EPISTEMOLOGIA segundo Maria Lúcia de Arruda Aranha

quadro epistemologia

A tradução mais simples é “essência”, porém, o contexto no qual este termo é utilizado é bem mais amplo. Logo, transpassa um simples substantivo. Daí começam os tropeços de quem não saber exatamente o que significa este termo.

A teoria do conhecimento

Conhecimento pode ser entendido como uma relação que se estabelece entre a consciência que conhece e o objeto conhecido. A sociedade atribui à escola a tarefa da transmissão de saber aos indivíduos. Este saber é considerado “acabado”, contudo, desligado de muitas questões relativas à construção e imposição deste conhecimento.

A teoria do conhecimento é também chamada gnosiologia (do grego gnose, “conhecimento”) e epistemologia (do grego episteme, “ciência”). No entanto, o termo epistemologia adquiriu um termo mais específico, do estudo do conhecimento científico do ponto de vista crítico, isto é, do valor de suas hipóteses, do seu método, das conclusões alcançadas, da natureza do conhecimento científico, por isso a epistemologia é também chamada filosofia das ciências ou teoria do conhecimento científico.

(ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. 2006 pg 160. Grifos meus)

Questões relativas à problematização do conhecimento foram comuns desde os filósofos clássicos, porém, somente na idade média a teoria do conhecimento constitui uma disciplina independente. Foram os modernos, começando por Descartes, que começaram a investigar o que seria a origem do “conhecimento”, assim como a origem da “verdade”. Desta tendência, derivam duas correntes que veremos a seguir: o racionalismo e o empirismo.

Inatismo ou Empirismo

Rene Descartes (1596-1650). Pintura  feita pelo artista barroco Frans Hals – Museu do Louvre, Paris.

Rene Descartes (1596-1650). Pintura feita pelo artista barroco Frans Hals – Museu do Louvre, Paris.

O pensador francês Descartes (1596-1650) inovou filosoficamente ao iniciar a filosofia pela teoria do conhecimento. Começa a converter a dúvida em um método, portanto, começa a duvidar de tudo. Chega então á uma verdade suprema: penso, logo existo.

Seguindo sua linha de raciocínio, Descartes começa a descobrir uma série de ideias claras e distintas. Estas ideias não derivam das experiências, mas sim, encontram-se no espírito humano de forma “inata”.

Suas ideias não são sujeitas a erros, pois, vem da “razão”. Assim sua filosofia é classificada como “racionalista”. Descartes acredita que o conhecimento está dentro de cada um, cabendo apenas o exercício da reflexão para atingirmos a “verdade”.

Apesar de John Locke (1632-1704) ter tido grande influência de Descartes, suas proposições filosóficas seguiram em outra direção, uma outra epistemologia. Para Locke, o estudante é como uma tábua rasa, na qual nada está escrito. De acordo com esta linha de pensamento, o conhecimento só começa após a experiência sensível. Assim a teoria de Locke ficou conhecida como empirismo, do grego empería, que significa “experiência”.

John Locke (1632-1704)

Para Locke, há duas fontes possíveis para as nossas ideias: a sensação e a reflexão. A sensação é o resultado da modificação feita na mente por meios dos sentidos, enquanto a reflexão é a percepção que a alma tem daquilo que nela ocorre. Logo, a reflexão é uma atividade interna e resulta da experiência externa produzida pela sensação.

Comparando as duas escolas filosóficas, notamos que os racionalistas tendem a enfatizar os processos internos, o sujeito, em detrimento do objeto. Deixemos claro que Descartes não menospreza a importância do objeto, porém, o coloca em um papel secundário. Do modo contrário agem os empiristas: dão importância às relações sensíveis, contudo, relegam o educando a um papel de “peça de moldagem”, um ser sem cultura ou conhecimentos comunitários.

No século XIX, o Positivismo de Augusto Conte (1789-1857) segue e amplia tendência empirista. Para a ciência positivista, os verdadeiros conhecimentos são aqueles que podem ser observados e “testados” de maneira “científica”. Todas as ciências e maneiras de compreender a vida que não podem “amostradas cientificamente”, são rebaixadas à ciências inferiores.

