BANDIDO BOM NÃO LÊ, por Zuenir Ventura

João nunca deu dinheiro a Márcio VP na cadeia. Levava livros, mas não movido por “idéias civilizatórias”. Ele pedia e comentava o que lia. “Era alimento, e ele reagia ao que comia”. De sua biblioteca no presídio constavam Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil, de Sérgio Buar-que, O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, contos de Machado de Assis, A ditadura envergonhada, de Elio Gaspari. Tinha predileção por três autores: ítalo Calvino (leu primeiro Barão nas árvores e pediu os outros dois: Cavaleiro inexistente e Cava­leiro partido ao meio), Augusto dos Anjos, que adorava, e Albert Camus (principalmente O Homem revoltado), que gos­tava de citar.

Alguns desses volumes cobriam o corpo de Marcinho VP, quando foi encontrado dentro de uma lata de lixo. Em cima, um cartaz de cartolina dava a medida do ressentimento dos que o mataram: “Bandido não lê, seu babaca”.

 

VENTURA, Zuenir. Minhas Histórias dos Outros; Ed Planeta 2005.

 

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