Betinho e a Chegada da Peste

Betinho sonhava que acontecesse com a aids o que se dera com a tuberculose, e naquele momento mostrava-se muito animado com a descoberta de um anticorpo que destruiria o vírus. “Daqui a pouco (rindo), vão ter que fazer a ‘descampanha’ da aids: ‘furem as camisinhas, trepem à vontade, façam amor adoidado porque acabou a paranóia'”.
                Quando lhe perguntei que cuidados uma pessoa nas mesmas condições deveria tomar, ele foi taxativo:
Não entrar em situação depressiva. A depressão mata mesmo sem aids. Tem gente que se canceriza. O principal remédio é manter o horizonte da esperança. Por isso me recuso a dizer que sou um condenado e que a aids não tem cura. Me recuso até a dizer que é um desastre; é um desafio que a humanidade está enfrentando. E, sobretudo, não aceito o estigma, não internalizo o anonimato. Isso faz um mal terrível.
(…) quero que o governo brasileiro assuma a sua responsabilidade perante os crimes que cometeu no passado em relação ao sangue, quero que ele dê assistência aos aidéticos, deixe de dar dinheiro para as armas atômicas para cuidar da saúde do povo. Não só da saúde, mas da miséria, da pobreza, da esquistossomose, da doença de Chagas etc.
(…)
Uma das partes polêmicas da entrevista foi sua resposta à minha pergunta “Você recorreria à eutanásia?”.
Se eu chegar a uma situação irreversível, acho que tenho o direito de morrer. Não acho que tenha que sofrer para morrer, e existem situações em que a vida não vale o sofrimento. Quero viver como pessoa, não como pedaço de corpo.

VENTURA, Zuenir. Minhas Histórias dos Outros; Ed Planeta 2005. pg 127/128

betinho

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