Guantánamo e um sentido do Ramadã, por Por Fernanda Miguens

REVISTA HABANERO

Il cielo pone in capo
ai minareti
ghirlande di lumini.

Notte di Maggio, Ungaretti

“Eu desejo aos muçulmanos ao redor do mundo um mês abençoado com as alegrias da família, paz e compreensão”. Foram essas as palavras com as quais, pelo twitter, o presidente Barack Obama falou aos muçulmanos nos Estados Unidos e ao redor do mundo.

Por coincidência, ao acabar de ver a postagem de Obama no twitter, recebi por uma amiga um vídeo veiculado pelo jornal The Guardian no qual Mos Def, rapper muçulmano norte-americano, submete-se a uma dolorosa demonstração da técnica através da qual os presos em greve de fome estão sendo alimentados em Guantánamo, numa tentativa de chamar a atenção para as práticas violentas de tortura que fazem do lugar um verdadeiro campo de concentração, onde nenhuma ética é respeitada.

A alimentação forçada, realizada com a inserção de um tubo por via nasal, é feita por médicos, enfermeiros e capangas. O preso, com as mãos e as pernas amarradas a uma cadeira, tem também a cabeça sustentada e imobilizada por uma grossa tira de couro e o rosto agarrado por um capanga enquanto uma terceira pessoa introduz, ao som de gritos e de choro, um tubo por uma das narinas. Ao final do vídeo, de mais ou menos quatro minutos, Mos Def implorou aos prantos que a demonstração fosse interrompida, pois sentia as narinas e a garganta queimando e não podia mais suportar a dor. Em Guantánamo, o procedimento pode durar até duas horas.

A resposta do governo dos Estados Unidos aos protestos da Comunidade Islâmica norte- americana contra a alimentação forçada é deprimente. Sem jamais reconhecer a quebra de jejum forçada como tortura, o governo assegura que os presos religiosos serão alimentados do mesmo modo, mas durante à noite, em respeito ao calendário muçulmano.

aaa

Para Ibrahim Hooper, porta voz do CAIR, Conselho de Relações Americano-Islâmicas, a resposta beira uma ironia vexatória, pois “Não se trata apenas de religião, mas de direitos humanos e da violação de normas internacionais e da ética médica”.

Desde os ataques do 11 de setembro afegãos e iraquianos acusados de terrorismo estão presos na base militar, sem uma acusação formada, sem um processo instituído ou direito a julgamento. No total, 775 presos já passaram por Guantánamo. Às acusações da Cruz Vermelha, da Anistia Internacional e de outras entidades de que “os prisioneiros são vítimas de tortura, em desrespeito aos direitos humanos e à Convenção de Genebra” o presidente Obama respondeu, em 2009:

“Posso dizer, sem exceção ou equívoco, que os Estados Unidos não vão torturar”.

Entretanto, o National Defense Authorization Act – Ato de Autorização de Defesa Nacional, assinado por Obama, apresenta uma normatividade para as “regras avançadas de interrogatório”, ou seja: tortura. A partir do momento em que alguém é classificado como terrorista, incluindo cidadãos americanos, a 5º, a 6º, a 7º e a 8º emendas, que garantem proteção contra o abuso de autoridade, direitos para os que estão sendo processados criminalmente, direito ao julgamento com júri em determinados casos e, por fim, a proibição de que o governo federal use de força excessiva ou de métodos incomuns de interrogatório são imediatamente suspensas.

O que se vê não é apenas a protelação de uma resolução conforme o prometido por Obama – que incluiria não apenas a desativação de Guantánamo como de outros centros interrogatórios da CIA reconhecidamente espalhados pelo globo – mas, ao contrário, um agravamento descarado da situação dos presos e das práticas de tortura norte-americanas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s