvio que o professor pode empilhar as carteiras. Porém ele só tem um tempo de aula para empilhar as mesas e cadeiras, fazer as atividades na roda, arrumar a sala com antes e fazer a chamada. Soma-se a isso os baixos salário que obrigam o profissional da educação a dar 10 ou mais aulas por dia. Qual docente tem pique para arrumar 10 salas num dia?

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Marcelo Borba: E esse momento contemporâneo que vivemos, com pessoas hiper-conectadas pelas mídias sociais, na sua opinião, são mudanças significativas para a educação musical na escola? Como você entende isso?

Mateus Nikel: Esta pergunta é bastante ampla: tanto pode abarcar a tecnologia dentro da sala de aula e as ferramentas digitais usadas pelos alunos, as trocas de conhecimento nas comunidades virtuais ou até mesmo de outros assuntos que não me vêm à cabeça neste momento.

Inicialmente, creio que comunidades virtuais sirvam, entre outras coisas, para uma maior divulgação das ideias de outros educadores musicais. Nos conhecemos virtualmente certo? Caso não houvesse esta ferramenta, eu teria que editar um livro ou escrever um artigo. Opções difíceis de serem concretizadas.

Já quando tratamos das tecnologias em sala de aula, devemos ter muito cuidado. Todos nós sabemos que a infraestrutura das escolas e das famílias variam muito. Durante muito tempo ensinei as crianças como montar slides e fazer um apresentação em Power Point (ou no Impress, já que sou um defensor do Linux). Entretanto, não consigo fazer isso na escola em que trabalho atualmente. Mesmo com o barateamento do acesso à informática, muitas crianças ainda não têm computador. A acesso à internet ainda é feito por lan-houses.

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