Recortes de Jean Ziegler, por Mateus Nikel

Fiquei impressionado com a Entrevista da Revista Carta Capital nº 195 com o sociólogo suíço Jean Ziegler.

Relator especial da ONU sobre direito à alimentação, ele lança o livro : Destruição Em Massa – Geopolítica da Fome (que já comprei pela net e estou louco pra ler).

Na obra  mostra-se a relação fome/exploração do ser humano. Como dá pra alimentar toda a população do mundo, mas os interesses capitalistas impedem esse ato humanitário.

Abaixo seguem alguns recortes meus:

(…) A fome aumenta mundialmente, com exceção do Brasil e da China. A cada cinco segundos, uma criança com menos de 10 anos morre de fome, segundo da­dos do ano passado; 57 mil pes­soas morrem ao dia. E 1 bilhão de pessoas, dos 7 bilhões que somos, está sofrendo de subnutrição grave permanentemente, com mutilações.

Não têm vida de família nem de traba­lho, são destruídas pela subalimentação permanente. O mesmo relatório da FAO, que tem muitos detalhes de cada país, diz que a agricultura mundial, no atual estágio de desenvolvimento, poderia alimentar normalmente 12 bi­lhões de pessoas com   2,2   mil calorias por adulto, em média.

Isso significa que hoje, pela primeira vez desde o início do milênio, não há mais falta ob­jetiva de alimentos. Uma criança que morre de fome neste instante em que falamos está sendo assassinada. O mundo viveu revoluções formi­dáveis, eletrônica, industrial e tecnológica, de aumento das forças produtivas da humanidade. Pela primeira vez na história, a fome não é mais problema de produção, porque o mundo tem estoque, mas de falta de acesso.

AAA

(…) Há um massa­cre. Não é um problema de produção, como foi no tempo de Josué de Castro (médico brasileiro que, em 1946, lançou o livro Geografia da Fome, no qual mostrava que a fome não era um pro­blema natural, mas sim das ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que davam a seus países. NR)

(…) No ano passado, as 500 maiores socie­dades transcontinentais detinham 52,8% do PIB mundial, segun­do o anuário do Banco Mundial. Eles escapam de todo controle social ou de governos, fun­cionam segundo um único princípio de or­ganização, que é a maximização do lucro no menor tempo possível. Essas multinacionais têm um poder no planeta que nenhum papa, imperador ou rei teve antes.

(…) A produtividade da agricultura familiar é muito mais alta. Não falo apenas do ponto de vista econômico, mas social também. A agricultura familiar não produz desemprego, não produz êxodo rural e acumula, a cada geração, competência produtiva. E o investimento pode ser no longo prazo. Há muitos indicadores que provam de forma completa que a agricultura familiar em toda parte do mundo é mais produtiva do que a industrial.

AAA

Esse grupo certamente inclui empresas da área de alimentos, como a Monsanto?

Sim, dez grupos controlavam, no ano passado, 85% de todos os alimentos negocia­dos no mercado mundial. Entre eles a Car-gill, Bunge, Nestlé, Dreyfus Brothers, Archer (Daniels) Midland. A Cargill, que tem sede em Minnesota, detém 31,2% de todo o trigo comercializado no mundo. Controlar signifi­ca ter os meios de transporte, os silos para armazenar etc. Eles dominam a formação de preço, naturalmente, e decidem concretamente, a cada dia, quem vai comer e vi­ver neste planeta e quem vai passar fome. O problema é de acesso.

O senhor fala dessas empresas, que formam uma cadeia. Como a gente foge disso? Porque hoje, o que os liberais diriam, é que sem essas empresas não seria possível produzir alimentos para todos.

Isso é a guerra ideológica. Naturalmente é totalmente falso. Vamos discutir mais ampla­mente. Essas sociedades são muito eficientes. Elas dominam a formação dos preços no mer­cado mundial. Existe hoje 1,2 bilhão de pessoas no mundo, um sétimo da população mundial, que é extremamente pobre, que vive com 1,25 dólar por dia. Que vive nas favelas, não pro­duz e precisa comprar sua alimentação diária. Quando, por causa da especulação nas bolsas, o milho sobe, – e nos últimos dois anos ele su­biu 63°/o, a tonelada de trigo dobrou e o preço da tonelada de arroz das Filipinas subiu de 100 dólares para 1,2 mil -, nas favelas do mundo os preços explodem; nas favelas do mundo as mães não podem comprar.

