2013: o ano em que parte de Brasil entendeu que precisa OCUPAR e SER a mídia, por ANA ENNE

“As grandes emissoras de televisão mentem, as grandes revistas mentem, os grandes jornais mentem!”

 REVISTA VÍRUS PLANETÁRIO, julho de 2013

Uma vez, preenchendo um do­cumento em um cartório, quando perguntada sobre minha profissão, respondi: “professora”. Lembro-me de meu pai me questionando: “mas você também é jornalista! Por que você nunca responde isso?”. Na hora respondi que era em parte por ter muito orgulho de ser professora, mas por também não ter me identificado com a profissão de jornalista, que eu escolhera por sonho e por considerar um dos ofícios mais importantes da história moderna. Mas a vida pro­fissional foi tão decepcionante que abandonei o jornalismo e, de forma geral, passei a considera-lo um em­buste.

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Quando o Centro de Mídia Inde­pendente, há anos, criou seu sen­sível e preciso slogan, “Não odeie a mídia, seja a mídia!”, muitos de nós o adotamos como lema diário e forma de ação. Venho insistindo so­bre esse ponto, assim como muitos companheiros, com freqüência: a luta política necessariamente passa pela cultura, pelo simbólico, pela produção de sentido, pelo direito à significação. Por esta via, disputar as formas de expressão e comunicação é funda­mental, pois sem o direito à voz, à fala, ao texto, à imagem, sem a liber­dade do dizer, nos quedamos sub­metidos à hegemonia discursiva dos que constróem as representações dominantes.

E sem acesso aos meios para divulgar as contra-vozes, as dis­sonâncias, os outros pontos de vista, ‘ a diversidade e as múltiplas represen­tações, ficamos presos ao poder mo­nopolista de divulgação daqueles que controlam as informações e a pro­dução das ditas “verdades”, muitas vezes mentiras ideológicas, interesses políticos e econômicos, estratégias de distinção e submissão do outro.

A luta pela democratização da co­municação tem sido, dessa forma, pauta constante de diversos movi­mentos sociais já há décadas. E na corrente de protestos que varam o Brasil nas últimas semanas, essa pau­ta se transformou em emergente, gri­tante, pulsante, saindo das salas de aula dos cursos universitários mais críticos, das mobilizações mais segmentadas, dos “exércitos de brancaleones”, den­tre os quais me orgulho de ser parte ativa, que há tempos vêm chamando a atenção para isso.

A escandalosa, mentirosa, aviltante cobertura da grande mídia hegemônica sobre os protestos escancarou o que não dá mais para esconder: as grandes emissoras de televisão mentem, as grandes revistam mentem, os grandes jornais mentem! Mentem (ou se omitem e silenciam, e não esqueceremos essa covardia) porque têm interesses, mentem porque estão alinhadas ao grande capital, mentem porque parte de seus profissionais nada pode fazer porque é submeti­do às regras do mercado e parte não tem vergo­nha na cara, endossando de forma vergonhosa a mentira que alimenta o senso comum, perpetua as injustiças, mantém essa desigualdade históri­ca acintosa. Não tem vergonha na cara porque não honram o juramento que fizeram como jor­nalistas, de lutar por uma sociedade mais de­mocrática e justa, de buscarem a verdade, de valorizarem a vida sempre. Não tem vergonha na cara porque não são dignos de seus outros tantos companheiros de profissão que lutam, se colocam, não aceitam as ordens hegemônicas, valorizam essa profissão tão importante nas conquistas da modernidade, muitos dos quais tenho a honra e o privilégio de conhecer.

Ações como a dos valorosos anônimos que filmaram e transmitiram ao vivo as manifesta­ções, como a do NINJA (Narrativas Independen­tes, Jornalismo e Ação), bem como os depoi­mentos, fotografias, posts, comentários, vídeos, artigos postados em sites, blogs, redes sociais, jornais e revistas alternativas, compartilhados, distribuídos, re-apropriados, discutidos, nos lem­braram mais uma vez que o jornalismo é vida, é prática, é luta. Dentre os muitos ganhos que as recentes manifestações públicas nos trouxeram, destaco neste momento esta: elas estão fazen­do cair as máscaras do jornalismo mentiroso e capacho e fazendo renascer um jornalismo de espirito, aquele que um dia me fez me apaixo­nar e escolher essa profissão. Esse jornalismo me representa e me enche de orgulho. E é em nome dele que precisamos dizer não só “Seja a mídia”, de forma independente e anônima nas múltiplas redes sociais, mas precisamos e temos o dever de lutar pela democratização da comu­nicação, incluindo aí a luta contra o monopólio da comunicação de massa, inconstitucional, ile­gítimo e injusto. “O monopólio da mídia sufoca a liberdade de expressão”, dizia uma das faixas dos protestos. “Ocupe a mídia”, dizia outra. É isso aí, estamos na luta.

ANA ENNE é professora do departamento de estudos culturais e mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF),  jornalista formada pela PUC-Rio e doutora em Antropologia pelo Museu Nacional (UFRJ)

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