FORMAR PROFESSORES COMO PROFISSIONAIS REFLEXIVOS, Donald A. Schön

              A ideia norteadora deste texto, baseia-se no fichamento de pontos importantes encontrados no artigo homônimo ao título, escrito por Schön (1995). Este está contido na organização de Nóvoa (1995) intitulada: Os professores e sua formação (Publicações Dom Quixote, Lisboa 1995.)

                 Schön começa nos alertando sobre a inadequação da educação na América, neste caso na América do Norte, o que não nos impede de utilizarmos os exemplos e análises contidas neste texto para um melhor entendimento das relações pedagógicas presentes na realidade brasileira. A culpabilidade por esta inadequação educacional, segundo o pesquisador estadunidense, geralmente é atribuída às escolas e aos professores, o que equivale culpar as vítimas (pg 79).

                Todas as reformas educacionais, erradamente tendem a seguir um mesmo princípio:

(…) uma regulação do centro para a periferia em que a orientação política emanada de um governo central para uma periferia de instituições locais é reforçada através de um sistema de prêmios e punições. (…) O resultado de tudo isto é uma espécie de jogo paralelo entre as escolas na periferia, que procuram continuar a fazer as mesmas atividades, e as autoridades centrais ou regionais que tentam controlar os comportamentos das escolas. Todas estas respostas das escolas são tentativas para conservar uma preciosa liberdade de decisão.

(SCHÖN, Donald A. ; 1995 pg 79)

             Vivemos o mito no qual o saber escolar é tido como “certo”, significando uma profunda e quase mística crença em resposta exatas. Este saber é molecular, feito de peças isoladas, que podem ser combinadas em sistemas cada vez mais elaborados de modo a formar um conhecimento avançado. Este conhecimento molecular também é tido como “privilegiado”. Caso um estudante tenha dificuldades de aprendizado, este é um problema do educando somente. Inventamos então categorias (por exemplo, aprendizagem lenta) para explicar esta realidade, o que na verdade nos livra de certas culpas.

                O conhecimento acadêmico não pode ser considerado como o saber superior. Alguns professores acabam dando voz aos estudantes e à sua cultura. Estes saberes são descritos pelo filósofo Michael Polanyi como conhecimentos tácitos. O que Paulo Freire vem a classificar como cultura do educando: lavar, cozinhar, contar “causos”, entre outras atividades não agraciadas pelo ensino acadêmico.

                Schön (1995) desenvolve a teoria do professor reflexivo pelo processo de reflexão-na-ação, de acordo com o pesquisador este mecanismo se desenvolve uma série de momentos, sutilmente combinados numa habilidosa prática de ensino. Existe, primeiramente, um momento de surpresa: um professor reflexivo permite-se ser surpreendido pelo que o aluno faz. Num segundo momento, reflete sobre este fato, ou seja, pensa sobre aquilo em que o aluno disse ou fez e, simultaneamente, procura compreender a razão por que foi surpreendido. Depois, num terceiro momento, reformula o problema suscitado pela situação. Num quarto momento, efetua uma experiência para testar a sua nova hipótese.               

                A dualidade saber acadêmico/saber prático é classificada por Schön como representações figurativas e formais. As representações figurativas são comumente chamadas de saberes práticos ou cultura do educando (FREIRE), por nós brasileiros. As representações formais se relacionam com o saber positivista, pautado nas ciências de caráter enciclopédico, representado pela instituição escolar. Através da reflexão-na-ação, o professor poderá entender a compreensão figurativa que o aluno traz para a escola, evitando assim, vários mal-entendidos em relação ao papel da educação mediante aos saberes formais e reflexivos. Quando um educador auxilia uma criança a coordenar as representações figurativas e formais, não deve considerar a passagem do figurativo para o formal como um “progresso”. Pelo contrário, deve ajudar ao educando associar estas diferentes estratégias de representação.

                O ato de compreender está diretamente ligado à confusão criada pelo novo. Um grande inimigo da confusão é a resposta que aparece como verdade única. Não há lugar para a confusão e reflexão que ela causa quando houver uma única resposta certa, principalmente pela suposição na qual o professor é quem ensina e aluno é o que aprende.

                Nota-se que na medida em que os professores tentam criar condições para uma prática reflexiva, geralmente, estes profissionais entram em conflito com a burocracia escolar. Isto se deve, em grande parte, ao modelo organizacional escolar, que presa pelas representações formais. Uma iniciativa que ameace os conteúdos tradicionais, obrigatoriamente, ameaçará a escola tradicional. Nesta perspectiva, o desenvolvimento de uma prática reflexiva eficaz tem que integrar o contexto educacional. Este dois lados da questão – aprender a ouvir os educando e aprender a fazer da escola um lugar no qual seja “possível” ouvir os alunos – devem ser olhados como inseparáveis.

                Quando se tenta incorporar a prática no seio acadêmico, alguns problemas começam a surgir. De um lado encontramos a epistemologia dominante na Universidade e, do outro lado, temos o seu currículo profissional normativo:

Primeiro,  ensinam-se princípios científicos relevantes, depois a aplicação desses princípios e, por último, tem-se um practicum cujo objetivo é aplicar à prática quotidiana os princípios da ciência aplicada. Mas, de fato, se o practicum quiser ter alguma utilidade, envolverá sempre outros conhecimentos diferentes do saber escolar. Os alunos-mestres têm geralmente consciência deste desfasamento, mas os programas de formação ajudam-nos muito pouco a lidar com estas discrepâncias. 

(SCHÖN, Donald A. ; 1995 pg 79)

              Schön (1995) termina seu artigo nos alertando sobre os riscos do retorno do racionalismo técnico (tecnicismo) ao sistema escolar. Caso esta corrente epistemológica domine o as instituições pedagógicas, o profissional reflexivo encontra ainda mais dificuldades de realizar seu trabalho.

BIBLIOGRAFIA:

SCHÖN, Donald A.; Formar professores como profissionais reflexivos, in Os professores e sua formação. Publicações Dom Quixote, 1995.

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