Euro, etno e outros centrismos. Por REVISTA DE HISTÓRIA

Ao longo da História, diversos povos do mundo inventaram meios variados para atingir o que no Ocidente se convencionou chamar de “estados alterados de consciência”. Eles são geralmente vistos como normais pela sociedade que os provoca: os indianos têm consumido tradicionalmente a folha da cannabis sem considerá-la uma droga, assim como os habitantes da região andina plantaram e consumiram durante milhares de anos a folha da coca sem que esses atos fossem tratados como ilegais.

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(…)  Em 1950, preocupadas com o crescimento, nos países ocidentais, do consumo de cocaína – um dos componentes químicos presentes naquela planta –, as Nações Unidas formaram a chamada “Comissão da Folha da Coca”, que tinha como meta a elaboração de um informe sobre a produção e o consumo de coca nos países andinos. Esse informe criou um consenso com relação à nocividade da folha da coca, e o ato de mastigá-la passou a ser enxergado como um vício indígena que precisava ser extinto. Afinal, provocava “alterações psíquicas”, “introspecção”, “prostração moral”, “escassa capacidade de atenção”, e, portanto, “grande prejuízo econômico”. O documento serviu de sustentação para a Convenção Única de Estupefacientes, assinada em 1961, que normatizou, entre os países assinantes, a erradicação do cultivo da coca e do hábito de mastigação num prazo de 25 anos.

O etnocentrismo daquela Comissão se manifestou num pequeno detalhe: a população que fazia uso da planta havia milênios sequer foi consultada. Todos os supostos efeitos da coca sobre o corpo e a mente foram avaliados a partir de uma série de prejulgamentos e especulações dos membros da Comissão, todos educados numa cultura alheia aos andinos e distante deles. Sempre que nos deparamos com costumes diferentes e os interpretamos a partir da nossa própria cultura, estamos cometendo um ato etnocêntrico.

O gravíssimo problema do etnocentrismo é que ele não nos permite enxergar a lógica, as razões ou as motivações daquele que é diferente de nós, simplesmente porque não admitimos conceder-lhe a palavra, achando que bastam a nossa opinião, impressão ou julgamento. Um exemplo claro é o surgimento do nome Yucatán para designar a península do México, no século XVI. Os conquistadores perguntaram aos nativos, em língua espanhola, como se chamava aquele lugar em que tinham acabado de desembarcar. Os nativos, em sua própria língua, responderam algo que os espanhóis entenderam por “Yucatán”. E assim batizaram o local. Na verdade, o que os nativos disseram foi: “Não te entendo”. Para os colonizadores, qualquer resposta serviria, e, graças àquela incompreensão básica, o nome erroneamente dado por eles é até hoje um monumento ao etnocentrismo: “Não te entendo”.

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Para o etnocentrismo, tudo o que é diferente se torna inferior, feio, ridículo, injusto, cruel, selvagem ou irracional. Ao julgar as distinções de forma negativa, o etnocêntrico passa a querer modificar os costumes ou crenças diferentes, em nome da superioridade dos seus próprios costumes ou crenças. Dito de outra forma: ser etnocêntrico é acreditar que só existe uma verdade (a nossa) e uma beleza (a nossa), assim como também só existem a nossa justiça e a nossa racionalidade. Em O que é etnocentrismo, o antropólogo Everardo Rocha escreve: “Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência”.

Todos os povos do mundo tendem a ser etnocêntricos. Os cheyenes (índios das planícies norte-americanas) se autodenominavam “os entes humanos”; os akuáwas, grupo tupi do sul do Pará, consideram-se “os homens”; os navajos, grupo indígena norte-americano, também se intitulavam “o povo”; osxavantes acreditam que seu território tribal está situado bem no centro do mundo, tanto quanto os incas dos Andes peruanos achavam que sua capital, Q’osqo (ou Cuzco, como foi pronunciada a palavra pelos conquistadores espanhóis), era o “umbigo do mundo”.

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Por que tendemos ao etnocentrismo? Na medida em que todos os indivíduos são educados em uma cultura, e que toda cultura distingue o bem do mal, o feio do bonito, o certo do errado, é natural sermos etnocêntricos quando deparamos com outros povos.   Mas há diversos graus de etnocentrismo. Alguns povos simplesmente menosprezam quem é diferente e dele quer se afastar. Outros, além de menosprezar, acham que têm o dever de transformá-lo, e chamam isso de “civilizar” ou “evangelizar”. E há aqueles que vão ainda mais longe: menosprezam e não acreditam que seja possível transformar quem é diferente. Ele deve ser eliminado.

(…)

RETIRADO DE : Revista de História da Biblioteca Nacional

LINK: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/educacao/euro-etno-e-outros-centrismos

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