Boffinianas

(…) Contra um exercício do poder-dominação dentro da comunidade eclesial se move também Mateus. Por ele, fala Jesus: “Não vos façais chamar de mestres, porque um só é vosso Mestre e todos vós sois irmãos. Nem chameis pai a ninguém na terra, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem vos façais chamar doutores, porque um só é vosso Doutor, Cristo. O maior de vós seja vosso servidor” (23,8-11). Estranho é constatar que aquilo que exatamente Cristo não quis vingou na Igreja-instituição: emergiram da vontade de poder hierarquias de mestres, doutores, pais, pais dos pais e servos dos servos.

Os apóstolos são os portadores da paradosis (da essência da mensagem e dos eventos salvíficos de Cristo); este fato lhes confere uma autoridade especial; mas essa autoridade não funda nenhum privilégio, nenhuma dominação da liberdade dos outros; devem ser servos dos servos. A exousia funda a diakonia. Viver o poder como serviço e função diaconal constitui o grande desafio da Igreja-instituição; há tensões e tentações; nenhuma ideologia
pode justificar, contra o Evangelho, o que ocorreu ao longo da história da Igreja, onde hierarcas se carregaram de honras, títulos, poderes seculares e sagrados muitas vezes para satisfazer primitivos instintos de posse e de automagnificação.

A exousia dos apóstolos de ontem e de hoje não é apenas uma autoridade diaconal de pregar e transmitir a mensagem, mas também de construir e defender a comunidade. Paulo tem consciência da “autoridade que o Senhor me confiou para edificar e não para destruir” (2Cor 13, 10). Por causa de Cristo, não teme entrar em conflito com a comunidade e para defendê-la (não para puni-la); sente-se obrigado a cortar alguns membros (ICor 5, 3-5). Mas jamais esquece o sentido diaconal de sua autoridade: “Não queremos dominar vossa fé, mas queremos contribuir para a vossa alegria” (2Cor 1, 24; 2Cor 13, 10)*.

Estas considerações são de extrema importância para a legitimação das funções de unidade e de governo na comunidade eclesial. O portador destas funções, estando numa relação com a Igreja universal e na continuidade com sua história, realiza uma legitimidade formal. Esta, entretanto, se apresenta vazia, se não vier acolitada pela legitimação material, que é conquistada mediante o confronto com o exemplo de Jesus humilde, pobre, fraco, servidor. O modo como é exercida a autoridade deve ser o modo jesuânico, diaconal, cheio de respeito como entre irmãos e não como entre o senhor e o súdito.

BOFF, Leonardo; Igreja: Carisma e Poder; Ed. Record 2005 pg 134/135

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