Ciências Humanas e Positivismo

O naturalismo é a corrente científica que empresta o rigor metódico das ciências exatas e biológicas para as ciências sociais. Durkheim é um exemplo de pesquisador que usa este método em suas pesquisas. Para o sociólogo, os eventos sociais deveriam ser observados como se fossem coisas.

A psicologia também embarca nesta forma de interpretação de fatos. A corrente Behaviorista (do inglês behavior = conduta) ou teoria comportamentalista, teve como base as experiências de reflexo condicionado. O princípio do Behaviorismo se baseia o associacionismo. Segundo esta teoria, o aprendizado se faz quando associamos dois estímulos, em que um deles funciona como reforçador de determinada resposta.

Skinner aperfeiçoa esta técnica, desenvolvendo assim o que chama de Instrução programada, na qual o texto é composto por degraus de dificuldade e espaços em branco, cabendo ao educando preencher estes espaços. Este tipo de aprendizado foi bastante utilizado, principalmente pela corrente tecnicista presente em nosso país.

Proposta de Superação

As tendências descritas acimas são bastante limitadas e esbarram em muitos problemas indissolúveis. Se as ideias são inatas, como Descartes explica a sua mudança no tempo e espaço? Como experiências subjetivas, que são pregadas pelos empiristas, podem revelar a “verdade” objetiva?

Diante dessas brechas, várias outras correntes foram desenvolvidas. Neste momento analisaremos a Fenomenologia, desenvolvida no século XX por Husserl. Esta linha de pensamento se baseia na intencionalidade.

Dizer que a consciência é intencional, significa que, ao contrário do que afirmam os inatistas (racionalistas), não há pura consciência, separada do mundo, mas toda consciência tende para o mundo, no sentido de que toda consciência é consciência de alguma coisa. Ao contrário dos empiristas, os fenomenólogos afirmam que não há objeto em si, já que o objeto só existe para um sujeito que lhe dá significado.

(ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. 2006 pg 163)

A fenomenologia contrapõe-se ao positivismo. A escola de Husserl alega que não nos encontramos diante de fatos, de coisas, nem percebemos o mundo desprovido de significados. O mundo tem uma relação direta com a consciência, daí a importância do sentido, da rede de significações que envolvem o objeto percebido.

A psicologia retoma algumas das ideias renovadoras do pensamento epistemológico, reinventando e analisando padrões de ensino com outros olhos. Piaget dá vida a psicologia genética que traz consigo a conclusão que o desenvolvimento da inteligência ocorre por estágios sucessivos, caracterizados por um processo evolutivo e construtivista.

As teorias modernas que se utilizam da dialética para superar as correntes empiristas humanistas são consideradas como interacionais e construtivistas. Uma gama enorme de educadores participa desta corrente, entre eles podemos citar: Piaget, Paulo Freire, Vygotsky, Gramsci, ente outros, que se fundamentam ora na fenomenologia, ora no marxismo. O termo interacionista se deve à interação entre sujeito e objeto no momento da aprendizagem. O conhecimento não está nos sujeitos, como pregavam os humanistas; nem no objeto, como diziam os empiristas, mas sim na interação sujeito/objeto. Assim, o conhecimento e aprendizagem são conceitos dinâmicos, que não podem cair em verdades absolutas.

Neste quadro, notamos a diferença  na essência do que chamamos  de Epistemologia. O empirista Locke trata o conhecimento como algo a ser passado para as gerações futuras, já Freire acredita na dialogicidade como fonte pedagógica.

Neste quadro, notamos a diferença na essência do que chamamos de Epistemologia. O empirista Locke trata o conhecimento como algo a ser passado para as gerações futuras, já Freire acredita na dialogicidade como fonte pedagógica.

Descrevemos algumas correntes epistemológicas presentes em vários discursos pedagógicos atuais. Tenta-se com isso absorver algumas dúvidas relativas ao termo filosófico e criar uma fonte para pesquisas futuras.

REFERÊNCIAS

ARANHA, Maria Lúcia de A.A.. Filosofia da Educação. 3ª edição revisada e ampliada. São Paulo: Editora Moderna, 2006

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2 pensamentos sobre “EPISTEMOLOGIA segundo Maria Lúcia de Arruda Aranha

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