Cultura e Humanização

Seguindo com o fichamento de alguns capítulos do Livro: Filosofia da Educação (Aranha, 2006. ed Moderna). Agora, trataremos do capítulo 4 intitulado: Cultura e Civilização.

Nas sociedades hierarquizadas, os bens de culturais nem sempre se encontram igualmente disponíveis para todos.

1 – Conceito antropológico de cultura

De acordo com Aranha, no sentido amplo, antropológico, cultura é tudo o que o ser humano produz para construir sua existência e atender a suas necessidades e desejos. Podemos colocar neste conceito, além das artes e das letras, os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças.

Cabe à Antropologia filosófica investigar a concepção de ser humano, a partir do que ele é, refletindo sobre aquilo que se pensa que ele deva ser.

Conclui-se que o existir do ser humano não é natural, mas cultural. É cultural por ser simbólico, já que os contatos são intermediados pelos símbolos capazes de representar o mundo. Daí afirmamos que: a cultura é o conjunto de símbolos elaborados por um povo em determinado tempo e lugar, capacidade que inclui todas as formas de agir, pensar, desejar, exprimir sentimentos (pg 58).

Animais são considerados seres sem cultura. Por serem os mesmos em todos os tempos, seus atos não tem história, não se renovam, salvo as modificações evolutivas. Por mais flexível que seja o comportamento animal, este comportamento não passa de uma inteligência concreta, distinguindo-se da inteligência humana que é abstrata. O animal não domina o tempo, não faz história, já que seu ato se esgota no momento em que ele o executa.

Caso o desafio da situação nova ultrapassa a tecnologia tradicional, o ser humano tem capacidade suficiente para desenvolver meios para sanar o problema, ou até mesmo criar outra tecnologia. Essa transformação não é solitária, mas sim social, já que indivíduos se relacionam para criar sua própria existência a fim de atender às necessidades dos grupos.

2 – Cultura e socialização

O mundo cultural é um sistema de significados, já estabelecido por outros, de modo que, ao nascer, a criança encontra um mundo de valores dados, onde ela se situa. Até a emoção está sujeita às regras que dirigem de certa maneira a sua expressão.

A condição humana resulta da assimilação de modelos sociais: a humanização se realiza mediada pela cultura.

3 – Sentido restrito de cultura

É justo pensar que os bens culturais deveriam estar disponíveis a todos. Porém, em sociedades onde prevalece a nítida separação entre trabalhadores intelectuais e manuais, o mesmo não ocorre. Nesse caso, prevalece a relação de dominação, onde os populares são impedidos de elaborar criticamente a sua própria produção cultural e, consequentemente, são excluídos do acesso a esse tipo de bens culturais. E, quando deles se apropriam, tende a prevalecer o consumo da cultura dominante.

Estas distorções levam ao certos tipos de preconceito como : a ideia de se ter “cultura”, ou seja, o conhecimento como um benefício que pode ser dado. A pessoa “culta” seria aquela que tem posse de conhecimento, não se levando em conta o dinamismo da cultura e a sua dupla dimensão de construção.

 

4 – Diversos tipos de cultura

Como não vivemos em  uma sociedade homogênea, qualquer produção cultural está sujeita a avaliações que dependem da posição social do grupo no qual ela surge, o que nem sempre permite isenção, dando margem a concepções pré-concebidas sobre a produção de outros grupos.

Assim, ao contrapormos, por exemplo, “cultura de elite” e “cultura popular”,  estaremos emitindo juízos de valor depreciativos se considerarmos a cultura de elite superior porque refinada, elaborada, ao passo que a cultura popular seria inferior por se tratar e expressão ingênua e não intelectualizada. Outra confusão ocorre ao se identificar cultura de elite (que na verdade é a cultura erudita) como produção da classe dominante. De maneira geral, isso se deve ao pressuposto – enganoso –  de que a verdadeira cultura seria a a produzida pela elite. Quando se fala de conhecimento, despreza-se o saber popular para se valorizar apenas a ciência; ao se tratar da técnica, exalta-se  a mais refinada tecnologia; ao se referir à arte contemporânea, pensa-se nas pinturas de Picasso; e, quando se volta a atenção para a arte popular; é para considerá-la como arte menor, produção exótica ou objeto de curiosidade.

(ARANHA, 2006 pg 61)

A cultura erudita

É a cultura elaborada, acadêmica, centrada no sistema educacional, sobretudo na universidade. Recebe a classificação de erudita, pois, exige maior rigor na sua elaboração, e por isso mesmo, torna-se acessível a um público restrito.

