Freirianas

Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo.
Não há, por outro lado, diálogo, se não há humildade. A pronuncia do mundo, com que os homens o recriam perma­nentemente, não pode ser um ato arrogante.
O diálogo, como encontro dos homens para a tarefa co­mum de saber agir, se rompe, se seus pólos (ou um deles) perdem a humildade.
Como posso dialogar, se alieno a ignorância, isto é, se a vejo sempre no outro, nunca em mim?
Como posso dialogar, se me admito como um homem diferente, virtuoso por herança, diante dos outros, meros “isto”, em quem não reconheço outros eu!
Como posso dialogar, se me sinto participante de um gueto de homens puros, donos da verdade e do saber, para quem todos os que estão fora são “essa gente”, ou são “na­tivos inferiores”?
Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de homens seletos e que a presença das mas­sas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar?

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Como posso dialogar, se me fecho à contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto ofendido com ela?
Como posso dialogar se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro e definho?
A autossuficiência é incompatível com o diálogo. Os homens que não têm humildade ou a perdem não podem aproximar-se do povo. Não podem ser seus companheiros de pronúncia do mundo. Se alguém não é capaz de sentir-se e saber-se tão homem quanto os outros, é que lhe falta ain da muito que caminhar, para chegar ao lugar de encontro com eles. Neste lugar de encontro, não há ignorantes ab­solutos, nem sábios absolutos: há homens que, em comu­nhão, buscam saber mais.
Não há também diálogo se não há uma intensa fé nos homens. Fé no seu poder de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens.

FREIRE, Paulo; Pedagogia do Oprimido; Paz e Terra pg 111/112

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Um pensamento sobre “Freirianas

  1. Ainda não tive oportunidade de Ler este de P.F (está na lista), mas pelo último parágrafo, imagino quantos direitos foram vetados de crianças e adolescentes no Rio, Brasil e mundo…crianças que nunca foram ouvidas e sem perspectiva, acabam por trilhar um caminho sem futuro e esperança, afinal, qual alternativas lhes foram dadas? Quantas opções de escolha eles conhecem?
    Eis o desafio de amor e fé do ato de Educar: acreditar que a realidade pode se transformar…(muitas reticências)…..

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