Há alimento, mas as pessoas não têm renda para comprá-lo, é isso?

Não têm renda! E esse número de mais de l bilhão de pessoas é estável, não muda. Nos últimos anos, apenas Brasil e a China tiveram um formidável progresso. A fome é calculada de duas maneiras. Em número absoluto de víti­mas e pela porcentagem da população. No Bra­sil, em 20 anos (de 1990/91 a 2010/2012), as vítimas de fome baixaram de 23 milhões para 13 milhões. Em números absolutos, caíram 40,4°/o, o que é extraordinário e só comparável com a China, onde os famintos diminuíram de 254 milhões para 158 milhões. Uma baixa de 37,6%. Em 199 1, no Brasil, ao menos 15% da po­pulação sofria de subalimentação grave e perma­nente, que conduz à morte próxima.

O senhor cita Josué de Castro e é importante porque esse trabalho mostra principalmente que a fome é resultado de uma política.

Antes foi da natureza. Hoje é uma política. Josué de Castro conta, no final de sua vida, du­rante o exílio na França, como começou a se in­teressar pelo problema da fome. Na sua juven­tude, foi médico psiquiatra em Recife, além de pediatra. Os seus pacientes reclamavam de de­pressão, todos eles pobres. E Castro descobriu que o problema não era mental, mas era a fome. Eles não comem e por isso são depressivos, são atacados pela loucura, são egoístas, destroem a família. O problema é fome.

O que mudou desde então?

Antes de Josué de Castro até a segunda guer­ra mundial o que era dominante era a teoria de (Thomas) Malthus – a fome é uma espécie de seleção natural, necessária para diminuir a população mundial e que a pobreza é resultado da grande fertilidade das mulheres pobres. Essa idéia foi muito útil às classes dominantes, naturalmente. Eles vêm a miséria que criam, mas dizem que essa miséria obedece a uma lei na­tural blá-blá-blá. Essa esquizofrenia foi justi­ficada por Malthus.

Mas Hitler acaba se tornando um aliado de Josué de Castro quando utiliza, na Europa, a fome para destruir os eslavos. Há documen­tos em que Hitler e seus seguidores se reúnem e decidem reduzir em 80 milhões as popula­ções eslavas na Europa do Leste para abrir es­paço para os colonizadores germânicos. E, para isso, passa­ram a distribuir ali­mentos suficientes para uma dieta de apenas 800 calorias nos países ocupados, muito abaixo das 2,2 mil calorias necessárias. É uma política de genocídio.

Nos campos de prisioneiros, os mortos pela fome organizada foram muito mais numerosos do que pelo gás. Os europeus subitamente veem que a fome, que era um fenômeno da África, chega a eles e era organizada pela mão do ho­mem, não pela natureza. Nesse momento apare­ce o livro de Castro, A Geopolítica da Fome, que explica que a fome não é um fenômeno natu­ral, mas produzida politicamente pelos homens. Uma coincidência extraordinária, porque mes­mo o livro sendo brilhante, se a consciência co­letiva não recebe a mensagem, nada muda.

Então os governos vitoriosos reagem a essa evidência e se tornam aliados de Josué de Cas­tro (Roosevelt, Churchil etc.), que foi convidado pelos governos a dizer o que se devia fazer. A sua resposta, junto com outras pessoas, deu apoio à criação não somente da ONU, mas de uma organização paralela, a FAO, fundada seis meses depois, para promover a produção ali­mentar, ajuda internacional ao pequeno agri­cultor e humanitária urgente. Josué de Castro foi o primeiro presidente da FAO. A primei­ra campanha internacional contra a fome, em 1946, foi iniciativa direta de Castro. Devia ter um monumento a ele em cada cidade do Brasil.

AAA

RETIRADO DE : Revista Caros Amigos nº195

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