Nas sociedades divididas impera um tipo de exclusão externa, que seleciona de antemão os privilegiados que terão acesso a essa produção cultural, quando na verdade a possibilidade de escolha  deveria estar garantida a qualquer um, independente de suas posses e status social.

A cultura popular

É a cultura anônima, produzida pelos habitantes do campo, das cidades do interior ou pela população suburbana das grandes cidades. Popularmente, esta cultura é chamada de folclore. O risco desta classificação está na concepção de folclore como realidade pronta e acabada, quando na verdade toda cultura é dinâmica, em constante modificação.

O filósofo italiano Antonio Gramsci  (1891-1937) também reconhecia que a classe trabalhadora, da maneira como é obrigada a viver, nem sempre tem condições de  elaborar sua própria visão de mundo, contraposta á ideologia dominante. Isso não significa que não tenha um sistema de opiniões, mas, ao contrário, essas pessoas preocupadas com as atividades do cotidiano possuem modos de pensar e agir que se manifestam de maneira fragmentada, confusa e, às vezes, até contraditória. A esse estado do saber chamamos “senso comum”. A originalidade no pensamento de Gramsci está em reconhecer a necessidades que tem o povo de formar seus próprios intelectuais, a fim de elaborar a consciência de classe. Para o filósofo italiano, a classe trabalhadora necessita de intelectuais orgânicos, ou seja, aqueles que, oriundos do próprio povo, sejam capazes de elaborar de forma erudita o saber difuso do indivíduo comum.

(ARANHA, 2006 PG 62)

 

 

A cultura de massa

 

É a resultante dos meios de massa e de mídia. Começou a surgira partir da revolução industrial, encabeçada por grupos profissionais (empresários de circo, editores, etc). A sua diferença é que ela não é propriamente folclórica nem erudita, mas, voltada para o mercado de consumo.

A grande alteração no processo de criação encontra-se no produtor cultural, que não é individual nem anônimo, mas constituído por uma equipe de especialistas. Ao contrário da cultura popular, a cultura de massa é produzida “de cima para baixo”, impoe padrões e homogeniza o gosto por meio do poder de difusão de seus produtos.

Os filósofos frankfurnianos são críticos severos da cultura de massa, porque “os meios de comunicação de massa são o oposto da obra de pensamento, que é a obra cultural – ela leva a pensar, a ver a refletir.

O perigo da cultura de massa está na sua estreita e dependente ligação com os meios de comunicação. Estes órgãos geralmente pertencem a grupos fechados, que detêm o monopólio de exploração cultural, com isso, adquirem o poder de manipular a opinião pública nos assuntos de seu interesse, seja no campo do consumo, seja no da política, ou ainda tentam despolitizar, quando isso for conveniente a interesses particulares.

A cultura popular individualizada

É aquela produzida por autores, compositores, enfim, intelectuais que não vivem dentro da universidade (não produzem cultura erudita), nem são típicos representantes da cultura popular, tampouco pela de massa.

Diante das diversas manifestações culturais, convém lembrar que elas são expressões diferentes de uma sociedade pluralista, e não tem sentido tecer considerações a respeito da superioridade de uma sobre a outra, que leva à depreciação das demais, quando a avaliação é feita segundo parâmetros válidos para determinado tipo de cultura. Com isso evitar-se-ia a contrafação, isto é, o produto resultante de imitação típico de uma cultura envergonhada de si mesma.

5 – Pluralidade cultural

Segundo a tendência conservadora, muitos definem sua própria cultura como a correta, estranhando o comportamento dos outros povos ou mesmo de segmentos diferentes em sua própria sociedade. Chegam a achar “naturais” certos atos e valores que se opõem a outros, considerados “exóticos”.

Aceitar estas diferentes é um dos meios para se evitar o etnocentrismo, isto é, o julgamento de outros padrões a partir de valores do seu próprio grupo.

Notam-se vários pontos negativos na difusão global das culturas. As relações entre os países não são simétricas, mas marcadas pela hegemonia de alguns poucos – principalmente da influência norte-americana-, o que provoca a predominância de valores culturais das nações centrais sobre as periféricas e a homogeneização de costumes. Por outro lado, as expressões da cultura local que permanecem muitas vezes se desestruturando para uso turístico, tal como acontece, por exemplo, com o carnaval brasileiro.

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